Crítica: "A Gangue" não possui falas e prova que o amor e o ódio não precisam de tradução

Um dos melhores do século, "A Gangue" é inteiramente dialogado com língua de sinais - que nem o próprio diretor entendia

Eu sou um verdadeiro rato de cinema - daqueles que sai caçando filmes nos mais remotos lugares do mundo. Ver aquele filme da Croácia com uma sinopse bem estranhona já me faz arrepiar a epiderme. Caso você acompanhe o Cinematofagia, já deve ter percebido que raramente falo sobre blockbusters - ou os "filmes pipoca", como costumamos chamar aqui. Não que não assista a esses filmes, entretanto, consigo me animar bem mais com premissas ou execuções fora da caixinha.

Longe do grande centro cultural cinematográfico que são os Estados Unidos, nascia na Ucrânia um filme que desafiava as leis do cinema e não só pulava a caixinha como a incinerava: “A Gangue” (Plemya/The Tribe), longa-metragem de estreia de Myroslav Slaboshpytskiy. O filme acompanha um garoto (Grigoriy Fesenko), que, recém-chegado à uma escola, se depara com um mundo escondido em suas entranhas: há uma verdadeira rede ilícita com roubos e prostituição dos alunos, que possuem hierarquia e uma pequena ditadura, onde os líderes abusam dos mais fracos.

A grande jogada do filme é que ele é inteiramente executado por atores surdos, ou seja, não há uma palavra sequer dita durante toda a sua exibição. Quando não temos diálogos na Língua de Sinais Ucraniana, a regra vigente entre os personagens, o diretor recua a câmera para que não esbarremos com falas, deixando as mais de duas horas de filme quase que num silêncio absoluto. Há som, claro, tanto do mundo ao redor dos atores quantos seus arquejos humanos, mas não há recurso algum para se transmitir a mensagem além do visual.


Vamos parar para pensar um pouco. Quando isso aconteceu na história do Cinema? Numa superficial e mental pesquisa, caímos nos primórdios da arte, quando Georges Méliès assombrava a todos no final do século XIX com seus filmes mudos. Poderíamos então cair em filmes bem mais recentes, como o lituano “Few of Us” (1996), que segue uma mulher silenciosa; ou “O Artista” (The Artist), que em 2011 causou ao resgatar características do cinema mudo clássico na contemporaneidade e ganhar o Oscar de “Melhor Filme”, mas nem “O Artista” não é um exemplo compatível com “A Gangue”.

Mesmo não possuindo falas (com exceção de um pequeno trecho), “O Artista” se utiliza de textos para transmitir sua mensagem – os inter-títulos. Nada disso se encontra em “A Gangue”. É tudo puramente no ecrã, que também dispensa trilha-sonora para compor as sequências, outro recurso que, mesmo não passando a informação de forma direta como um diálogo, acaba emoldurando o que se passa, e, assim, ajuda a construir a narrativa – coisa que Méliès também utilizou. “A Gangue” abdica até disso.


Uma coisa é certa. Nunca antes vimos um longa-metragem a fazer tal coisa – lembre-se que na pré-história do Cinema os filmes eram curtas. De início a sensação é estranha. Nós, habituados à linguagem carregada de diálogos que nos guiam durante o percurso, sentimos um vazio, uma inquietude. É até cômico assistir a tudo, pois somos seres aquém daquele corpo social simplesmente por não partilharmos da linguagem – ou alguém aí entende a Língua de Sinais Ucraniana?

Com exceção desse pequeno grupo que partilha da simbologia linguística imposta, todo o resto do mundo passou pela mesma experiência. Diálogos são fonte importantíssima de transmissão de mensagem – imaginem a cena-chave de “Guerra nas Estrelas” se não houvesse a icônica fala “I'm your father”. Não haveria impacto algum e todo o momento seria completamente diferente. A informação não chegaria até nós. Ao escolher deixar tal canal de lado, Slaboshpitsky arriscou de forma perigosa, mas louvável.

