Editorial: o samba de Iggy Azalea com o sucesso de "Fancy", que quer ser o prato principal para os amantes de fast-food

Com exceção de Michael Jackson, Justin Timberlake e outros expoentes que, na medida do possível, se garantiram dentro do mercado pop se...

Com exceção de Michael Jackson, Justin Timberlake e outros expoentes que, na medida do possível, se garantiram dentro do mercado pop sendo homens, a indústria sempre priorizou as mulheres. Talvez por uma preferência que já partia das gravadoras, afinal, com elas fica mais fácil investir em estereótipos (a estudante sensual, a dona de casa, a apaixonada sofrida, a fêmea fatal, etc), as divas estão no topo há tempos, antes mesmo do grande sucesso da rainha da porra toda, Madonna, mas assim como as elevam, o público tem a curiosa necessidade de vê-las competindo, se digladiando pelo topo das paradas. E dão então um crédito, na certeza de que mais tarde irão cobrá-lo.

Não sendo música pop um gênero, mas sim uma forma de diferenciar o que funciona para o público, o que é popular, mainstream, temos como base principal para o seu status nesse meio os seus números e, consequentemente, uma necessidade delas em contar com o público, que se mostram dispostos a se dividirem, colocando-as umas contras as outras, prontos pra que comecem os combates, não de forma literal.

Essas rivalidades dentro da indústria não são novidades. Britney Spears e Christina Aguilera, Madonna e Cyndi Lauper, Cher e Madonna, Lady Gaga e Christina Aguilera, Lady Gaga e Madonna, Katy Perry e Lily Allen, Rihanna e Beyoncé e até a mais recente, da Katy Perry com Lady Gaga, mas assim como isso pode ser útil pra mantê-las sendo alvo dos holofotes, também as atrapalham, colocando-as pra baixo logo que surge uma nova figura para endeusarem, elegerem rainha até que surja algo melhor. Mais legal.

Em meio a internet e toda sua rapidez, links do Tumblr, Soundcloud e aquele site que ainda nem estrearam. Covers, reality shows, EPs, mixtapes, demos das demos das demos, parcerias, vazamentos, singles oficiais, clipes, vídeos com letra, performances. É tanta coisa para se consumir em tão pouco tempo que, viu?, aquele smash hit do ano já ficou muito semana passada e o público se prepara, sedento por sua próxima coisa favorita de todos os tempos e, claro, já coleciona uma série de argumentos (hahaha, argumentos) pra falar sobre o quão melhor é a novidade de hoje se comparada à de ontem, samba na da semana passada e destrói a carreira daquela do último mês.



Nesta semana, os EUA abriram os braços para um novo smash hit. "Fancy", a colaboração da rapper Iggy Azalea com a cantora Charli XCX, encabeçou a principal parada de singles da potência pop, a Billboard Hot 100, trazendo uma outra música com a mesma rapper australiana na sua cola, "Problem", da Ariana com Azalea, que saltou para o segundo lugar da lista. Iggy Azalea, Charli XCX, Ariana Grande, todas são novos nomes, divinhas em ascensão que caminham para a lista de prioridades desse público que cansa de tudo tão rapidamente, que as consome tão ferozmente, e agora, com os números ao seu favor, chegam bem perto do desejado favoritismo, mas a mesma notoriedade que as erguem, é aquela que começa então a colocá-las umas contra as outras, ao mesmo tempo em que procuram algo que possa contra-atacá-las na semana seguinte.

Os números para o single de Iggy Azalea são mesmo de surpreender e não devem passar batido. Essa é a quarta vez que um single de hip-hop é emplacado no topo da parada por uma artista feminina e a segunda que a mesma artista coloca duas canções entre as três mais da parada (a primeira vez que isso aconteceu foi com os Beatles). Tudo isso ainda é mais surpreendente ao ressaltarmos que Azalea é uma iniciante nisso tudo. Seu disco de estreia, "The New Classic", saiu há pouco e "Fancy" é um verdadeiro fenômeno, finalmente vingando a sua carreira, depois de uma sequência de clipes e singles que soavam como sucessos certeiros, mas simplesmente não caíram no gosto popular. 



Agora que tá mainstream, Iggy Azalea começa também a perder a graça para aqueles que a amavam pelo fator underground, quase hipster. A qualidade invejável de músicas e clipes de uma artista que não precisava estar no topo das paradas para se garantir, e nessa quem sai ganhando são as tendências de amanhã, Brooke Candy, Angel Haze, Kreayshawn, [coloque aqui aquela rapper que você acabou de encontrar na nova parada da Billboard com o Twitter], que a qualquer momento serão superestimadas até que alcancem o seu smash hit, além dos nomes antigos, que neste momento são lembrados na tentativa de diminuir o trabalho da artista em notoriedade, como Missy Elliot, Lil Kim e até Nicki Minaj, a grande responsável pela re-ascensão das rappers femininas nas rádios atuais. Aliás, você ouviu o novo single dela, "Pills N Potions"? Ela sempre foi a nossa favorita de todas. Se é que nos entende.

Por fim, quem dera pudéssemos nós cessar toda essa feira de ignorância com um simples texto, ensinando-os que é possível ouvir "Show das Poderosas" e "Beijinho no Ombro" sem iniciar qualquer discussão com uma cúpula de formadores de opiniões e todos seus argumentos que, no ápice da falta de pontos realmente válidos, passam a colocar em xeque características físicas das artistas envolvidas ou até mesmo denúncias de fontes duvidosas, mas o que realmente queremos é relembrar que, ainda que as tendências surjam a todo momento e estejam ali, a alguns cliques do seu alcance, você não precisa tornar tudo tão descartável e dispensável. Não precisa ser tão descartável e dispensável.

Dá pra ser fã de várias coisas ao mesmo tempo. Não idolatrar absolutamente nada tá permitido também. Mas lembre-se de fazer tudo isso com calma, músicas, clipes, álbuns, tudo exige um determinado tempo para ser consumido de fato, compreendido, e mastigar é algo essencialmente saudável para uma boa alimentação. E o que estamos fazendo se não nos alimentando com tudo isso? Então aproveitando a metáfora infame, maneirem no fast-food, pessoal!