Album Review: a equação perfeita de Ed Sheeran em seu novo álbum começa com a 'x' do seu próprio talento

Há três anos, um jovem exótico britânico, ruivo, carismático, com nenhuma pinta de superestrela e muito, muito talentoso, arrebatava o ...

Há três anos, um jovem exótico britânico, ruivo, carismático, com nenhuma pinta de superestrela e muito, muito talentoso, arrebatava o coração de multidões pelo mundo com seu aclamado álbum de estreia, que apostava num título simples, ousado e que dizia muito sobre o seu objetivo na música atual. "+", que em português quer dizer "soma", trazia um material extremamente sólido, repleto de excelentes canções, letras e um carisma único, para contar, sobre várias formas, como as pessoas se sentem em relação ao sentimento mais puro que temos: o amor.


Agora, em 2014 e ciente de todo o prestígio alcançado, Ed Sheeran está de volta para o famigerado desafio do segundo álbum. E para mostrar que não o temia, ele assumiu desde o ano passado em diversas entrevistas que se arriscaria mais no novo registro. Como parte de sua nova equação, o que era "+", evoluiu para uma "x" ("multiplicação", em português) de forma exponencial, estabelecendo metas para si e, assim, podendo expandi-las a um nível ainda superior. O resultado: um segundo álbum grandioso, não apenas em termos de apelo comercial, mas, principalmente, conteúdo, sensibilidade e maturidade. Esta última, inclusive, fez o doce britânico retirar todos os palavrões contidos em suas letras na gravação do álbum, como no refrão de "Don't", onde, embora escrita, ele não canta a palavra "fuck", em virtude do pedido de um motorista de táxi, que disse que adorava o trabalho dele, porém, ele poderia ser mais "politicamente correto", afinal, crianças e adolescentes também eram seus fãs.


Contando com um time repleto de estrelas entre os produtores, como Pharrell Williams, Jake Gosling, Benny Blanco, Jeff Bhasker, entre outros, além de produção executiva do multipremiado Rick Rubin, "x" é uma das apostas mais certas quando se fala em melhores álbuns do ano, independente se você for fã de Ed Sheeran ou não.

1) "One"
O álbum já inicia com uma canção importante, justamente por partir do tema que tomou conta de "+". "One" serve como um fio condutor entre o antigo e o atual projeto. Falando sobre a importância da companheira e de ter esperança num relacionamento, mesmo que outra pessoa surja, todos seus amigos consigam encontrar a outra metade de seus corações e várias outras coisas conspirem para que não, a baladinha acústica é muito sentimental e tranquila, tendo potencial, inclusive, para ser uma "Give Me Love" parte II, e acreditamos que, cedo ou tarde, ela terá seu espaço na divulgação, afinal, nós sabemos que versos fofos como "Pegue a minha mão, meu coração e minha alma. Eu só deixarei que esses olhos vejam você" funcionam muito bem.

2) "I'm a Mess"
Seguindo, "I'm a Mess" soa quase como uma consequência do que vimos na canção anterior. Confidenciando com uma doce e informal sutileza "Oh, eu estou uma bagunça agora. Por dentro e por fora. Em busca de uma doce rendição, mas este não é o fim", Ed clama por uma reconciliação expondo os lados de sua paixão latente "[...] querida, talvez eu seja um mentiroso. Mas esta noite, eu quero me apaixonar. E fazer você confiar em mim", embora reconheça também seus erros ,"E embora eu só tenha te causado dor, você sabe que todas as minhas palavras sempre terão um pouco do amor que tínhamos, quando você é o meu caminho me trazendo para casa". Objetiva, simples e eficiente. É outra aposta pra single.


 3) "SING"
Desde o ano passado, Ed Sheeran vinha dizendo que seu novo álbum o levaria a novos lugares como artista e não teria medo de experimentar novas misturas. Dito isto, uma das coisas que mais nos surpreendeu no "x", é o quanto ele ficou pop em algumas de suas canções. Porém, a maior "culpa" não é dele, mas das produções, e nisso, "SING" é uma boa prova. Escolhida como lead single e já consolidada com smash hit, a faixa R&B pop "safadinha" e divertida, com menção a "We Found Love" da Rihanna e produzida por Pharrell Williams, que a deixou a cara dos seus últimos trabalhos (muito solicitados nos últimos dois anos) e pega influências no "Justified", do Justin Timberlake  assumidas pelo próprio Sheeran , como inspiração para a faixa. Não que seja ruim, pelo contrário, é um grande single, ainda mais por tirar o britânico de sua zona de conforto. Mas, por outro lado, o mais engraçado do lead single, é que ele não é, nem de longe, uma das grandes faixas do material.


