Crítica: "A Forma da Água" une milagre visual com um romance mágico e improvável

Do mesmo diretor de "O Labirinto do Fauno" e "Hellboy", "A Forma da Água" é mais um mágico conto de fadas adulto que dá voz aos excluídos

Indicado aos Oscars de:

- Melhor Filme
- Melhor Direção *favorito*
- Melhor Atriz (Sally Hawkins)
- Melhor Ator Coadjuvante (Richard Jenkins)
- Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer)
- Melhor Roteiro Original
- Melhor Montagem
- Melhor Fotografia
- Melhor Direção de Arte *favorito*
- Melhor Figurino
- Melhor Trilha Sonora *favorito*
- Melhor Edição de Som
- Melhor Mixagem de Som

Crítica editada após os indicados ao Oscar 2018

Atenção: a crítica contém detalhes da trama.

Disparadamente, o filme que mais esperei da temporada foi "A Forma da Água" (The Shape of Water). Desde sua estreia no Festival de Veneza, quando venceu o prêmio máximo, o Leão de Ouro, os cometários sobre como Guilhermo Del Toro finalmente entregou o sucessor à altura de "O Labirinto do Fauno" (2006) eram os mais animadores possíveis - e diziam muito sobre o que estava por vir.

No Oscar 2007, "Fauno" levou para casa três Oscars ("Melhor Fotografia", "Direção de Arte" e "Maquiagem", e deveria ter levado mais, inclusive) ao trazer um conto de fadas mais adulto com a marca registrada do diretor: uma viagem fantástica com monstros à base de muita maquiagem. Tanto o fauno protagonista como o monstro com olhos nas mãos entraram para a cultura popular e ajudaram a cunhar o status de "clássico" sobre o filme, que é nada além de obra-prima.


Del Toro foi descoberto com "A Espinha do Diabo" (2001), o primeiro filme a salvar sua vida (palavras dele). De "Espinha" até "A Forma da Água", o mexicano deu uma cambaleada notável, conseguindo encontrar o ápice criativo e técnico apenas com "Fauno" - nomes como "Hellboy" (2004) e "A Colina Escarlate" (2015), apesar de visualmente interessantes, falham em diversos outros pontos. E filme após filme esperávamos vê-lo de volta à glória - e esse momento chegou.

"A Forma da Água" é estrelado por Elisa Esposito (Sally Hawkins) e Zelda (Octavia Spencer), duas faxineiras que trabalham numa instalação militar secreta em meio à Guerra Fria. A dupla dinâmica possui uma relação especial: Elisa é muda, enquanto Zelda é sua porta-voz ao traduzir a língua de sinais no trabalho. Num dia qualquer, o coronel Richard Strickland (Michael Shannon) chega de uma viagem da América do Sul com uma criatura (Doug Jones), visando estudá-la e explorá-la.

"A Forma da Água" e "O Labirinto do Fauno" são quase irmãos pelas várias similaridades. Protagonizados por uma outsider tendo que lidar com um vilão fascista num plano de fundo histórico (Guerra Fria e Guerra Civil Espanhola, respectivamente). Ambos são tratados como contos de fadas, e suas protagonistas, Elisa e Ofelia (Ivana Baquero), são representadas como princesas. Claro, esse modelo não segue os rumos dos clássicos Disney, e sim as joga em uma veia sombria, adulta e até macabra, com violência crua e, no caso de "Água", sexo. A grande diferença entre as obras é sua temporalidade artística. Enquanto "Fauno" é um legítima realização contemporânea, "Água" emula a Era de Ouro de Hollywood (1920-60).


Toda a produção se utiliza de técnicas de filmagem utilizadas na época - percebam a cena em homenagem aos musicais do período, coisa que "La La Land" fez ano passado -, além de construir seus personagens ao redor dos arquétipos clássicos. Até a chegada do vilão é uma típica aparição da figura a ser temida: surgindo das sombras e revelando seu impassível rosto enquanto a câmera rapidamente se aproxima dele. "Água" dialoga com o molde da época e atual pois, claro, possui uma visão atualizada do que seria um filme da década de 40.

