Crítica: "Um Lugar Silencioso" alia apelo comercial com iconicidade no tempo do terror fastfood

Praticamente sem falas, o filme encontra raro sucesso pela realização competente, ousada e, claro, pelo alienígena sensacional

Aviso: a crítica contém detalhes da trama.

Acho que estamos criando um ciclo no cinema de terror norte-americano: todo ano agora temos um grande nome vindouro do país que desponta no mainstream. Em 2016 foi "O Homem Nas Trevas"; em 2017 o oscarizado "Corra!"; e em 2018 a novidade "Um Lugar Silencioso" (A Quiet Place). O que todos possuem em comum? São trabalhos abertamente comerciais que prezam pela própria qualidade assim como esperam encher salas de cinema - algo assustadoramente raro.

"Um Lugar Silencioso" se passa em 2020; o planeta foi coberto por criaturas caçadoras, violentas, cegas e com uma audição sobrenaturalmente apurada. Os seres humanos são obrigados a viverem em absoluto silêncio já que ainda não foi encontrada uma forma de eliminar os bichinhos - a seleção natural ataca novamente e todos os que roncam durante o sono já devem estar mortos. Seguimos então os rumos família Abott - o pai (John Krasinski, também diretor e co-roteirista do filme), a mãe (Emily Blunt, esposa de Krasinski), a filha mais velha (Millicent Simmonds) e o caçula (Noah Jupe). O grande diferencial da família é que a filha nasceu surda, então todos já sabiam língua de sinais muito antes das criaturas aparecerem, o que vem garantindo sua sobrevivência.

E o que isso significa? "Um Lugar Silencioso" é um filme que praticamente não possui falas. Só há duas cenas em que ouvimos as vozes dos atores, todo o resto é com língua de sinais - imediatamente cria-se um paralelo com "A Gangue" (2014), 100% feito com língua de sinais e sem uma fala sequer. A produção tomou extremo cuidado para que a equipe técnica não emitisse barulhos, a fim de captar o som diegético da melhor forma possível - aumentados na pós-produção. Mesmo sendo um filme silencioso, o som é de vital importância para a obra, afinal, é ele que dita as regras de sobrevivência da realidade. Há o uso de trilha-sonora pois trata-se de uma película comercial, e a ausência de música deixaria o filme bem seco; segundo o diretor, sua intenção não era criar um "experimento mudo" - como "A Gangue".


A obra não possui exatamente um início, meio e fim: vislumbramos apenas um pedaço daquele mundo a partir dos olhos dos protagonistas. A fita não revela como as criaturas chegaram, o que elas são e o que elas querem. Há algumas pistas deixadas pelo caminho, como os jornais nas paredes da casa dos Abott, que dizem que as criaturas são indestrutíveis e que os governos não sabem o que fazer. Em momento nenhum há a indicação direta de que elas são alienígenas, porém, em conjunto com sua própria anatomia, o filme entrega pequeninos detalhes para o desenvolvimento dessa noção: o terceiro filho do casal é morto logo no início ao segurar um foguete espacial.

Não recebemos muitas dicas de à quantas anda o resto da civilização também. Há um enorme quadro de desaparecidos numa cidade abandonada e o pai tenta contato via rádio com diversos países, sem sucesso. A única prova de que os Abott não são a última família viva da região vem durante a cena em que o pai acende uma fogueira do alto de um silo, tendo algumas outras à distância sendo acesas ao mesmo tempo. É a maneira mais segura de perguntar "Vocês estão bem?". Somando, claro, de um dos melhores momentos da película, quando o pai e filho encontram um desolado homem enterrando sua esposa - presumidamente morta por um dos aliens.

Após o rápido prólogo, que já elimina um personagem, pulamos um ano no tempo. A mãe está grávida e a família se prepara para o parto, cada vez mais próximo. E com "se prepara" não me refiro apenas aos procedimentos médicos do ato, mas também aos cuidados que todos deverão ter contra os ets, afinal, bebês são humanos pequenos e violentamente barulhentos. Na verdade, todo o modo de vida aqui teve que ser mudado: como fazer tarefas básicas como cozinhar e tomar banho no mudo? Viver é um ato barulhento e nem percebemos.


Além disso, a família desenvolveu técnicas para tornar suas vidas menos difíceis: espalham cinzas pelo chão nos principais caminhos ao redor da fazenda para abafar ainda mais seus passos, sempre descalços; do lado de fora da casa há várias luzes brancas espalhadas, que podem ser mudadas para vermelhas em caso de perigo; e o cômodo à prova de som para o bebê, envelopado com papel-jornal.

Ao mesmo tempo, o pai tem dificuldade de se relacionar com a filha, que sofre de um complexo de culpa pela morte do irmão - foi ela que entregou o foguete de brinquedo para o garoto -, e acaba descontando em cima do pai, achando que ele não a ama pelo ocorrido - situação para gerar dramas futuros, claro. Rapidamente podemos notar que o roteiro se utiliza de estereótipos para cunhar a personalidade dos quatro protagonistas. O pai faz a linha mais ríspido, enquanto a mãe é doce. A filha é a adolescente rebelde que não se enquadra e o garoto o filho-da-mamãe - e interessante como esses estereótipos são tão bem traduzidos a partir da língua de sinais, afinal, as personalidades dos personagens acabam dependendo dos diálogos para serem compostas.