E tudo fica ainda mais impressionante quando nem ao menos o diretor era fluente na língua de sinais do país - o roteiro foi feito com palavras e traduzido para os atores. Há ainda um forte tom naturalista quando as performances podiam abusar do improviso e deixar seu próprio canal guiar as cenas, afinal, línguas diferentes podem passar a mesma mensagem de maneiras diferentes - imagine então quando a língua é transmitida de forma física.


Cinema é a “Sétima Arte” pela união de todas, sabemos, mas é a imagem a mais representativa. Ou melhor, a imagem em movimento. “A Gangue” extrai quase que dilatada e puramente o visual ao excluir todo o resto. Ao mesmo tempo em que nos aproxima da realidade dos personagens, surdos, temos um efeito não-diegético (1) curioso: somos abatidos por sons que se passam no filme e que nos causam impactos desconhecidos pelos personagens, afinal, eles são surdos. O diretor brinca perversamente com isso, como na cena do caminhão, onde ouvimos tudo que vai acontecer enquanto assistimos ao personagem inerte por não ter a mesma sorte.

Com as amarras do diálogo soltas, a forma com que consumimos o filme também muda. Temos a liberdade de observar todo o quadro, explorando a rica mise-en-scène (2) que é viva em todas as partes. Como os atores não falam, podemos vasculhar o fundo, as laterais, aqueles que estão fora do foco, tanto aproveitando a liberdade narrativa quanto para buscar dicas do que está se passando ali, afinal, o espaço é o contexto. É a forma máxima de júbilo ao ecrã.

“A Gangue” não se dá ao desfrute da simplicidade em seu roteiro, trazendo uma história forte e impactante que possui um efeito ainda mais incrível quando consegue nos abater sem soltar uma palavra. Numa sociedade corrompida, vemos a viagem assombrosa do nosso protagonista – sem nome, afinal, ele não fala para nos dizer, mesmo que na ficha técnica do filme ele seja chamado de Sergey – que começa timidamente na escola, com o qualquer pessoa comum ao chegar num ambiente diferente e já consolidado, até se aderir às normas e costumes desse habitat e se tornar um deles.


"A Gangue" debate como o meio influi no indivíduo, moldando-o e, consequentemente, criando hábitos, comportamentos, ideologias e culturas. O espaço físico por eles introduzidos é nada glorioso e o espaço social é bem fechado - não há, em momento algum, resquício da ideia familiar de nenhum dos jovens, como se eles fossem seres sem passado, e, por isso, sem futuro. Os adultos ali presentes são coniventes à precariedade e até fomentam tal universo, numa áurea de alienação e corrupção determinista e sem escapatória. A culpa, então, é de quem?

Recheado com cenas impiedosas até culminar num final sem redenção, “A Gangue” é um dos melhores filmes do século XXI. Definitivamente não é uma obra para qualquer um por lidar de maneira cruel e até misantropa com a existência humana - não há motivos para continuar acreditando no próximo diante de uma realidade tão animalesca, que não deixa de transmitir toda a sua carga emocional elevadíssima, além de criar sensações únicas para o espectador cúmplice, numa experiência inimaginável. Quem espera um filme feliz deve procurá-lo em outro lugar pois “A Gangue” é um festival de desconforto e niilismo, todavia, concomitantemente, coloca o Cinema num degrau acima ao burlar os limites da arte e conseguir de forma estratosfericamente genial fazer jus ao seu slogan: “O amor e o ódio não precisam de tradução".

(1) Diegese é a dimensão ficcional da narrativa, é tudo aquilo que acontece no mundo criado no filme.
(2) Mise-en-scène é a encenação ou o posicionamento de um cena. Tudo aquilo que está dentro do quadro.

Crítica: "A Gangue" não possui falas e prova que o amor e o ódio não precisam de tradução Crítica: "A Gangue" não possui falas e prova que o amor e o ódio não precisam de tradução Reviewed by Gustavo Hackaq on 2/03/2018 07:52:00 PM Rating: 5

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