De cara já percebemos o cuidado estético da fita. Del Toro tem consciência do poder imagético de sua obra e rege cenas que já caem no ecrã com pinta de atemporais. A cor verde, que casa com a fantasia e, claro, o ambiente aquático do estrangeiro cheio de escamas, está presente em praticamente todos os quadros, desde as paredes e figurinos até em detalhes inusitados, como gelatinas, tortas e sabonetes - o design de produção da fita é glorioso, estonteante e de cair o queixo, extraído com esmero pela fluida fotografia. Os efeitos especiais, que finalizam muitas das cenas, são altamente fidedignos e mal notamos quando os cenários não são reais. "Verde é a cor do futuro", fala um personagem, explicando para o espectador o motivo da escolha da graciosa paleta de cores, e "Água" é exatamente isso: a busca pelo futuro inserida na atmosfera retrô da fita.


Os cientistas da instalação de Elisa estão ali para estudar a "cobaia" com o intuito de ver se seu corpo consegue aguentar as condições de sobrevivência fora da órbita terrestre, para, assim, pegar a dianteira na corrida pelo espaço. Mas há um porém: Dr. Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg, o pai do Elio de "Me Chame Pelo Seu Nome") é um espião soviético que está nos EUA tentando tirar proveito das pesquisas norte-americanas com o humanoide.

Enquanto Richard é extremamente violento com a criatura, Robert demonstra compaixão por saber que ali se trata de um ser único, o que abre uma enorme quebra de paradigmas. Ao contrário dos 80 bilhões de filmes estadunidenses sobre a Guerra Fria, o vilão não é o russo. "Água" inverte os papeis ao colocar o americano na posição negativa ao invés do salvador do planeta como praticamente todas as produções já feitas até hoje na terra do Tio Sam.

E aqui esbarramos em mais uma atualização do que seria um clássico: as discussões sociais são mais críticas e menos tendenciosas. Richard possui uma vida de propaganda de margarina: uma casa moderna, filhos correndo para a escola e sua esposa dona de casa pronta para alimentar o marido e prover sexo. O que antes era o exemplo a ser almejado, em "Água" são características de um personagem racista, machista e cruel, tratando com repúdio todos os diferentes.


Numa cena onde interroga Elisa e Zelda (a "criadagem", nas palavras de Richard), ele, depois de muito intimidar a faxineira negra, diz que a cobaia não é um ser humano por não parecer com uma obra de deus. E solta: "Deus parece como um humano, como eu. Ou como você. Talvez mais como eu". O roteiro de Del Toro e Vanessa Taylor - essa produtora e roteirista de "Game of Thrones" (2012-13) - é nada sutil na construção psicológica de seus personagens, e se apropria de arquétipos para por o dedo na ferida. Elisa é a mulher muda, retraída e sexualmente frustrada; Zelda a mulher negra mãezona; e Richard o oficial impiedoso e odioso. O binarismo "mocinhos" e "bandido" é gritante.

A falta de sutileza pode incomodar e deixar o texto fácil demais, porém o filme acerta ao utilizar de algo tão escancarado para tecer suas críticas - algo que um filme de época não se atreveria a fazer ou, se fizesse, seria de forma mais tímida. O melhor amigo de Elisa, Giles (Richard Jenkins), é um homem gay com paixonite pelo atendente da loja de tortas - ele nem gosta das tortas, mas vai até lá só ver o cara. Quando um filme da década de 50 trataria de tais assuntos de tal forma?

Enquanto todas essas tramas acontecem, Elisa cria uma magnética atração pela criatura. A áurea de mistério emana do anfíbio, que recebe o esforço da protagonista para criar uma ligação, rapidamente recompensada, o que prova que o bicho possui inteligência - à sua maneira. É mais uma evidência conclusiva para o Dr. Hoffstetler da importância da cobaia e de como ele deve ser mantido vivo - algo que Richard não está muito interessado em fazer, principalmente depois que a criatura arrancou dois dos seus dedos.


Percebendo que Richard irá matar o anfíbio, Elisa cria um plano com Dr. Hoffstetler para soltar o bichinho antes que seja tarde, o que envolverá todos em sua volta, de Zelda ao Giles. A fuga trará um sentimento conflitante em Elisa: ela deve manter a criatura consigo, arriscando matá-la, ou soltá-la na água, arriscando perdê-la? Enquanto decide, a moça o mantém em sua banheira, que faz a relação estreitar, ocasionando o primeiro encontro sexual do casal.