4) "Don't"
Uma das mais incríveis (de várias) do álbum, "Don't", concentra toda sua polêmica nos bastidores, em virtude do seu conteúdo e toda sua "provável" história por trás. Tendo como tema uma "namorada" que tinha a mesma profissão que ele  "Mas eu e ela, ganhamos dinheiro do mesmo jeito. Quatro cidades, dois aviões no mesmo dia" , o traiu com um amigo bem próximo (boatos dão conta que ela se refere ao seu romance nunca assumido com Ellie Goulding, e que o amigo "fura olho", seria Niall Horran, do One Direction #bafão): "Eu nunca tive a intenção de ser o próximo, mas você não tinha que ir para a cama com ele, só isso. E eu nunca o vi como uma ameaça, até que você desapareceu com ele para transar, é claro". Sentem o cheiro da treta exalando? Vale o registro também, que Sheeran não queria colocá-la na tracklist final, por se tratar de algo muito pessoal, mas foi convencido, por ser uma grande canção. Com ela já no álbum, era a preferida pra primeiro single, porém, foi rejeitada de cara, em virtude do seu refrão nadinha simpático "Don't fuck with my love, that heart is so cold...". Ele assumiu numa entrevista que a faixa não se referia à Taylor Swift, e que ambos eram apenas bons amigos. Sobre Ellie, ele nunca deu um parecer sobre o boato ser, de fato, real. Se a canção realmente for para Ellie Goulding, OMGouldiness!


5) "Nina"
Saindo da pressão e tapa na cara de luva de pelica dada na música anterior, "Nina" traz um frescor. Embora sombria, é uma canção de culpa, saudosismo e resignação, onde Sheeran tenta, de várias formas, convencer a personagem da história — que é seu amor da adolescência , a não ter novamente um cara como ele, embora ainda haja sentimento... "Tenho vivido na estrada, Nina. E então, de novo, você deveria saber, Nina. Pois somos você e eu. Os dois em uma estrada, você não vai me deixar agora".

6) "Photograph"
"Photograph" é uma balada simples e angelical, tendo a sensibilidade de sua letra como principal chamativo: "Amar pode doer. Amar pode doer às vezes. Mas é a única coisa que sei. Quando fica difícil, você sabe que pode ficar difícil às vezes. É a única coisa que nos mantém vivos". Com Sheeran, a velha máxima "menos é mais", é mais que real. E aqui, temos uma grande prova.

7) "Bloodstream"
FANTÁSTICA. Não há palavra que melhor defina tudo que acontece em "Bloodstream". Desde a letra dramática, passando pelos vocais maravilhosos, toda sua carga pesada e emocional, evidenciadas pela produção simples, porém, mais uma vez brilhante, do multipremiado Rick Rubin, que nos encaminha, através da pura dor amorosa sofrida pelo protagonista sob o efeito de MDMA (ecstasy), a um final lindo e potencializado, pedindo "Me avise quando surtir efeito. Eu vi cicatrizes nela. Me avise quando surtir efeito, seu coração partido".


8) "Tenerife Sea"
Balada clássica e acústica, "Tenerife Sea" se aproxima muito do Ed Sheeran que conhecemos lá atrás, na época dos EPs e "The A Team". Linda e precisa, como de costume, nela temos um tom mais galanteador e fofo vindo dele, enquanto dá inúmeros predicados a sua relação, comparando-a ao mar de Tenerife, na Espanha, e que não precisa de mais nada: "Esta deveria ser a última coisa que vejo? Quero que você saiba que é o bastante para mim. Pois tudo o que você é, é tudo o que preciso".

9) "Runaway"
Mais uma faixa produzida por Pharrell Williams e, de novo, trazendo Sheeran para um lado mais pop, graças à sua produção — inspirada em "Justified", álbum de estreia do Timberlake (de novo). Porém, particularmente, prefiro "Runaway" à "SING".

10) "The Man"
A décima canção é mais uma incrível prova do quão talentoso Ed Sheeran é. A faixa produzida pelo parceiro de longa data e produtor do "+", Jake Gosling, com "quês" de um rap sinuoso, poéticamente belo e acessível, fala sobre temas bem recorrentes do cotidiano de uma estrela, como relacionamentos sem perspectivas e perdidos para sua carreira musical, casamentos frustrados, dependência química e as armadilhas da indústria fonográfica, fazendo-o temer se perder em meio à fama. Ed Sheeran não é Eminem, e nem quer ser aqui. Mas tem seus méritos elevados pelo simples fato de se arriscar a ser.

