Crítica: "O Reino de Deus" tem lindas paisagens e gays sobrevivendo à base de miojo

Ao lado de "Me Chame Pelo Seu Nome", "O Reino de Deus" é o filme gay da temporada que não consegue superar os clichês do cinema LGBT

Atenção: a crítica contém detalhes da trama.

Nos últimos tempos, aqui no Cinematofagia, andei escrevendo sobre filmes com temática LGBT, e, à essa altura, o cinema gay-lésbico-bi-trans já se tornou um subgênero - principalmente o focado na homossexualidade masculina. Para ser rotulado como "subgênero", esses filmes devem trazer uma espécie de padrão, semelhanças, moldes específicos e familiaridade de estilos e narrativas que formem um todo - como por exemplo os "slashers", subgênero do terror (o gênero que o engloba) que traz um vilão matando os personagens, geralmente em atmosfera adolescente. Você conhece vários nomes, certeza.

O número de exemplares com o mote gay são - felizmente - cada vez maiores, de nomes pops como "O Segredo de Brokeback Mountain" (2005), "Moonlight" (2016), "Orações Para Bobby" (2009) e o nacional "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" (2014); até os menos conhecidos, como o islandês "Crepúsculo" (2017), "Patrik 1.5" (2008) e "Orgulho e Esperança" (2014). E esses são apenas os masculinos; cinema lésbico e trans, mesmo que em passo menor, também vêm crescendo exponencialmente.

Até podemos tentar, todavia é difícil não compararmos uns aos outros. E isso não é um pecado. Obras com temas semelhantes acabam "concorrendo" entre si, já que involuntariamente vamos formando conexões entre elas e uma hora ou outra falaremos "ah, mas essa cena é tão insira o nome do filme aqui". E quanto mais famoso e bem sucedido o filme, mais referência ele se tornará. Não é à toa que "Brokeback", indicado a inúmeros Oscars, tenha se tornado o pilar central do cinema gay deste século, com vários dos filmes em seguida seguindo (voluntariamente ou não) tendências.


Ao lado de "Me Chame Pelo Seu Nome" (2017), a temporada 2018 recebeu também "O Reino de Deus" (God's Own Country), dirigido pelo estreante Francis Lee. Apesar de não tão conhecido pelo público como o primeiro, "Reino" é queridinho da crítica, vencendo "Melhor Direção" no Festival de Sundance e indicado a "Melhor Filme Britânico" no BAFTA, o Oscar da terra da rainha.

O longa segue os passos de Johnny (a revelação Josh O'Connor). Ele mora no interior da Inglaterra com sua avó e seu pai, esse debilitado depois de um enfarto. Após o ocorrido, é Johnny quem deve tomar conta das principais tarefas da fazenda da família, tendo como distração o álcool e sexo casual. O pai então contrata Gheorghe (Alec Secarean), um imigrante romeno que aceita passar uns tempos na fazenda para auxiliar nos inúmeros afazeres.

Antes de começar o filme eu fiz um exercício mental: a partir da sinopse, tracei alguns pontos que já viraram clichê dentro do subgênero para ver quais o filme faria, desde os mais elementares até detalhes bem específicos. Aconselho, caso você ainda não tenha assistido, a parar agora e pensar: "o que deve acontecer a partir de agora no filme?" e continuar para descobrir.


Johnny é aquela persona absolutamente rude, ríspida e preconceituosa com todos à sua volta, desde o pai doente, passando pelo carinha que ele fica aleatoriamente numa tarde até Gheorghe. Mas é evidente que os rumos da fita farão com que os dois fiquem juntos - e isso não é um problema. Em meio à tensão criada por Johnny pelo seu comportamento, há troca de olhares entre ele e o forasteiro, mesmo sem gerar uma palpável áurea sexual.

Certo dia os dois devem construir uma cerca longe da fazenda, o que os deixam sozinhos por uma semana. E é lá que a relação será consumada. A cena onde os dois têm o primeiro contato sexual é crua e revela por demais os pólos distintos da relação: para Johnny, o sexo é um ato animalesco, instintivo, onde ele ataca a presa como uma besta. Gheorghe, ao contrário, pede para o rapaz ir com calma e delicadeza, enquanto rolam pela lama e se consomem ali mesmo, num ato primitivo.

Como Johnny nunca experimentou o sexo daquela forma, distante do automático e predatório, os próximos dias são recheados com muita estranheza, já que ele não sabe como lidar com a situação. Resta Gheorge observá-lo com seus grandes olhos, atento a cada passo daquele desconcertado garoto que parece estar florescendo um sentimento maior do que o esperado.