Sim, a mulher transa com o peixe, ou seja lá a nomenclatura biológica que ele teria. E sim, tudo isso soa ridículo. Todavia é impressionante como o filme consegue obter sucesso ao transformar algo que seria patético em momentos realmente tocantes, e é apaixonante ver como a mulher se entrega para o único ser que parece compreendê-la. As motivações de Elisa para salvar o humanoide são incisivas e bem puras, quando ela diz que ele a vê como ela é ao invés de uma pessoa incompleta, sem voz. E tudo isso só é capaz através da sensacional performance de Sally Hawkins, que transmite tanta verdade sem abrir a boca. Utilizando uma perfeita língua de sinais - os diálogos são reais -, a atriz consegue ultrapassar as barreiras do difícil papel e entregar sinceridade e paixão - e rendem a icônica cena onde ela manda Richard se f*der enquanto só o público entende - através da legenda na tela.


Um elemento delicado, mas que colabora com a narrativa, é a utilização dos figurinos de Elisa. A mulher começa o filme vestindo verde, e, com o passar do amadurecimento da relação com o anfíbio, vai introduzindo tons de vermelho em seu vestuário, até terminar vestida inteiramente com um grande sobretudo carmim. É um detalhe que pode passar despercebido, no entanto, é elemento visual sendo posto na tela como ferramenta de composição da narrativa da protagonista, o que é lindo em todas as maneiras.

E beleza é algo que transborda em "Água". O anfíbio rouba a cena sempre que aparece pela sua construção imagética. Feito quase inteiramente de maquiagem e figurino, apenas os olhos do bicho são efeitos especiais, já que seria impossível criar as pálpebras aquáticas mecanicamente. Suas cores e detalhes corporais, como as luzes em sua pele, são estonteantes, e demoraram três anos para ficarem prontos - e tiveram inspiração no clássico da infância do diretor, "O Monstro da Lagoa Negra" (1954). Doug Jones, parceiro de Del Toro em vários filmes - ele é tanto o fauno quanto o monstro com olhos nas mãos em "Labirinto" - mais uma vez realiza um incrível trabalho ao dar vida a um ser mítico. O ator, preso debaixo de tanta maquiagem, é quase anônimo por não ter seu rosto exposto na tela, sempre entregando o próprio corpo para o nascimento de criaturas, espíritos e demônios.


Monstros são quase sempre associados com terror ou sci-fi, então vermos dentro de um romance - com um humano, ainda por cima - é uma turbulência na camada do cinema. A trilha sonora delicadíssima de Alexandre Desplat é personagem preponderante para a realização do amor do casal e da áurea fabulesca e jocosa da obra, que não possui um elemento técnico fora do lugar. Tudo soa feito sem esforço, o que obviamente não é verdade, mas passa uma sensação de conforto e realismo - e estamos falando de um amor de uma mulher muda com um humanoide para conquistar plateias.

"A Forma da Água" é uma triunfal realização ao dar veracidade a um dos amores mais estranhos já feitos no Cinema, e é exatamente aqui que reside a sua força: é um filme que faz o amor quebrar a barreira do ecrã e atingir o espectador, que sai da sessão tão apaixonado quanto o casal. Reavendo um período clássico da Sétima Arte, a produção tanto homenageia uma época como distorce padrões ao usar estereótipos em prol de discussões sociais importantes. Milagre visual com um dos finais mais arrebatadores do ano, "A Forma da Água" é um filme sobre excluídos, marginalizados e sem voz. Quando os mocinhos são uma trupe formada por uma mulher muda, uma negra, um gay e uma criatura anfíbia da Amazônia, enquanto o vilão é o homem branco americano, é a conclusão de que Del Toro fez um filme político de forma mágica e encantadora.

Incapaz de distinguir a sua forma, eu te encontrei todo ao meu redor.

Crítica: "A Forma da Água" une milagre visual com um romance mágico e improvável Crítica: "A Forma da Água" une milagre visual com um romance mágico e improvável Reviewed by Gustavo Hackaq on 1/13/2018 07:11:00 PM Rating: 5

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