11) "Thinking Out Loud"
Última música composta e gravada para o "x", a baladinha acústica com guitarra elétrica e emocionalmente feliz, "Thinking Out Loud", é a faixa preferida de Ed Sheeran (e minha também). Tendo inspiração em "Let's Get It On", clássico atemporal de Marvin Gaye, é inegável não se deixar tocar pela emoção e entrega de alma absurda que Sheeran transborda em seus versos, sobre o sentimento de ter um amor que te faça pensar a longo prazo: "Quando meu cabelo parar de crescer, minha memória falhar, e as plateias não lembrarem mais do meu nome e minhas mãos não tocarem as cordas do mesmo jeito, eu sei que você me amará assim mesmo". De longe, é a melhor canção de amor já escrita/cantada por ele.


12) "Afire Love"
Encerrando a versão padrão do "x", no meio de tantas canções duramente sentimentais, o britânico encontrou tempo para uma — ainda dura , linda homenagem. "Afire Love" foi composta ano passado, especialmente para seu avô, poucos dias antes dele falecer (e concluída logo depois do velório), vítima de Alzheimer, doença que ele vinha sofrendo por 20 anos. Explicando o que a doença de seu avô trouxe para sua família nesses anos, além de deixar bem claro, todo o amor que sua avó tinha por ele.


13) "Take It Back"
Presente na versão deluxe, temos a raivosa "Take It Back". Pautada, em sua maior parte, por raps, temos Sheeran abrindo sua vida, seus medos e dilemas pessoais, no árduo caminho até o sucesso na carreira musical. A faixa, que merecia até estar na edição padrão do álbum, soa quase como um livro de poesia, mas em forma de rimas, deixando bem claro, logo no início: "Eu não sou um rapper; Eu sou um cantor com um objetivo". E com muito, muito talento também.


14) "Shirtsleeves"
Típico midtempo de edições especiais, "Shirtsleeves" é simples, porém bem graciosa e falando, mais uma vez, de forma profundamente sensível sobre um amor não-correspondido: "Eu te abraçarei e você pensará nele. E em breve, você flutuará para longe. E eu me prenderei às palavras que você falou. Ancoradas em minha garganta, amor".
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15) "Even My Dad Does Sometimes"
É engraçado dizer isso, porque geralmente grandes faixas entram na edição padrão, enquanto aquelas feitas apenas "por fazer" e que nada acrescentam, ficam na deluxe. Isso não acontece aqui. E aí está um grande mérito do "x". "Even My Dad Does Sometimes", assim como qualquer outra das quatro presentes na versão deluxe, caíriam muito bem na versão normal. O problema é: não dá pra mexer na estrutura de um álbum tão impecável como este é. Por isso, é compreensível tais faixas terem sido cortadas e caído aqui.

16) "I See Fire"
Para encerrar o brilhantismo do seu novo álbum, "I See Fire" foi a escolhida. A faixa, que foi tema de "O Hobbit: A Desolação de Smaug" é de um primor escandaloso. Tendo violinos, violoncelos, bateria e violão, a música teve Ed Sheeran tocando todos os instrumentos na versão demo apresentada, já que ele recebeu o convite de surpresa, do próprio diretor do filme, Peter Jackson, que, por sua vez, foi influenciado por sua filha, fã confessa do britânico, a tê-lo no tema. O resultado? Quase 5 minutos fabulosos de talento puro.




Concluindo
Se em 2011, Ed Sheeran encantou o mundo com seu premiado debut, "+", nem passava pelas nossas cabeças que, em tão pouco tempo, ele poderia superá-lo (embora talento pra isso, ele sempre tenha deixado evidente). E eis que isso aconteceu. "x", segundo álbum dele, é um trabalho confiante, preciso, arriscado e digno de MUITOS elogios. Elogios estes, de um testamento massivo do talento do ruivo que, há três anos, era apenas uma pedra preciosa sendo lapidada. Hoje, Ed Sheeran ultrapassa barreiras e expande ainda mais seu território com o novo álbum, mostrando que ele não é apenas um hit, ou um álbum. É um baita cantor e compositor, além de ter maturidade, simplicidade, confiança e sensibilidade para dar e vender. E o mais impressionante? Ele tem apenas 23 anos, e sabemos, ao menos levando-se em conta todo seu talento/potencial a longo prazo, que este ainda não é (apesar de ser pra agora) o seu melhor. O maior mérito de "x", é construir uma perfeita equação com as variantes que ele possui de mais preciosas: a soma de sua sensibilidade, o apelo comercial passando por inúmeros estilos diferentes e seu amplo carisma, que, multiplicados ao seu talento único, constroem, na veracidade emocional e realidade dos fatos, o produto mais precioso no seu jogo de amor e perda: sua música. Te esperamos no Grammy, Ed.