Durante a estadia nesse local, a obra constrói a personalidade de Gheorghe utilizando arquétipos bíblicos. Numa cena, ao verem um bezerro recém-parido nascer inconsciente, o romeno consegue reacordar o bicho dado como morto. Num momento depois, Johnny corta a mão e Gheorghe cospe e lambe a ferida, que aparece cicatrizada dias depois. Tudo isso remete à figura de Jesus, que ressuscita mortos, cura e, claro, o corte na mão remete à crucificação. O próprio título do filme reforça essa mitologia - "o reino de deus" é, também, o nome popular dado ao condado em que se passa a produção.

Todavia, tudo isso, que seria um peso bem interessante à trama, é rapidamente esquecido e não é abordado novamente durante a duração. O que é iniciado como um mistério é deixado de lado como algo irrelevante, frustrando o espectador pela falta de continuidade. É certo que não há um dever pela explicação de todos esses ganchos, mas por qual motivo o roteiro os introduz de formas tão pontuais para depois descartá-los?

Há também um diálogo que a película levanta sobre xenofobia, quando Gheorghe é colocado numa posição inferior e ridicularizado por Johnny ao ser chamado de "cigano". O debate também não é limado e nunca alcança relevância dentro da trama, recebendo poucas pinceladas de um tópico bastante atual em meio à crise europeia e a migração em busca de trabalho nos países mais pobres (ou menos ricos, como queira) do continente.


É essa a impressão que "O Reino de Deus" transmite: tudo fica pela metade. Todos os acontecimentos com Johnny são altamente previsíveis e seguem a cartilha do subgênero em vários itens. Sabemos que ambos se apaixonarão, que acontecerá algo que os separará e que fará o protagonista, antes uma pedra emocional, se pegar mexido pelo amado e transformado numa nova pessoa. E há a máxima "não é um filme gay até que um dos personagens se apegue emocionalmente a uma peça de roupa do outro": Ennis (Heath Ledger) e a camisa de Jack (Jack Gyllenhaal) em "Brokeback"; Elio (Timothée Chalamet) e o calção de Oliver (Armie Hammer) em "Me Chame Pelo Seu Nome"; e Johnny e o moletom de Gheorghe aqui.

Mas caso você me questione como eu posso ter aclamado "Azul é a Cor Mais Quente", por exemplo, que segue vários desses "clichês", enquanto em "O Reino de Deus" são defeitos, respondo-te. Uma obra jamais conseguirá ser 100% original. Como comento na crítica de "Lady Bird", um grande clichê ambulante, o cinema é uma renovação constante de histórias já contadas, porém, assim como "Lady Bird", "Azul é a Cor Mais Quente" e vários outros nomes entregam algo além do que já está previsto. Sejam em atuações, em roteiro, em direção, o que for. O problema não é ser clichê, é não apresentar algo mágico que faz o filme deixar de ser ordinário para ser espetacular.


E isso não acontece em "O Reino de Deus". Com exceção da fotografia, que sem pena explora as paisagens estonteantes do norte da Inglaterra, e a atuação de Josh O'Connor, bastante sincero na pele de um personagem complexo, apesar do chavão, tudo voa apenas moderadamente. A direção é competente e faz as atuações serem naturalistas e exalarem química para provar o amor dos protagonistas - não num nível de "Me Chame Pelo Seu Nome", mas convence; o pior mesmo é a montagem, que em muitas horas parece não saber o que está fazendo e cria cortes bruscos e une cenas de maneira grosseira. Engraçado como os acertos e os erros desse são tão parecidos com os de "Me Chame", entretanto Elio e seu pêssego assumem a dianteira pela irretocável sintonia entre os protagonistas.

E é óbvio que essa percepção da mágica de um filme é algo que cutuca o lado subjetivo de cada um: você pode assistir à obra e achá-la apaixonante, tocante e verdadeira. E não dá para negar que há cenas bem sinceras, como o banho que o protagonista dá no pai, uma bela (e triste) cena que poderia até mesmo explorar mais a subtrama da debilitação física; e um beijo em específico do casal principal, feito numa sequência que exala tensão e deixa a plateia na ânsia pelo contato. Há pequenas grandezas aqui - principalmente por ser um dos raros filmes LGBT a possuir um final feliz.

"O Reino de Deus" é um longa ruim? Longe disso. Toda representação respeitosa sobre o amor gay é bem vinda no cinema, ainda uma parcela bem pequena diante do número absoluto de filmes produzidos anualmente. Mas sem tanta originalidade e personalidade, a obra soa mais como uma emulação de sucessos do subgênero ao invés de um material próprio e concreto. Apesar de carregar beleza em suas imagens, no fim é um filme sobre gays aprendendo a viver com os próprios sentimentos e sobrevivendo à base de miojo.

Crítica: "O Reino de Deus" tem lindas paisagens e gays sobrevivendo à base de miojo Crítica: "O Reino de Deus" tem lindas paisagens e gays sobrevivendo à base de miojo Reviewed by Gustavo Hackaq on 1/27/2018 05:42:00 PM Rating: 5

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