Album Review: Coldplay e suas dolorosas formas de encarar o fim de uma relação em "Ghost Stories"

Assumindo seu status de estrelas mundiais, o Coldplay se preparou meio que em segredo para o lançamento de "Ghost Stories", ...

Assumindo seu status de estrelas mundiais, o Coldplay se preparou meio que em segredo para o lançamento de "Ghost Stories", seu sexto álbum em estúdio, que substitui o belo trabalho do "Mylo Xyloto", álbum que rendeu boas críticas e inúmeros hits para Chris Martin e sua trupe.


Apostando no já conceitual espetáculo artístico ao qual a banda se propõe, "Ghost Stories", em parte, foi inspirado pela relação conturbada, que chegou ao fim, do vocalista Chris Martin com Gwyneth Paltrow no momento da gravação do álbum. Sendo então um álbum conceitual, que conta a história de um homem passando por uma separação dramática e repentina, o que, teoricamente, simboliza uma história de fantasmas, pois o personagem central é inúmeras vezes "assombrado" pelo medo, angústia e incertezas do seu próprio passado. Composto por 9 canções em sua versão standard e 12 na deluxe, também gira em torno de um completo e imperfeito paradoxo: entregar-se de corpo e alma a uma relação, mesmo sabendo que esta tem prazo de validade ou simplesmente não é recíproca. O disco conta com a produção de Avicii, Paul Epworth, além do frequente colaborador da banda, Jon Hopkins. E não será preciosismo da nossa parte já apontá-lo como forte candidato a álbum do ano, porque faz jus ao título.


1) "Always in My Head"
A faixa que abre o novo álbum do Coldplay já começa em grande estilo. Com um pseudo-coral, juntamente de um arranjo que dá uma falsa impressão de tom gospel, temos, na verdade, uma faixa tranquila e harmônica. A voz de Chris fica em evidência num tom mais profundo e quase melancólico, que brilha intensamente com o apoio do coral, nos passando a impressão de estarmos caminhando em meio a uma atmosfera etérea, enquanto não conseguimos nos desvencilhar do sentimento de "ter aquilo que não durará uma eternidade", porque a entrega de uma das partes é maior que a outra, que é o conceito aqui: "Eu penso em você. Eu não tenho dormido. Eu acho que esqueço, mas não consigo. (...) Você está sempre em minha mente".

2) "Magic"
Dando sequência, temos um dos grandes hinos do ano. "Magic" foi a escolhida como primeiro single e não nos decepciona. Brilhante esteticamente e cheia de nuances vocais de Chris Martin, eles apostam pesado na proposta do álbum, soando como um grito dolorosamente belo de lamentação: "Chame de mágica. Chame isso de verdade. Eu chamo isso de mágica quando estou com você. E eu me parto, me parto em dois. Ainda chamo de mágica quando estou perto de você". Para mais tarde ainda enfatizar que, "E com toda a sua mágica eu desapareço de vista. E eu não consigo superar, não consigo te superar. Ainda chamo de mágica. É uma verdade tão preciosa". Como um truque de mágica, temos uma faixa que engana nossos ouvidos com sua calma, porém tem um apelo gigantesco para as rádios e aos corações mais sensíveis, sendo uma sacada genial pro contexto do álbum, como evidencia seu final: "E se você perguntasse para mim, depois de tudo isso que passamos, ainda acredita em mágica? Sim, eu acredito. Sim, eu acredito. (...) É claro que acredito". Nós também, seus maravilhosos!

3) "Ink"
Um dos grandes baratos da banda ao longo de mais de uma década de existência é sua capacidade de se reinventar ao longo dos álbuns, nunca soando como o anterior, mesmo assim conseguindo manter sua essência com atratividade e credibilidade incríveis. Em "Ink", isso não fica por menos. Combinando elementos que vão desde percussão, até piano, violão e xilofone, temos um resultado orgânico, em uma faixa que tinha tudo pra ser piegas, se caída nas mãos de outras bandas. Porém, Coldplay consegue transformá-la, a tal ponto, que já queremos como futuro single, afinal, um começo assim: "Fiz uma tatuagem que diz, 'Juntos através da vida'. Esculpi seu nome com o meu canivete. E você se pergunta se quando você acordar vai ficar tudo bem, parece que há alguma coisa quebrada por dentro", já é absurdamente encantador pela delicadeza, apesar de triste.

4) "True Love"
Na quarta faixa e atual single da banda, temos a continuação das histórias anteriores, porém, a dúvida do "eu lírico" agora é encontrar o seu "verdadeiro amor", mesmo que isso seja dito em meio às mentiras: "Diga que você me ama. Se não me ama, então minta. Minta para mim". Sério, são poucos artistas hoje no mercado que conseguem imprimir tanta sensibilidade em suas letras como o Coldplay. Essa faixa é uma pura demonstração disso. Impecável.

5) "Midnight"
A faixa que serviu como buzz single pra era "Ghost Stories", pode ser definida como, no mínimo, polêmica. Quando ela surgiu, muitos comparam (no sentido pejorativo) a algo muito Bon Iver para o padrão Colplay – ao qual discordo. Desde que explodiram no início dos anos 2000, essas mudanças sonoras sempre se fizeram presentes na vida da banda. Seja em termos estéticos, com uma profusão de cores e elementos, como da era "Mylo Xyloto", até mesmo nas fases mais alternês. Então, embora não curta tanto a faixa, prefiro exaltar a paciência e a capacidade deles em ousar numa tão experimental assim, do que criticá-los. Saem os sintetizadores e vocais catárticos do Chris, entram a solidão e melancolia de uma voz quase lírica, criando uma atmosfera ainda interessante e nova para os padrões deles.

