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Crítica: dispensando o sobrenatural, "A Caverna" tem o terror feito pelas nossas mãos

Justiça à essa pérola espanhola da claustrofobia, um dos melhores filmes de terror do século
Atenção: a crítica contém detalhes da trama.

Estamos quase chegando na terceira década do século XXI, e um dos estilos cinematográficos mais saturados é o found footage - as "filmagens encontradas" que são ficcionalmente verdadeiras e em "tempo real". Bastante inerente no terror, o primeiro expoente a usar a artimanha foi "Holocausto Canibal" (1980), causando tanto alvoroço que o diretor, Ruggero Deodato, teve que comprovar às autoridades que a fita não era real.

Mas foi com "A Bruxa de Blair" (1999) que o estilo ganhou massiva força no berço da internet. Foi ali que os estúdios perceberem o quanto o found footage era uma mina de ouro, pois: carecia de baixo custo de orçamento e rendia rios de dinheiro, pela facilidade de produção e o apelo comercial gigantesco. "A Bruxa de Blair" é até hoje um dos mais rentáveis filmes da história, custando US$ 60 mil e arrecadando US$ 250 milhões mundialmente, 4.166X mais.

O longa definitivo do FF no novo milênio é "Atividade Paranormal" (2007). O maior filme em custo e benefício já feito foi o pontapé de uma franquia de sucesso (de público, pelo menos) e tanto ajudou a consolidar quanto a saturar o estilo. O primeiro exemplar, sem grandes questionamentos, é um dos melhores filmes de terror já feitos por ser fresco, empolgante e verdadeiramente assustador.

E os nomes que se utilizam do FF são inúmeros - em Hollywood então, nem se fala: "O Último Exorcismo" (2010), "Apollo 18: A Missão Proibida" (2011), "A Pirâmide" (2104), "A Forca" (2015), "A Visita" (2015), etc etc etc. Uma boa rota de fuga do modelo comercial plastificado de Hollywood são os terrores espanhóis - e é da Espanha o melhor FF já feito no século: "[Rec]" (2007). Outro a render um franquia, "[Rec]" não só revitalizou o subgênero como também o cinema de zumbis, sendo comprado nos EUA com o remake (terrível) "Quarentena" (2008). Mas esse texto é sobre nenhum dos citados, e sim acerca de um pequeno e até anônimo terror espanhol que, com esse texto, eu espero ganhe mais visibilidade, mesmo que ainda distante da fama que essa pérola mereça: "A Caverna" (La Cueva/In The Darkness We Fall).


A premissa de "A Caverna" é a mais simples possível: cinco amigos - duas garotas e três rapazes - estão fugindo de suas realidades e compromissos para curtir as férias na ilha Formentera, em território espanhol. Perto da paradisíaca praia, eles encontram uma caverna e, ao explorá-la, acabam perdidos enquanto lutam contra o tempo para encontrar uma saída. E é isso.

O primeiro ato é o mais puro cliché de qualquer subgênero do terror: jovens bebendo, causando confusão, festejando, namorando e tudo mais - aquele climão de baderna imbecilóide que já está mais do que batido. Apesar dos chavões, o começo serve para desenhar a personalidade de cada um e a relação entre eles, o que será vital do decorrer da película, principalmente no último ato. É o caso de ceder às obviedades em prol de algo maior que estar por vir - e de obviedades o filme não escapa, sendo previsível em muitos momentos, no entanto, jamais deixando a atmosfera sair da tensão.

Não falei sobre algum personagem em específico porque a protagonista da obra é a caverna. Pesquisei em várias páginas e artigos sobre a produção do filme e infelizmente achei quase nada - reflexo do seu anonimato. Nos créditos há um diretor de arte, porém não posso dizer com certeza a maior questão que me permeou durante a duração: as filmagens aconteceram dentro de uma caverna real ou ela foi feita em estúdio? 


A impressão que a fita passa é de que o cenário é real, todavia, o que está na tela é impressionante, não importando a resposta. Se for cenografia em estúdio, a veracidade é de cair o queixo. Se for uma caverna mesmo, a pesquisa de campo foi perfeita. Ali é um assustador labirinto, e desde a entrada a caverna vai marcando os personagens como algo maligno que está feliz por ter presas entrando em sua garganta de bom grado. A fotografia complicadíssima - há momentos em passagens baixas e estreitas, onde os atores precisam se arrastar - consegue extrair beleza das formas geológicas construídas pelo tempo, mesmo em filmagens de mão características do FF. Há cenas que parecem se passar em outro planeta, tamanha estranheza dos moldes lapidados pela natureza.

