Album Review: "1000 Forms of Fear", Sia (Parte 2/2)

Se ainda não leu, confira a primeira parte desta resenha . Quando a cantora e compositora australiana Sia Furler anunciou seu sex...

Se ainda não leu, confira a primeira parte desta resenha.

Quando a cantora e compositora australiana Sia Furler anunciou seu sexto álbum de inéditas, "1000 Forms of Fear", nossas expectativas foram láaaaa em cima. Geralmente, histórias assim não terminam bem. Quanto maior a expectativa, maior pode ser a decepção. Mas com cinco discos já lançados e uma quase interminável lista de sucessos escritos para outros artistas só nos últimos dois anos, não tínhamos porque esperar pouco de Furler, e com razão.

Com 38 anos, Sia já passou por poucas e boas. Por conta de um distúrbio na glândula tireoide, a cantora sociofóbica sofre frequentes mudanças emocionais, além de já ter passado pela depressão e superado tentativas de suicídio e o vício em álcool e drogas. Desde o seu primeiro disco, ela tem como uma de suas principais características o fato de se entregar por completo em suas composições, e no segundo álbum, em especial, aproveitou para desabafar após a perda de seu primeiro amor, que morreu num trágico acidente de carro.



Agora, porém, ela surge em um cenário completamente diferente. Ciente da fama adquirida — e indesejada — após compôr para tantos artistas pop, conhece o poder que carrega ao levar suas canções para as rádios e, longe de pensar nisso como uma forma de apenas fazer dinheiro, faz de seus trabalhos uma caricatura para ela mesma e dela mesma, ou melhor, dos seus cabelos, a marca desta nova fase, onde não mostra seu rosto e se deixa representar por outros artistas vestindo perucas que remetem ao seu penteado. Todas as Sias que existem dentro de uma só. E com uma mensagem tão complexa quanto simples.

Numa alusão ao seu título, "1000 Forms of Fear" nos mostra os medos de Sia, medos que podem assombrar outras milhares, milhões de pessoas, e medos que, como a própria canta, podem sim ser enfrentados e, o melhor, superados, mantendo também uma instável relação com seus discos anteriores, seja por meio de referências vagas ou lembranças mais claras. Este não é um guia de auto-ajuda, mas funciona deveras como tal.

1) "Chandelier"
"Garotas de festas não se machucam [...] Quando eu vou aprender?" O primeiro single do "1000 Forms of Fear" é também a música que abre a tracklist do disco e em grande estilo. A insegurança de Sia é o que dá o tom ao decorrer da música, enquanto a australiana, com seus vocais roucos e instrumental ora explosivamente orquestral, ora quase não notável, só clama pelo fim dos seus problemas, mas não da bebida. Se no tempo do "Healing Is Difficult" ela bebia para ficar bêbada, agora ela bebe para esquecer, mas tem consciência quanto a precisar enfrentar o que te assombra em algum momento. Uma das melhores músicas do ano.



2) "Big Girls Cry"
"Big Girls Cry" chega pra desmentir a teoria de Fergie. Enquanto ela canta sobre garotas serem fortes e não chorarem, Sia dá a cara a tapa e assume sua fragilidade sem medo de superá-la, cantando sobre não se importar aos julgamentos por estar feia ou borrar sua maquiagem, porque ela não é de titânio e, bem, "grandes garotas choram quando seus corações são partidos".



3) "Burn The Pages"
Revisitando a canção "Lullaby", do álbum "Some People Have REAL Problems", Sia transforma alguns dos seus versos em uma música totalmente nova, enquanto adianta que continua acreditando no que nos aconselhou há alguns anos. Buscando seguir em frente, ela te dá um guia de como superar um problema do passado, enquanto canta "ontem já se foi e você ficará bem, coloque seu passado em um livro, queime-o e deixe cozinhar". Você só vive uma vez.



4) "Eye Of The Needle"
Sabe quando você está naquele relacionamento e sabe que deve acabar, mas precisa ganhar tempo? É isso o que Sia faz em "Eye of The Needle", prendendo seu amado em seu coração, enquanto enrola procurando o buraco da agulha. Vocalmente falando, essa é uma das melhores do disco, e nos versos finais, Furler vai tão longe, que somos nós quem ficamos sem ar. "Você está preso em meu coração. Sua melodia é uma arte. E eu não vou deixar o terror entrar, estou ganhando tempo com o buraco da agulha"



5) "Hostage"
Quem é fã do trabalho da cantora com o álbum "We Are Born", de certo, vai sorrir ouvindo esta canção. Sendo a primeira "animada" do disco, em "Hostage" a cantora se deixa levar por um relacionamento às escondidas, enquanto termina se apegando mais do que deveria. Tudo começou com um beijo e agora ela se tornou refém do seu amor. O instrumental pende para algo mais rock, dando a canção o destaque necessário dentro do álbum.

