Crítica: as crianças de "Projeto Flórida" dão cores a um reino encantando em preto e branco

Seja pelo retrato necessário da nova geração de sem tetos, seja pela atuação brilhante de Brooklynn Prince, essa é uma obra-prima imperdível

Atenção: a crítica contém spoilers.

De todos os longas a se estapearem na corrida dourada dessa temporada, "Projeto Florida" é, de longe, o menos falado. E isso é algo inexplicável: a crítica deitou para o filme, sendo um dos mais aclamado de 2017 no Metacritic, com nota 92; e eleito um dos dez melhores filmes do ano tanto pela National Board of Review quanto pelo American Film Institute. Assim como no Globo de Ouro e no BAFTA, foi praticamente ignorado pelo Oscar, concorrendo apenas na categoria "Melhor Ator Coadjuvante" para Willem Dafoe. Está na hora de revertermos esse crime.

"Projeto Flórida" é o sexto filme de Sean Baker, diretor que ficou famoso em 2015 com a obra-prima "Tangerine", que relata um dia na vida de duas mulheres trans presas na marginalidade e prostituição. Além de trazer atrizes trans, a obra se destacou ao ser filmada inteiramente com celulares para poupar o orçamento - e mostrar que a criatividade não conhece limites. Em "Projeto" ele mantém o estilo seco de filmagem, mas usando câmeras 35mm dessa vez.


A protagonista do filme é Moonee (Brooklynn Prince), de seis anos. Ela vive com a mãe, Halley (Bria Vinaite), num hotel chamado "Castelo Mágico", na Flórida. A idade da garota não é revelada, mas é perceptível que Moonee nasceu quando a mãe ainda era bem jovem, e desde então cuida da filha sozinha. Caso não tenha chamado a sua atenção, sim, elas vivem num hotel, assim como muitas outras pessoas. Halley é a nova geração de sem-tetos.

O longa é uma fábula da vida real. Toda a narrativa se passa de acordo com ótica das crianças, principalmente Moonee. O Castelo Mágico, principal locação do filme, é um daqueles hotéis baratos próximos ao parque da Disney, e o nome não poderia ser mais apropriado. Moonee e seus amigos transformam o local e suas redondezas em cenários das maiores aventuras, enquanto sonham em poder entrar no mundo encantado de verdade que é a Disney.


E o contraste aqui não poderia ser mais óbvio: o luxo dos castelos reais do parque do Pateta enquanto todas aquelas pessoas pobres vivem em sua periferia. Mas isso não impede as crianças de viverem seus próprios contos de fadas, e o trabalho visual do longa é fundamental para essa atmosfera. Desde o hotel inteiramente em tons de roxo, até o filtro rosa da fotografia, "Projeto Flórida" é um dos trabalhos mais lindos no ecrã da temporada. A direção de arte é, de longe, a mais injustiçada nessa edição do Oscar, elemento fundamental na composição da obra - daquelas que você pode falar sem culpa "olha essa paleta de cores" e "que fotografia fabulosa".

O desenvolvimento tanto dos personagens quanto das situações é feito de maneira homeopática; não há pressa nas construções, o que garantirá uma melhor afeição da plateia. Moonee e sua gangue mirim tocam o terror na área sem a menor supervisão dos pais, o que gera uma metáfora visual criativíssima: há uma expressão mais famosa na língua inglesa chamada "pais helicópteros", aqueles que vigiam cada passo de suas crias. Os pais em "Projeto Flórida" são o oposto, deixando as proles correrem soltas, por isso há diversas cenas com helicópteros sobrevoando o hotel, representação imagética da falta de supervisão dos pais.


Quem acaba se tornando o tutor da criançada é Bob (Willem Dafoe), o gerente do Castelo Mágico. É ele que vigia o que acontece e intervêm nas trapalhadas - às vezes bem sérias, como na cena bizarra do pedófilo - em prol da proteção dos pequenos. E é interessante a interação dele com Halley, quando ambos não conseguem se entender e brigam o filme quase inteiro, mesmo Bob sendo um pai postiço de Moonee. Ele é uma figura bastante rígida exatamente por conhecer os corredores macabros daquela realidade, ainda mais vulneráveis pela pobreza.