Os pobres personagens não demoram a perceberem que estão perdidos nas profundezas da terra. O que parecia ser um caminho direto se mostra impossível ao ter diversas entradas e saídas, que vão enterrando cada vez mais o destino de todos ali, o que fará com que a plateia se recorde de "Abismo do Medo" (2005), que também coloca suas personagens dentro de uma caverna. Mas ao contrário do citado, e da maioria dos FF, única criatura a atacar os personagens em "A Caverna" é um rato, não entidades ou espíritos. 


Sem água e comida, o longa se torna um survival movie - aqueles em que os personagens devem sobreviver - física e psicologicamente - às condições extremas: "127 Horas" (2010), "Gravidade" (2013), "O Regresso" (2015) e "Águas Rasas" (2016) são alguns exemplos modernos. E é aí que reside todo o horror de "A Caverna". Além de desenhar as relações, o pateta início mostra uma das personagens passando mal depois de uma bebedeira, e, caso você já tiver tomado um porre, sabe o quanto o dia seguinte é péssimo. Álcool desidrata, e toda a bebida da noite anterior bate com força na personagem, a primeira a sucumbir aos efeitos colaterais da desidratação.

Depois de dias rodando pelos caminhos tortuosos da caverna, um dos rapazes chega à conclusão de que um deles deve morrer para salvar os outros - sim, ele estava sugerindo canibalismo. O que poderia ser algo construído apenas para o choque é virada precisa do roteiro, que não se dá ao luxo de banalidades - tudo está na tela porque deve estar. De longe a cena mais aterrorizante da película, vemos reações fidedignas, distantes da massa de terror em que os atores esboçam pouquíssima reação ao ver seus amigos morrendo. Aqui o pânico e o encarar da realidade é palpável e gela a espinha.


A obra é, além de tudo, um estudo sobre a complexidade das reações humanas. Um grupo tão unido começa a se enxergar como rivais diante da pressão, do medo, da fome, da morte. O ímpeto de sobrevivência é tão gigante que ultrapassa qualquer laço criado por nós? Podemos julgar os caminhos escolhidos por não estarmos dentro da situação? O que nós mesmo faríamos ali? São questão complexas que o filme não faz questão de responder, apenas de levantar. O roteiro do também diretor Alfredo Montero e Javier Gullón (que adaptou o maravilhoso "O Homem Duplicado", 2013), é riquíssimo ao abordar cada personalidade com uma reação diferente, e como os conflitos vão moldando o caldeirão que pode rachar a qualquer momento.

E "A Caverna" é um FF que respeita o próprio estilo. O que mais existe é exemplar que destrói a própria diegese - como "O Último Sacramento" (2013), que ora é filmado usando o FF, ora linguagem normal, além de possuir câmeras simplesmente impossíveis. O argumento primário do subgênero é o filme ser a filmagem crua - ou editada de forma "documental" quando "encontrada". Apenas uma pequena sequência inicial e final saem da câmera de mão e ganham trilha-sonora em "A Caverna", deixando claro que não se tratam do rolo original: todo o resto do filme é pura e simplesmente as imagens e os sons da câmera dos personagens, justificados pelas escolhas dos envolvidos. Aqui você não se perguntará "Por que eles não simplesmente largaram a câmera?".

"A Caverna" é um dos maiores acertos do horror contemporâneo ao unir a veia comercial com o primor da arte - a plateia vai se manter grudada na cadeira enquanto se contorce de claustrofobia num produto de real qualidade. Simples em sua premissa e estrelar em concepção, o longa faz o que muitos terrores esquecem: o quanto nós mesmos somos estopins para o medo. Abrindo mão de qualquer traço fantasioso ou supernatural, o horror é gerado pelas mãos humanas, e isso, quando bem feito, é para causar a mais tangível agonia. É muito mais fácil aceitarmos o medo vindouro de algo que existe do que vampiros, lobisomens ou demônios - e em situações como a de "A Caverna", a pessoa do seu lado é seu inimigo mais do que qualquer alienígena invadindo o planeta.

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