6) "Straight For The Knife"
Com o clima caindo outra vez, em "Straight For The Knife" as metáforas de Sia não são usadas para amenizar o sentido de suas histórias, mas sim dar a ela um tom ainda mais dramático. Na baladinha, ela narra sua preparação para encontrar seu amado, e então se depara com ele apontando uma faca, e ela pronta para morrer. Na prática, seria uma música sobre aquele cara que sabe te colocar pra baixo. "Você se pergunta por que faz as garotas chorarem".

7) "Fair Game"
Acostumada em estar na frente dos seus relacionamentos, Sia finalmente encontra alguém que faz com que ela se desequilibre, então ela levanta bandeira branca, pedindo pra que seja uma relação de igual para igual. Um jogo justo. "Você me amedronta, porque é um homem e não um garoto. Você tem algum poder, e não posso te tratar como um brinquedo".



8) "Elastic Heart"
Com produção do Diplo e originalmente lançada com participação do The Weeknd, "Elastic Heart" saiu antes de "Chandelier", integrando a trilha-sonora de "Jogos Vorazes: Em Chamas". No contexto da saga distópica, "Elastic Heart", como um dueto, cai como uma luva para a história de Katniss (Jennifer Lawrence) e Peeta (Josh Hutcherson), que lutam com as armas que possuem em busca da paz e sobrevivência, também desafiando A Capital, pois não podem ser feridos ("você não me quebrou, eu continuo lutando por paz. Eu tenho uma pele espessa e coração de elástico").



MAAAS, dentro do "1000 Forms of Fear" — e sem The Weeknd — a canção ganha um outro ponto de vista, desta vez com Furler se arriscando em um novo amor, mas mostrando sua coragem enquanto entra de cabeça, pois não acredita que possa encontrar algo que a machuque seriamente. A produção de Diplo é bem característica, mas sem destoar de todo o resto. "Sim, vamos ser realistas, eu não confiarei em mais ninguém".

9) "Free The Animal"
"Eu te amo tanto que quero te jogar do telhado", canta Sia no primeiro verso de "Free The Animal", nos mostrando seu incontrolável amor ao som de um instrumental oitentista, que nos remete mais uma vez aos seus discos anteriores, lembrando também o que ouvimos com as Tegan and Sara no álbum "Heartthrob". Uma das nossas favoritas. "Me detone, me atire como uma bola de canhão; me granule, me mate como um animal; me decapite, me acerte como uma bola de baseball; me emancipe, livre o animal, liberte o animal".

10) "Fire Meet Gasoline"
Mais uma baladinha, mais um hit eminente. "Fire Meet Gasoline" é potente do início ao fim e, sim, remete a "Halo" da Beyoncé, mas apenas na parte sonora, enquanto a letra fala sobre ela encontrar o seu par perfeito. Ele é fogo e ela gasolina. "Estou queimando viva e mal posso respirar quando está aqui me amando, fogo encontra gasolina, queime comigo esta noite".

11) "Cellophane"
Totalmente entregue ao seu amado, em "Cellophane" Sia não compreende a sua incompreensão, sem saber o que deu errado, quando está tão dedicada e vulnerável. É uma downtempo bem introspectiva que nos remete ao peso da versão de Lorde para "Everybody Wants To Rule The World", com ela lamentando, "não se pode esconder a dor quando você está embrulhado em papel celofane".



12) "Dressed In Black"
Fazendo check-in no fundo do poço, é em "Dressed In Black", outra baladinha que flerta com o rock, que Sia parece desistir de tudo. Ela está desacreditada e, como resultado, volta a se trancar no seu escuro, sem saber em quem confiar. Mas eis que encontra alguém que parece ser a sua salvação. "Você me encontrou vestindo preto [...] Você colocou minhas mãos nas suas, começou a derrubar minhas paredes e cobriu meu coração com beijos. Eu pensei que a vida havia passado por mim, perdido minhas lágrimas e ignorado meus choros. Pensei que a vida tinha partido meu coração, meu espírito, então você cruzou meu caminho. Você reprimiu meus medos, me fez sorrir e cobriu meu coração com beijos". O final é simplesmente épico.



Por fim, são muitos os medos de Sia. O medo de amar, o medo de ser amada, o medo de ser deixada, o medo de assumir riscos, o medo de se entregar e até o medo de temer. Respira. Mas se entregando desta forma, sem medo de ser feliz e infeliz também, enquanto, antes de queimar o livro da sua vida, nos conta cada detalhe desta história, ela se mostra é muito corajosa. De forma menos poética, é simplesmente fantástica a maneira com que ela soube mesclar o lirismo e sonoridade característicos dos seus trabalhos anteriores com o que pode funcionar nas rádios atualmente e também tranquilizador ver que, por mais que tenha vendido tantas composições incríveis, manteve coisas igualmente ótimas para ela mesma, e com toda essa sinceridade quanto a não cantar sobre ser de titânio ou algo assim, mas sim uma pessoa de verdade, tão suscetível aos acertos quanto aos erros. Este não é um guia de auto-ajuda.