Crítica: "Desobediência" nos lembra que amar é um ato de provocação para sermos quem somos

Estrelado por potentes atuações de Rachel Weisz e Rachel McAdams, temos em mãos mais um ótimo exemplar do cinema lésbico


Nesse maravilhoso mês de junho comemora-se o Mês do Orgulho LGBT, e, ressuscitando minha lista com 10 filmes LGBTs modernos para amarmos, muita gente soltou os filmes que ficaram de fora, o que é natural. Ao fazer a lista, doía ter que deixar alguns nomes tão bons no escanteio, porém, durante a discussão, percebi que isso era, na verdade, algo bom. Queria dizer que estamos bem servidos de filmes LGBT para caber em muito mais que apenas uma lista de 10 nomes. Spoiler alert: parte 2 da minha lista sairá.

Vendo o apogeu do cinema LGBT na contemporaneidade com "O Segredo de Brokeback Mountain" (2005), a impressão que fica  é que os temas só foram abordados na Sétima Arte recentemente, o que é um equívoco. Assim como a própria diversidade de gênero e sexualidade, o Cinema, desde o primórdio, abordava tais tópicos: em 1919 nascia o média-metragem alemão "Diferente dos Outros". O filme de Richard Oswald foi feito para bater de frente à uma lei alemã que condenava a homossexualidade como "ofensa criminal", sendo o primeiro filme pró-gay da história. A obra foi censurada e diversas cópias destruídas pelos nazistas, mas felizmente o filme foi salvo. Quase 100 anos depois, cá estamos, ainda usando o cinema como ferramenta de conscientização.

Quando falamos de cinema lésbico em específico, encontramos um obstáculo a mais, simbiótico da própria existência feminina: a fetichização. Esse fenômeno acontece quando uma obra lésbica é usada no intuito de estimular o prazer masculino, em produções geralmente dirigidas por homens. Um filme lésbico ser dirigido por homens não é um problema - é um reflexo da indústria como um todo, ainda dominado por mãos masculinas -, e sim quando a representatividade é engolida pelo estereótipo, algo inerente na realidade da mulher na sociedade.


Apesar de existirem em menor número que os filmes gays - estou usando o binarismo sem excluir obras que retratam a bissexualidade -, o cinema lésbico encontra cada vez mais espaço graças à demanda do público. Pérolas como "Cidade dos Sonhos" (2001), "Monster: Desejo Assassino" (2003), "Minhas Mães e Meu Pai" (2010), "Pária" (2011), "Azul é a Cor Mais Quente" (2013), "Carol" (2015) e "Princesa Cyd" (2017) são exemplos crescentes tanto dos grandes estúdios quanto de produtores independentes a explorarem as vastas facetas da realidade lésbica. E o montante vai crescendo ano após ano.

"Desobediência" é o novo grande expoente a tentar um lugarzinho ao lado dos citados. Dirigido pelo recém vencedor do Oscar, Sebastián Lelio - ganhador do prêmio de "Melhor Filme Estrangeiro" pela obra-prima "Uma Mulher Fantástica" (2017) -, o longa nos enterra numa comunidade judaica ortodoxa em Londres. Lá é o berço de três amigos de infância: Ronit (Rachel Weisz, de "O Lagosta"), Esti (Rachel McAdams, de "Spotlight") e Dovid (Alessandro Nivola, de "Demônio de Neon"). O roteiro não entrega grandes detalhes do passado do trio, mas sabemos que Ronit fugiu daquele opressor mundo, então Esti e Dovid seguiram as tradições e acabaram se casando.

Porém há um detalhe crucial: Ronit e Esti são o amor uma da outra, e o motivo da ruptura social de Ronit foi a descoberta do romance das duas durante a adolescência. Ronit, que agora vive em Nova Iorque, é considerada uma renegada entre a estrita comunidade em que Esti permanece fiel, e seu retorno - para o funeral do seu pai, o rabino daquele povo - será como uma pedra caindo sem graciosidade num calmo lago.


Ronit pondo os pés na cidade é como uma tempestade se aproximando. Há um clima tenso não dito entre os presentes, principalmente por ela não saber que Esti agora é casada com Dovid. Mas o matrimônio não é força o suficiente para impedir a atração entre ambas. Esti até tenta, todavia, aquele ímã gigante que é Ronit é tudo o que ela queria.

Durante uma caminhada entre as duas, Ronit questiona o motivo para Esti ter se casado com um homem. O motivo é óbvio: ela está dançando conforme a música. No entanto, aquela música não é no mesmo ritmo que sua própria canção. Esti não é bissexual, ela mesma afirma não gostar de homens, porém aquela sociedade é a única que ela conhece, e, para se manter membro dela, as regras devem ser aceitas.