Mas os estereótipos não são defeitos: o filme teve que ceder aos chavões para poder desenvolver seus atores mais facilmente, afinal, sem diálogos falados fica bem mais complexo esse desenvolvimento e, consequentemente, a criação de apego por parte da plateia, algo vital em qualquer filme, principalmente em um terror. Até mesmo os diálogos em língua de sinais são escaços, com longas cenas feitas apenas com o som ambiente, o que quebra a tradição do cinema de horror como um todo, famoso por ser tão barulhento.


"Um Lugar Silencioso" é bem inteligente ao deixar o público juntar peças para compreender melhor o que está se passando. Por exemplo: sabemos que os aliens são exímios caçadores, mas jamais os vemos comer suas presas - tanto que o corpo da esposa do desconhecido está inteiro, com exceção dos cortes proferidos pela besta. Talvez seja porque os animaizinhos não cacem para se alimentar, e sim porque detestam tanto altos sons que partem em disparada para eliminar sua fonte - há uma sequência em que um deles destrói uma televisão ligada, e não há sinais de tentativa de alimentação. Ele só queria parar o barulho.

Também não sabemos quantos deles há espalhados pelo mundo - a não contatação do pai com rádios internacionais mostra que eles estão por toda parte. Sabemos apenas que, na área onde a família mora, existem pelo menos três deles. E sua composição imagética é incrível: os efeitos visuais que criaram os ets na tela são muito fidedignos, auxiliados por uma edição de som primorosa, gerando sons bizarros que aumentam o temor pela criatura. Mesmo sem nome, o pet entra para o hall de alienígenas modernos da cultura pop, como o Demogorgon de "Stranger Things" (2016-presente), que parece ser um primo de segundo grau do alien de "Um Lugar Silencioso" - ambos possuem cabeças que abrem para revelar seus pequenos dentes; os Heptapodes de "A Chegada" (2016) e o Clover da franquia "Cloverfield" (2008-presente).

E falando em "Cloverfield", houve muita especulação durante a divulgação pré-lançamento de "Um Lugar" sobre a obra ser, na verdade, mais um filme da série - que adora produzir seus volumes em segredo. As semelhanças de premissa são perceptíveis, e "Um Lugar" quase foi o nº 4 da saga do Clover, porém, felizmente, os roteiristas decidiram mudar o texto e criar um filme único. Depois do desastre que foi "O Paradoxo Cloverfield" (2018), a franquia já pode ser enterrada.


E muito mais que "Cloverfield", a produção bebe de diversas fontes. Há traços de "Sinais" (2002) com as cenas no milharal; "Gritos Mortais" (2007), que também tem uma entidade matando quando suas vítimas gritam; e até "Metalhead" (2017), episódio da quarta temporada de "Black Mirror" (2011-presente), mostrando um mundo pós-apocalíptico dominando por robôs assassinos. A composição de "Um Lugar" não é original, mas sua realização encontra demasiado sucesso pela expertise das partes, desde a direção corretíssima de John Krasinski até à atmosfera, tão única ao termos um horror sem os personagens berrando. O silêncio usado como ferramenta para o medo poderia dar muito errado (como gelar a espinha sem abrir a boca?), entretanto a tarefa não é empecilho aqui.

Há alguns deslizes menores perceptíveis, como pequenos furos no roteiro - há uma cena em que um cano foi quebrado por uma das criaturas, e o pai passa ao lado sem ouvir a água jorrando, o que vai desencadear problemas - e soluções que, apesar de espertas, são óbvias - como ninguém pensou antes no que acontece no final? Podemos justificar isso pelo pouco tempo de chegada dos ets - o filme de passa por volta do dia 470 desde a aterrissagem das criaturas -, porém ainda assim alguém poderia ter chegado mais cedo à solução em questão. Contudo, nada disso consegue derrubar o longa efetivamente, com suas inúmeras qualidades sendo o suficientes para um saldo pra lá de positivo.

"Um Lugar Silencioso" é uma pérola para integrar o panteão dos bons nomes do terror moderno (e deixar a plateia respirando com o menor ruído possível), possuindo personalidade, autenticidade e várias cenas icônicas - a da banheira é um louvor. Conseguir aliar a qualidade da Sétima Arte com o apelo comercial nesse nosso tempo do terror fastfood aparenta ser uma realização secundária para os milionários estúdios. Exemplos como "Um Lugar" merecem toda a atenção para lembrar às produtoras que nos entopem com porcarias cheias de sustos baratos que dá para construir um filme competente e ganhar dinheiro ao mesmo tempo. A raridade de sua existência não deveria ser mérito por estar acima de uma média tão baixa, todavia não estou reclamando.

Crítica: "Um Lugar Silencioso" alia apelo comercial com iconicidade no tempo do terror fastfood Crítica: "Um Lugar Silencioso" alia apelo comercial com iconicidade no tempo do terror fastfood Reviewed by Gustavo Hackaq on 4/11/2018 10:04:00 AM Rating: 5

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