6) "Another's Arms"
O que é o começa dessa faixa, meus amigos? Nada mais simples que uma interlude de um coral lírico, pegando gancho numa sequência de Chris, apenas ao piano e voz grave, porém, com resultado belíssimo. Resgatando outra vez uma atmosfera etérea, temos em "Another's Arms" um dos melhores momentos do álbum, até mesmo pela dolorosa sensatez da sua letra, que soa como um soco no estômago pelo pensamento negativo que o fim de uma relação causa.

7) "Oceans"
Uma das faixas mais longas, "Oceans" cumpre muito bem seu papel em ser uma imensidão de sentimentos em meio a um arranjo cru, porém, que dá todo o ambiente necessário pra lamentação de Chris. Com destaque pra interlude sensacional em seu minuto final, funcionando como uma sensação absurda de "à deriva" no vasto caminho emotivo de um oceano de lágrimas, "Esperando a sua ligação. A ligação que nunca chegou". Clap! Clap!

8) "A Sky Full of Stars"
E aquela famosa máxima de que, em algum momento da vida, algum artista que tanto gostamos, fará uma parceria inusitada, que ganhará o mundo? Pois bem, isso aconteceu com o Coldplay em "A Sky Full of Stars". Ou vai me dizer que, em algum momento, vocês imaginaram a banda cantando uma produção assinada pelo hitmaker de 2013, o DJ sueco Avicii? Não, né? Nem nós. Porém, tudo na faixa é de um primor, que só parando para analisar pra percebermos o quanto os dois se completam. Sejam os vocais encantadores do Martin ou as batidas características para as rádios do Avicii, tudo brilha em conjunto. O resultado: um novo hino cheio de lamentação e angústia: "Eu não me importo. Siga em frente e me magoe. Eu não me importo se você o fizer. Porque em um céu, um céu cheio de estrelas, eu acho que te vi".

9) "O"
Encerrando a versão standard, temos a maior faixa de todo álbum. "O" é uma das mais interessantes, não apenas por concluir de forma brilhante as "Ghost Stories" que tanto atormentam o protagonista: "Um bando de pássaros sobrevoando. Apenas um bando de pássaros. É assim que você pensa no amor. (...) E eu sempre, sempre olho para o céu. Rezo antes do amanhecer, porque eles sempre voam. Às vezes, eles chegam. Às vezes, eles se vão. Voe, vá em frente, um dia talvez eu voarei ao seu lado". Mas também por toda sua sutileza, que, assim como "Oceans", culmina em outra interlude apoteótica, apenas com um coral angelical, nos dando a sensação do vazio causado pelo tempo ("O", representa o tempo em grego) ao seu fim.

10) "All Your Friends"
Abrindo a versão extra do álbum, temos a faixa "All Your Friends" que, tranquilamente, poderia ter entrado na tracklist padrão. Ótima e sincera, ela aborda a questão da amizade em relação ao paradoxo do "ganhar perdendo". Quem nunca teve um amigo que, do nada, teve que se separar, não é mesmo?

11) "Ghost Story"
Faixa que leva, em tese, a inspiração para o álbum, "Ghost Story" traz um lado mais rock (às vezes lembra até country) do Coldplay em seu refrão. Com violões e guitarras bem de levinho, ela é bem calma em seu início, até aumentar o tom junto da percussão em seu pré-refrão, culminando nos falsetes, agora mais moderados do Chris Martin, mesmo assim, mantendo a coerência do álbum em evidência.

12) "O (Part 2/Reprise)"
Encerrando o brilhante novo álbum do Coldplay, temos a curtinha continuação da interlude final de "O", apenas para nos aumentar ainda mais essa sensação de vazio no peito, no fim de um trabalho maravilhoso.

Concluindo
Quando o Coldplay anuncia um novo álbum, o mundo deve parar. Não apenas para aguardá-lo, como também para admirá-lo. É mais que visível o esforço de Chris Martin & Cia, álbum a álbum, para fugir da zona de conforto e, evidentemente, se reinventar. Em "Ghost Stories", mesmo com flertes mais eletrônicos em partes, eles conseguem isso de forma brilhante e sem parecer forçado como em outras bandas. Sejam pelas boas letras, simplicidade nas produções, técnicas vocais, arranjos criativos e milimetricamente encaixados, não é de se espantar que o álbum seja já (e merecidamente) uma das maiores vendas, além de um dos grandes destaques do ano. Chris Martin que, recentemente assumiu que teve uma crise de bloqueio criativo no meio da composição do álbum, conseguiu mais uma vez dar um dinamismo e singularidade brilhantes ao trabalho da banda, que não apenas se firma como a melhor para seus fãs, como quem também não é fã, deveria incluí-los, pois, de novo, eles trazem uma contribuição impecável à boa música e às frases de efeito após um fim de um relacionamento também, não é mesmo?  Rsrs. No fim, "Ghost Stories" é uma história de fantasmas que não assusta, mas nos encanta com seu jeito minimalista, coeso e muito, muito sedutor, de mostrar os vários lados da dor potencializada pelo fim de uma relação.