E o que faz "Projeto Flórida" alcançar o patamar de obra-prima é dar foco à forma como as crianças enxergam essa pobreza. Uma árvore na chuva se transforma num universo de descobertas e um belíssimo arco-íris colore a moldura do hotel, enquanto a chegada de turistas (brasileiros!) raivosos é motivo de piada e descontração - "Eu sempre sei quando adultos estão à beira de chorar", diz Moonee divertidamente. Halley, por falta de dinheiro, começa a se prostituir, e o espectador não vê momento algum do ato pois Moonee também não vê. Somos encarcerados atrás dos olhos mirins e não temos permissão de ver além disso, o que dá um tom absolutamente único à obra. Os pequenos vivem completamente aquém da situação por vezes deprimente em que vivem pois estão ocupadas em suas próprias fábulas particulares, como um bolo com colorida cobertura, mas recheio amargo.


Assim como "Tangerine", o mote principal da narrativa de "Projeto Flórida" é sua crueza. Com personagens tridimensionais e violentamente palpáveis, o tom documental impera, sempre dando o ar de que o que está se passando é real. Brooklynn Prince, de seis anos, dá uma verdadeira aula de atuação, passando verdade em absolutamente todas as cenas - ela e o elenco infantil conseguem transmitir dúvida na plateia, que chega a se perguntar "será se eles estão interpretando eles mesmos?". Se surgir um ímpeto de querer salvá-los, não se reprima. A garotinha facilmente poderia ter sido indicada ao Oscar de "Melhor Atriz", o que teria muito mais validade que a indicação de Meryl Streep por "The Post: A Guerra Secreta" - ela felizmente venceu o Critics' Choice de "Melhor Atriz Mirim" pelo papel.

Construção primordial para os ganchos dramáticos da produção é o desenvolvimento de Halley. Desde a primeira cena ela se mostra not a regular mom, but a cool mom, como diria a mãe da Regina George em "Meninas Malvadas". Ela trata a filha como uma colega, ou uma adolescente e seu brinquedo favorito, envolvendo a pequena em situações nada indicadas e possuindo uma conduta bem problemática. Porém, em momento nenhum, ela é a vilã da película. Jamais. Halley é vítima de um sistema. O amor pela filha nunca é questionável, ela apenas não sabe exercer o papel de mãe, tanto pela falta de maturidade quanto pela situação econômica.


E esse desenvolvimento é feito com tanto esmero que, mesmo sabendo dos atos errôneos da mãe, não podemos não ficar de coração partido quando o Conselho Tutelar chega para levar Moonee embora graças às precárias condições de vida em que ela se insere. Sabendo do destino da filha, Halley a leva para um "último banquete" a fim de alegrar a menina antes do desfecho trágico, carregado nas costas por Prince de maneira estrelar, praticamente realizando um grande monólogo sobre o quanto ama comer (gente como a gente).

Vendo que irá se separar da mãe, a garotinha parte em fuga até a casa de uma amiga, para ambas se esconderem no castelo da Cinderela, dentro da Disney. A sequência foi inteira filmada com celulares - assim como "Tangerine" - por dois motivos: o primeiro foi o prático, já que a produção não tinha autorização de filmar no parque e fez ilegalmente mesmo (!); e para quebrar a camada fílmica da narrativa. Um dos finais mais desoladores e puros da década nada mais é que uma fantasia das garotas, que desejam fugir para seu mundo encantado e se distanciar de todos os problemas que finalmente chegam à sua realidade.

"Projeto Flórida" é um retrato agridoce de uma fatia esmagada à margem e varrida para debaixo do tapete, engolida pelo real vilão do filme: a crise do capitalismo. Enquanto os pequenos criam seus contos de fada, Sean Baker continua dando recibos de uma expertise absoluta no cinema, realizando filmes encantadores, reais e necessários. "Projeto Flórida" termina sendo uma esperançosa mensagem sobre as construções dos nossos próprios reinos, a manutenção dos sonhos e como podemos ser reis e rainhas das nossas vidas, apesar dos pesares.

Crítica: as crianças de "Projeto Flórida" dão cores a um reino encantando em preto e branco Crítica: as crianças de "Projeto Flórida" dão cores a um reino encantando em preto e branco Reviewed by Gustavo Hackaq on 2/11/2018 08:02:00 PM Rating: 5

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