Crítica: a esperada virtude da ironia de "Birdman" é o que o faz ser um clássico contemporâneo

Vencedor de quatro Oscars, incluindo "Melhor Filme", "Birdman" é uma insana viagem à mente de um artista frustrado

No final da década de 80 e início de 90, Tim Burton deu uma reviravolta em sua carreira quando aceitou dirigir “Batman” (1989), um dos super-heróis mais icônicos da história. Trazendo a veia sombria de sua filmografia, o filme foi um sucesso enorme, com alta bilheteria e até Oscar (de “Melhor Direção de Arte”). Michael Keaton era o Homem-Morcego, ganhando grande visibilidade no mundo e voltando a estrelar como o protagonista em “Batman – O Retorno” (1992). O convite foi feito novamente para “Batman Eternamente” (1995), mas o ator recusou, com o papel indo parar com Val Kilmer. Logo após, sua carreira deu uma esfriada, sem conseguir que seu nome voltasse a ser falado como antes.

Riggan Thomson é um ator famoso por interpretar o Homem-Pássaro em "Birdman", filmes do herói, todos sucessos de bilheteria. Ao recusar o papel no último filme da franquia, sua carreira congela, fazendo com que ele, décadas depois, adapte para o teatro o roteiro da história “O Que Nós Falamos Quando Falamos de Amor”, na esperança de conseguir o prestígio de outrora.

Teve um déjà vu? Semelhanças não são meras coincidências. “Birdman Ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” é uma comédia de humor negro que utiliza da metalinguagem da carreira de Keaton para criar o mundo da película, mundo esse contado pelas lentes do megalomaníaco Alejandro González Iñárritu, diretor famoso por “Babel” (2006) e “O Regresso” (2015).


Uma das primeiras jogadas da obra, que já nos surpreende de cara, é a forma que ele foi costurado. “Birdman” é montado como se tivesse sido filmado inteiro de uma vez, em plano sequência. Há cortes, evidentemente, mas eles são feitos discretamente e unidos de forma invisível. Em alguns momentos a transição fica clara, mas na maior parte do tempo não percebemos onde a câmera parou e começou. Essa técnica não é nova: Alfred Hitchcock utilizou o falso plano sequência em 1948 no filme “Festim Diabólico”.

“Birdman” começa com Riggan flutuando (isso mesmo) em seu camarim enquanto conversa com o Homem-Pássaro que só ele vê (isso mesmo também). A criatura existe unicamente para criticar e julgar o homem a todo o momento, como um complexo de auto-crítica destrutiva. Ela representa tudo o que Riggan perdeu: seu brilho, sua força, sua fama, sua juventude, e o Homem-Pássaro faz questão de recordá-lo disso. Em momento algum o filme dá pistas se aquilo acontece "de verdade" ou se é uma entidade puramente metafórica (você pode escolher como preferir), como vários outros acontecimentos. "Birdman" é carregado de jogos visuais, simbologias cinematográficas e momentos que só fazem sentido dentro da realidade única da película.


Então vamos conhecer o resto do grupo da peça produzida pelo protagonista, com uma câmera incansável que flutua por todo o teatro de forma extraordinária, numa mise-en-scène¹ esplendorosa. Mesmo sem o uso do 3D, conseguimos ter níveis de profundidade e distanciamento do quadro, como se o retângulo do filme fosse “fundo”. O balé feito por Emmanuel Lubezki, fotógrafo do filme e vencedor do Oscar de "Melhor Fotografia" pelo trabalho, é incrível e elemento preponderante na crianção da atmosfera e narrativa do longa.

Mas voltemos para o enredo do filme. Riggan gasta todas as suas economias para fazer a peça ir para frente, porém precisa de um ator de renome para conseguir mais bilheteria. É então que Lesley (uma incrível Naomi Watts) consegue Mike (Edward Norton), um brilhante – e desequilibrado – ator, que pode por tudo a perder. No elenco principal também temos Sam (a recém oscarizada Emma Stone), filha de Riggan e sua assistente.


Um dos principais trunfos do filme é a forma como o elenco se conecta. Estão todos em perfeita sintonia, desde o tresloucado Mike até a doce e confusa Sam, e cada um está lá para dar suporte ao brilho do outro, garantindo uma harmonia sem igual para o filme. O ritmo é acelerado e intenso, e tudo conduzido dentro do teatro, moldando um clima claustrofóbico e agonizante que reflete a loucura do momento daqueles personagens, à beira de um colapso nervoso que só se acentua com a chegada de Mike.

Recheado com muito sarcasmo e auto-ironia (as cenas com o baterista quebrando a diegese são sensacionais), o roteiro de “Birdman” é uma grande sátira da fama e do sucesso. Riggan está tão desesperado e alucinado por um reconhecimento passado que comete loucuras e se transforma numa Norma Desmond da era do Twitter – Norma é a protagonista da obra-prima absoluta “Crepúsculo dos Deuses” (1950), uma atriz da era muda que fica psicótica quando é abandonada na chegada dos filmes falados. Enquanto Norma tem sua própria loucura como julgadora, Riggan tem o Homem-Pássaro, que em alguns momentos larga o convencionalismo de ficar só como uma voz na cabeça de Riggan para aparecer de carne, osso e fantasia, perseguindo o ator aonde for. 


Iñárritu sempre gostou de dirigir filmes enormes e faraônicos, cheios de camadas, personagens e locações, o que nos deixava preocupado se ele conseguiria fazer tudo isso num cenário tão restrito, e, para nossa surpresa, “Birdman” só não é sua melhor direção porque ele se superou com "O Regresso". Todo seu exagero caiu como uma luva em "Birdman", condensando ainda mais a condução de tudo, o que garantiu seu primeiro Oscar de "Melhor Direção", além de "Melhor Roteiro Original" e "Melhor Filme", uma grata surpresa para uma Academia tão tradicional e que sempre premia filmes dentro dum molde - "Birdman" está distante de parecer um filme "feito pro Oscar".

Talvez a maior ironia de “Birdman” seja o paralelo quase que perfeito entre a vida de Michael Keaton, o criador, e Riggan Thomson, a criatura. Ambos foram heróis no passado, ambos perderam fama e sucesso, ambos buscam holofotes ao fim do filme, e é divertidíssimo assistir a essa corrida alucinante dos dois. Riggan, assim como Norma e assim como Keaton, está à espera do seu close-up.

¹ Mise-en-scène é uma expressão francesa que está relacionada com encenação ou o posicionamento de uma cena, criando profundidade de campo no enquadramento e enriquecendo a tomada.

Crítica: a esperada virtude da ironia de "Birdman" é o que o faz ser um clássico contemporâneo Crítica: a esperada virtude da ironia de "Birdman" é o que o faz ser um clássico contemporâneo Reviewed by Gustavo Hackaq on 2/17/2018 07:32:00 PM Rating: 5