Crítica: "Dirty Computer" é incrível em suas partes, mas um computador defeituoso como conjunto

O "filme emocional" lançado para acompanhar o 3º álbum de Janelle Monáe não consegue ser uma obra-prima afrofuturista

Obs.: para diferenciar e deixar o texto mais claro, o filme será chamado de "Computador Sujo", a tradução literal do seu título, enquanto o álbum será referido como "Dirty Computer". Você pode assisti-lo completo (em inglês) no link oficial abaixo.



Uma tendência na música que parece se solidificar de vez é a moda dos "álbuns visuais". O conceito nada mais é do que um álbum musical que possui trabalhos audiovisuais acompanhando todas as músicas, entregando dois modos de consumir o material.

Se você imediatamente pensou na Beyoncé, não é por acaso: ela reascendeu a fama dos visual albums neste século com o "Beyoncé" (2013) e o "Lemonade" (2016), mas não se engane; essa forma de divulgação existe desde a década de 60. Os Beatles foram quem começaram o que se tornaria o "álbum visual" que conhecemos hoje com "Os Reis do Iê Iê Iê" (1964), filme que acompanhava o álbum "A Hard Day's Night". Os exemplos que seguem a mesma linha são vários: "Purple Rain" (1984) do Prince, que rendeu o álbum de mesmo nome; "Moonwalker" (1988), filme de Michael Jackson para o álbum "Bad"; e o famigerado "O Mundo das Spice Girls" (1997), divulgando o "Spiceworld".


"A Hard Day's Night" - meu álbum favorito da banda, inclusive - não é de fato um "álbum visual". O produto visual que o acompanhava era na verdade um filme - com estreia nos cinemas e tudo. É aqui que entra o "Computador Sujo", filme de Janelle Monáe para a promoção do seu terceiro álbum de estúdio, "Dirty Computer".

Então não, o "Dirty Computer" não é um álbum visual; "Computador Sujo" é um filme musical, como "La La Land" (2016) ou "Moulin Rouge: Amor em Vermelho" (2001). A própria descrição no link oficial do trabalho acrescenta: "vídeo emocional: filme narrativo que acompanha um álbum musical". E também não, esse texto não está aqui para discorrer sobre o "Dirty Computer" - o álbum -, e sim sobre o "Computador Sujo" - o filme. São materiais absolutamente distintos, então suas análises também.


O média-metragem - de 46 minutos - segue Jane 57821 (Monáe), uma androide presa numa instalação governamental. Ela foi capturada por ser bissexual, algo que vai contra a nova sociedade totalitária, obstinada a apagar todas suas memórias e transformá-la num "computador limpo". O filme então passeia pelo presente da robô, que questiona sua condição e as regras opressoras do seu mundo, enquanto ela encontra seu grande amor, Zen (Tessa Thompson), agora uma espécie de enfermeira "limpa" - suas memórias já foram excluídas.

Antes do lançamento do filme, Monáe já havia lançado quatro trechos do trabalho em forma de videoclipes para quatro canções - "Make Me Feel", "Django Jane", "Pynk" e "I Like That". O que percebíamos era que, apesar de possuírem temas similares, os vídeos não se encaixavam dentro de um único universo, então como todos poderiam possuir conexões dentro do filme? A saída foi uma faca de dois gumes: os clipes são na verdade memórias e sonhos da protagonista, e assistidos concomitantemente aos técnicos responsáveis por apagá-los.


Digo que a ideia foi uma faca de dois gumes pois, ao mesmo tempo em que se mostra uma solução criativa e absolutamente prática para a realização do todo - os diretores dos clipes não são os mesmos diretores dos filmes -, há uma ruptura narrativa muito grande em alguns segmentos. Enquanto "Pynk" se encaixa sem esforços na narrativa da trama, partes como a de "I Like That" são abstratas demais para fazer sentido dentro do contexto geral - apesar da implícita resolução de que ali seria um sonho ou uma fantasia.

Como toda ficção científica, um dos aspectos mais importantes para a consolidação da atmosfera da obra é seu design de produção, ou como o mundo futurista foi imageticamente criado. Com efeitos especiais competentes - temos carros voadores e robôs espiões -, "Computador Sujo" esbanja pretensão com seus enquadramentos milimétricos e formas geométricas que misturam cyberpunk com afrofuturismo, em cenas absolutamente lindas. Desde a maca negra onde Jane é submetida à "limpeza" até os acessórios dourados usados pelos computadores limpos, gerando uma áurea de santidade, há bastante esmero e cuidado na formulação visual do filme, que remete desde de "Blade Runner: o Caçador de Androides" (1982) até "O Quinto Elemento" (1997).


A fotografia, aliada com a direção de arte, faz contrastes interessantes de cores, principalmente o azul e o rosa, que dialoga com uma das canções presentes no filme, "Pynk". Um hino feminista sem fronteiras, Monáe canta sobre a apropriação de cores por gênero, o velho "azul para meninos e rosa para meninas". Para ela o rosa é marca de orgulho e está tudo bem os meninos ficarem com o azul, pois ela e todas as mulheres são rosa por dentro e por fora. Em momentos de maior tensão, o azul é a cor presente, enquanto o rosa é dedicado para as cenas mais leves e emocionantes.

Porém, logo de cara há um aspecto defeituoso: as atuações. Enquanto há algumas performances passáveis apenas com bom grado, como a de Tessa Thompson, nem Monáe, que fez bom trabalho em "Moonlight: Sobre a Luz do Luar" (2016) e "Estrelas Além do Tempo" (2016), está em grande momento. Há sempre uma película de estranheza e artificialidade, como se os atores não estivessem confortáveis ou familiarizados com os eventos do roteiro.


E esse aqui é outro problema: o roteiro é muito óbvio, raso e previsível. Assim como o álbum, o filme discorre sobre liberdade sexual feminina, orgulho negro, ativismo LGBT e a onda conservadora que o planeta vem enfrentando, todos temas importantíssimos e que renderiam uma obra sem precedentes, porém, não há muito aprofundamento nos 46 minutos. Os segmentos musicais conseguem encontrar apogeus impressionantes, porém a narrativa fílmica jamais consegue acompanhar a grandeza dessas partes, o que deixa o todo defeituoso.

Com atuações medianas e um roteiro fraco, o que aparentava ser uma obra-prima do afrofuturismo vai cada vez mais se revelando pobre, pouco inspirado e com saídas deveras elementares. É claro que há um apreço cinematográfico por trás de alguns aspectos da produção, todavia, os números musicais são muito mais requintados do que os momentos com a narrativa convencional, talvez por conta da diferença de direção/produção, o que é reflexo perfeito da obra geral: exemplar em suas partes, rasa como conjunto. Como um suposto álbum visual, "Computador Sujo" é um sucesso - os clipes são obras-primas. Como filme em si, que é a sua real proposta, é um computador defeituoso. O Oscar foi cancelado.

Crítica: "Dirty Computer" é incrível em suas partes, mas um computador defeituoso como conjunto Crítica: "Dirty Computer" é incrível em suas partes, mas um computador defeituoso como conjunto Reviewed by Gustavo Hackaq on 5/05/2018 06:16:00 PM Rating: 5

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