Ronit, no entanto, não está interessada em seguir os passos daquela lambada. Num jantar com parentes e amigos, ela diz não querer ter filhos, um ultraje silencioso para a mesa. Uma mulher então afirma que Ronit deve ter filhos e se casar, pois "é o jeito que tem que ser". "É o jeito que tem que ser ou é uma obrigação? Se eu me casar, depois de dez anos eu acabaria me matando, ou esse seria o sentimento". O clima do jantar está morto. Engraçado que Esti até esboça certa empatia pelas ideias, apesar de não ousar externalizá-las. Mas solta uma reflexiva frase sobre como as mulheres, ao colocar o sobrenome dos maridos após o casamento, abdicam-se de suas próprias identidades. Por que os homens não fazem o mesmo?


A veia feminista de "Desobediência" é latente. O próprio título é moldura exemplar para isso; mesmo não sendo uma obra sobre mulheres estraçalhando as regras sociais como ele pode sugerir, há a subversão naquele romance cheio de amarras proibidas. O contexto em si ajuda a potenciar a transgressão e dá uma conotação fresca para a inserção da homossexualidade dentro da religião, afinal, poucos filmes exploram o judaísmo como plano de fundo; em sua grande maioria, o embate é contra a fé católica.

A luta da natureza versus religião não é nova na arte, e o Cinema não fica de fora. "Desobediência" consegue seu lugar ao sol ao atingir um nível de emoção que supere as obviedades sem sair da atmosfera sóbria que o contexto social pede. Estamos diante de uma situação muito complexa para os três peões desse triângulo amoroso torto. Ronit é assombrada pelo passado e se sente culpada por ter abandonado suas raízes em busca de libertação; Esti deliberadamente escolhe o encurralamento por não possuir vivência além das grades daquela condição; e não podemos esquecer de Dovid, que vê a esposa escapar de suas mãos com a chegada de Ronit.

Mas não há religião capaz de superar a ânsia entre Esti e Ronit, que rende a cena de sexo elementar da produção, carregada por potentes atuações de suas atrizes, que poderão arrematar indicações ao Oscar 2019 caso a fita perdure na mente dos votantes. O ápice da química entre as duas Rachels, a sequência é composta com muita delicadeza e crueza, possuindo uma coreografia notável: a primeira peça que Ronit tira de Esti não é algum dos seus artefatos de vestuário, como era de se esperar, e sim sua peruca. Mais cedo na película, vemos que Esti usa a peruca para se encaixar no modelo perfeito de esposa judaica, tirando-a apenas no banho e quando vai dormir. Ao ser a primeira coisa a sair do corpo de Esti, Ronit está simbolizando a ruptura entre a fé e o desejo, imageticamente falando. Esti está, por fim, despida do peso do judaísmo.
"Me chame pelo seu nome que eu te chamo pelo meu" "Rachel" "Rachel" "Rachel" "Rachel"

As cores presentes no filme são preponderantes para a orquestração do clima austero onde as personagens estão instaladas. Durante toda a duração, peguei-me pensando como "Desobediência" é o oposto de "Me Chame Pelo Seu Nome" (2017). Enquanto o filme de Luca Guadagnino é ensolarado, colorido e vibrante pelo trabalho fotográfico e cenográfico, valorizando os tons de azul, verde e amarelo daquela bucólica casa italiana; "Desobediência" é frio e opaco, dotado de tons de marrom e preto de uma Londres nada aconchegante. Se o romance de Oliver e Elio era tão cheio de aceitação do meio, o visual do longa de Lelio é prisma fundamental para assimilarmos a maneira como o relacionamento das protagonistas não é bem vindo.

E Sebastián Lelio segue comprovando como é um dos melhores diretores da atualidade a tratar dos dramas femininos. Com três filmes seguidos a explorarem as vidas de suas personagens - "Glória" (2013), "Uma Mulher Fantástica" e "Desobediência" -, seus roteiros extraem magicamente a doçura e os percalços particulares da realidade de Glória, Marina e Ronit. Sendo "Desobediência" seu primeiro longa fora do Chile e, consequentemente, em inglês, seu estilo conseguiu manter-se intacto na transposição de estúdios, sendo mais um cineasta a não deixar de ser quem é ao chegar mais perto de Hollywood.

"Desobediência" tinha em mãos material suficiente para ser apenas outro filme LGBT que coloca seus personagens contra a intolerância da religião, mas é produção de valor pelo domínio cinematográfico de todos os elementos na tela. E é exatamente aqui que está o fator diferenciador entre o filme "mais um" e o "notável". Nome a surgir para fortalecer o cinema lésbico, "Desobediência" é manifesto que supera gêneros para nos lembrar que amar é um ato de provocação, e algumas transgressões são imprescindíveis para que possamos alcançar a liberdade absoluta de sermos quem somos.

Crítica: "Desobediência" nos lembra que amar é um ato de provocação para sermos quem somos Crítica: "Desobediência" nos lembra que amar é um ato de provocação para sermos quem somos Reviewed by Gustavo Hackaq on 6/20/2018 04:15:00 PM Rating: 5

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