Album Review: Pitty morreu, mas passa bem, e ainda lhe restam algumas de suas "SETEVIDAS"

Lá pro finalzinho de 2002 e meados de 2003, o mundo passou a conhecer o que viria a ser uma das maiores bandas de rock nacional. Apres...

Lá pro finalzinho de 2002 e meados de 2003, o mundo passou a conhecer o que viria a ser uma das maiores bandas de rock nacional. Apresentados com o sucesso do hino de uma geração, "Teto de Vidro", Pitty, a cantora que dá seu nome a banda, veio ao longo do tempo quebrando milhares de recordes, tanto nacionais quanto internacionais. E agora, depois de cinco anos sem um disco de inéditas, eles nos dão o ar da graça ao seu quarto álbum de estúdio "SETEVIDAS".



A cantora, depois de se reinventar ao participar de um projeto musical folk, junto com o guitarrista Martim Mendonça, intitulado de Agridoce, que nos rendeu ainda o adorável single "Dançando", e participar com vocais mais pop na música "Hoje Cedo", do rapper Emicida, voltou com sua banda e mostrou que ainda sabe fazer rock do bão! 

O disco, produzido pelo inglês Tim Palmer (que já trabalhou com U2, David Bowie, Pearl Jam, Jason Mraz, etc), traz diversos desabafos sobre os últimos anos vivenciados pelo grupo, como a morte do companheiro de infância e também de banda, Peu Souza, e da saída do baixista Joe, que ainda rendeu um caso judicial. Mas como disse a cantora em uma entrevista: "A grande lição que tiro disso tudo é que, mesmo o que parece ruim, no final das contas vem pro bem. E o resultado é que a minha banda nunca foi tão boa".

O primeiro single foi a faixa-título "SETEVIDAS", inicialmente divulgada por meio de um texto, publicado no site oficial da banda, bem interessante e bastante poético, todo baseado no número sete. Gravado todo ao vivo pelos integrantes, cada qual tocando o seu instrumento ao mesmo tempo, nos traz um som não tão diferente do que já foi nos mostrado, mas também vem enlaçado com um clima gostoso de rock de garagem e também até de instrumentos africanos, graças a origem baiana da vocalista.


A faixa que abre o trabalho é a grunge e psicodélica "Pouco" e resume muito bem o conceito do disco. Bem misteriosa e carregada de elementos do metal, ela vem cheia de sintetizadores no refrão no qual a cantora desabafa: "Não espere que eu me contente com pouco". "Deixa Ela Entrar" lembra bastante os trabalhos da banda com o disco "Chiaroscuro". A música é uma delícia, soando bem comercial. Ótima escolha para um futuro single.

Uma das melhores do CD é a "Pequena Morte". A faixa grita sensualidade por todos os cantos, com o vocal da cantora saindo quase sussurrado e senhor!, o que são esses arranhados de guitarra ao fundo?! A música toda é uma enorme metáfora para o orgasmo. "O bom é que depois o final, é a pequena morte lenta de nós dois". A número quatro é "Um Leão" e no meio de tantas outras coisas boas por aqui, ela fica meio perdida. Mas isso não impede de ter uma ótima composição no qual a cantora se mostra um animal com sede de amor.



"Lado de Lá", uma das primeiras a ser divulgadas, foi inspirada por um poema de Patti Smith. É uma homenagem ao seu companheiro Peu Souza, responsável pela criação de músicas como "Equalize" e "Deja Vu", que cometeu suicídio no ano passado, e também ao guitarrista Lou Reed, que morreu também no ano passado. Uma música linda acompanhada pela presença de um piano, grande influência da passagem de Pitty pelo Agridoce, e de um coral majestoso.

Em seguida, temos "Olho Calmo", regada com solos de guitarra e uma letra bastante doída. "E depois do rancor respirar / Vigiar ao redor e respirar / Aprender a usar o olho calmo". Mais um desabafo da banda em meio a tantos problemas já enfrentados. Em "Boca Aberta", Pitty aproveita para lançar uma crítica a todo esse meio consumista e capitalista que nos rodeia. Também é mostrado a evolução da voz da cantora, em que toda a experiência ganha com o Agridoce nos é revelada aqui, onde ela parece estar bem a vontade.

Mais uma crítica vem contida em "A Massa", no qual vemos um ataque ao modo que as notícias nos são transmitidas, sem consistência. "Estômago revirado com a massa vazia / Não passa de uma ração / Não querem massa indigesta / Não querem perder a razão". A próxima foi a primeira música a nos ser apresentada, a faixa-título "SETEVIDAS", que já ganhou até um clipe. Aqui vemos que a banda veio pra ficar mesmo e os outros que aguentem. Apesar da insatisfação de alguns fãs pela falta de uma letra melhor, a música foi bem escolhida como carro-chefe por nos mostrar como seria a fase atual do grupo. "A postura é combativa / Ainda tô aqui viva / Um pouco mais triste / Mas muito mais forte / E agora que eu voltei / Quero ver me aguentar!"

As comparações com o Agridoce não acabam, e em "Serpente" vemos bastante do projeto. A música é uma das melhores, se não a melhor, de todo o disco e é também onde mais se mostra a influência de ritmos africanos que nos foi prometida. Bem simples e ao mesmo tempo, bem produzida, vemos que os integrantes continuam firmes e fortes, prontos para passar a página e recomeçar.



Resumindo: Em "SETEVIDAS" nos é mostrado o tamanho da evolução que Pitty sofreu. Talvez não seja um dos melhores álbuns da carreira do grupo, mas eles se mostram bastantes amadurecidos em frentes a todos os problemas que tiveram que enfrentar. Talvez não satisfaça todos os fãs pela falta das letras mais críticas e reflexivas, que já são características deles, mas com certeza deve saciar a sede daqueles que estavam com saudade de um rock brasileiro bem produzido.