Crítica: "Ingrid Vai Para o Oeste" e nossos esforços diários para mantermos a vida perfeita no Instagram

Divertido, ácido e reflexivo, o filme é uma odisseia sobre obsessão por redes sociais e a construção de web-celebridades #goals

Se você está lendo a este texto, as chances de você ter chegado até aqui através de uma rede social foi gigantesca - se você for daqueles que acompanha a coluna direto no site, um beijo para você. Sem nos darmos conta, os facebooks e twitters da vida são nossos novos deuses, ditando o que e como consumimos: quantas coisas você gosta porque conheceu através de um deles? O impacto dessa era é enorme e, ao mesmo tempo, quase imperceptível para nós que estamos tão imersos nela.

Se o consumo de cultura e produtos está quase simbiótico com as redes sociais, a ascensão de web-celebridades encontra o mesmo caminho. Blogueiros, influenciadores digitais, youtubers, enfim, as nomenclaturas contemporâneas das novas "profissões" são esses ícones da world wide web, os que antes eram os galãs e mocinhas da novela das oito. Para você ser alguém nesse mundo, você deve estar em pelo menos uma das diversas redes sociais disponíveis do bufê da internet, caso contrário, você não existe. E não existir no império do Mark Zuckerberg é quase inimaginável.


Ingrid (Aubrey Plaza) é uma garota viciada em Instagram - e quando digo "viciada", estou falando no mais puro sentido do termo. Mentalmente instável, ela sai de um hospício quando sua mãe morre, deixando uma poupuda herança. É aí que ela descobre Taylor Sloane (Elizabeth Olsen), uma dessas blogueiras e influencers que vivem de divulgações no Instagram e de postar sua vida glamourosa e ensolarada em Los Angeles - todos conhecemos inúmeros exemplos parecidos, só abrir o explorar da plataforma (isso se você não já seguir vários deles). Ingrid então vai para a costa oeste tentar encontrar uma saída de virar bff de Taylor, já que o contato pelo aplicativo foi apenas o começo.

A protagonista é uma stalker - indivíduo que obsessivamente persegue uma pessoa e invade a esfera de privacidade da vítima, empregando táticas de perseguição e meios diversos. O motivo que a levou para o hospício foi um ataque de ciúmes que ela teve com uma web-celebridade depois de a mesma não convidá-la para seu casamento - e o único contato que as duas tiveram foi uma troca de comentários pelo aplicativo. 


Ingrid então estuda milimetricamente a vida de Taylor, copiando seus cabelos, lendo os mesmos livros, frequentando os mesmos lugares e comendo as mesmas comidas, por mais horríveis que elas sejam. Ela quer, de uma forma bem torcida, ser aquela celebridade, e copiar seus passos a fazem se aproximar mais do alvo desejado antes de possuir um contato físico, que vem com um plano maluco: ela segue Taylor até sua casa e sequestra o cachorro da moça, para no dia seguinte voltar como heroína que resgatou o bichinho. É a oportunidade perfeita para entrar na casa - e na vida - de sua ídola #sucesso.

Enquanto vai rapidamente ganhando a simpatia de Taylor, Ingrid percebe que deve manter o mesmo padrão de vida da nova amiga para poder circular pelo mesmo ciclo social e comprar as banalidades caríssimas que a garota excessivamente chama de "the best". Ingrid cai de cabeça num turbilhão de mentiras, desde sua descolada vida imaginária ao namoro postiço com o dono do quarto alugado por ela, o maior fã do Batman que existe, Dan Pinto (O'Shea Jackson Jr). E com isso, Ingrid vai parar no seu Olimpo: o Instagram de Taylor. O print da publicação termina em um porta-retrato. Pé no chão, cabeça no céu *emoji de irmãs gêmeas*


Essa estrutura é bem batida: a protagonista que finge ter outra vida para se aproximar de alguém e verá tudo ruir eventualmente - no recente "Lady Bird: A Hora de Voar" há a mesma trama -, todavia, como comento no texto de "Lady Bird", o cinema não é apenas um meio de inventar diferentes rodas, e sim de renovar as já criadas. "Ingrid Vai Para o Oeste" deve entregar algo que consiga compensar a obviedade de sua premissa, e isso é feito, em primeiríssimo lugar, pelo seu corpo de atores.

Elizabeth Olsen - irmã das gêmeas Olsen - é a apoteose de todos os traços das blogueirinhas brancas e cools que infestam a blogosfera, e está impecável na pele de Taylor. Há constantemente uma áurea de encantamento ao redor da personagem, como se ela exalasse o perfil das princesas clássicas, só que a versão muóderna - seu príncipe encantado é um pintor hipster e seu reino está na tela do seu iPhone, a um clique de distância. No entanto, é Aubrey Plaza, claro, que não só rouba como realiza um assalto à mão armada na película.


Acostumada a interpretar papéis excêntricos e estranhos, sua Ingrid não foge do molde e é uma bizarrice histriônica que gera gargalhadas e pena concomitantemente. É evidente todas as suas deficiências sociais e mentais, e ela encontrou no Instagram uma válvula de escape que acaba preenchendo todos os seus vazios com pixels e curtidas. E é fácil nos espelharmos na personagem, ao nos pegarmos presos nesse universo de curtidas e corações no meio das fotos. E, mesmo nos fazendo rolar de rir - há momento genuinamente hilários -, o longa vai nos pondo para pensar, numa suave montanha-russa que sai do cômico para entrar em túneis mais complicados e sombrios.

Quanto tempo e esforços não cedemos para as redes sociais, a fim de destacarmos um lado do complexo prisma de nossas vidas? Como só existimos se habitarmos a internet, é lá que os espelhos de nossas vidas são moldados, portanto, a forma como alimentamos esses espelhos são a forma como as pessoas vão moldar quem somos. São selfies, filtros, marcações, screeshoots das nossas músicas favoritas e publicações sobre a série do momento, tudo em nome da construção dos nossos eus.


Mas isso não é algo prejudicial - quando realizado com moderação. O que Ingrid e muita gente acaba esquecendo é que esses espelhos são só um reflexo invertido, e é a realidade que conta. Sabemos disso, porém negligenciamos esse fato óbvio para mantermos diariamente a vida perfeita nos quadradinhos do aplicativo. Nossas vidas valem mais em .jpg numa tela de poucas polegadas do que no formato .carneosso. E piora quando usamos o celular para consertar tudo o que achamos de ruim em nós mesmos, ao invés de lidarmos no plano físico. No Instagram, Ingrid é saudável, bonita, cheia de amigos badaladeiros e com uma vida de fazer inveja, tudo o que é irreal de verdade. Mas quem vai querer viver no real quando os algorítimos nos fazem tão populares e amados?

"Ingrid Vai Para o Oeste" fala nada de novo, todavia é um alerta espirituoso e modelado de maneira lúdica sobre os perigos da fixação pelo virtual e o quanto nossas novas e forjadas celebridades são cada vez mais fundadas sobre o número de seguidores do que de fato suas qualidades e talentos. A obra, uma pérola da nossa geração com um final irônico e gritante, supera os modismos passageiros para se tornar um trabalho sólido, incisivo e divertido que até nos faz questionar se não seria melhor desativar o Instagram por alguns dias. #pensativo 🤔💔🚫👋

Crítica: "Ingrid Vai Para o Oeste" e nossos esforços diários para mantermos a vida perfeita no Instagram Crítica: "Ingrid Vai Para o Oeste" e nossos esforços diários para mantermos a vida perfeita no Instagram Reviewed by Gustavo Hackaq on 5/09/2018 06:52:00 PM Rating: 5

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