Album Review: Christina Perri faz de suas próprias escolhas sua afirmação (ou não) em "Head or Heart"!

Christina Perri surgiu aos nossos olhos como um belo furacão de emoções. Talentosa, ela deixou uma boa impressão, bem como um gostinho...

Christina Perri surgiu aos nossos olhos como um belo furacão de emoções. Talentosa, ela deixou uma boa impressão, bem como um gostinho de "quero mais". Dona de vocais angelicais, muito boa compositora e apostando em temas dolorosos e afetivos, seu debut, "Lovestrong" (2011), foi bem recebido no mundo todo, em virtude do hit "Jar of Hearts", ou por conta do smash hit (que não fazia parte da tracklist) "A Thousand Years", tema da "Saga Crepúsculo", que a colocou ainda mais em evidência à época. Agora, três anos após, com o temido e famigerado desafio do segundo disco, Perri quer provar que seu sucesso de poucos anos atrás não foi mero acaso, e que conseguirá manter o rumo, na afirmação do seu talento em ascensão.


Se no "Lovestrong" tínhamos o dilaceramento causado por decepções ou amores platônicos potencializados, em seu segundo álbum, intitulado "Head or Heart" e lançado no mês passado, temos uma nova profusão de sentimentos que, não necessariamente, têm a ver com o amor. De forma madura e consistente, a cantora aborda temas um pouco mais complexos e que a deixam de certa forma confusa, entre seguir sua intuição ou deixar o lado emocional aflorar por completo. Crises existenciais e emotivas são o grande mote, nos deixando com aquela sensação que ela já causou em seu debut: de ser uma montanha-russa de sentimentos. Ora triste, ora feliz. Porém, tudo com seu propósito: sua verdade em forma de música. Que tem seus prós e contras.


1) "Trust"
Abrindo os trabalhos da sua difícil missão, temos Christina Perri nos convidando para um caminhão de emoções e sentimentos ao longo da baladinha com "quês" de folk, "Trust". Com seu vocal sutil em volta de um violão, estabelecendo uma relação cheia de ternura e apaixonada, ela nos dá ao mesmo tempo um contraponto triste, ao optar por uma abordagem delicada sobre uma relação pautada em mentiras: "Confie em mim. Confie em outra pessoa. Confie nas mentiras que saem da minha boca. Confie no coração que eu vendo tão rápido", isso sem nos deixar esquecer que por mais que ela insista em querer fazê-lo acreditar de novo, será complicado, afinal: "E sou tão rápida em perder o que nunca foi meu". Perri e seus dilemas que acabam de começar.

2) "Burning Gold"

Saindo da baladinha característica de Perri, temos uma bela surpresa no álbum em sua segunda faixa. "Burning Gold" é um midtempo delicioso e emotivo na medida certa. Acolhedor e buscando uma nova luz no fim do túnel, ela se diz cansada de ser ~prisioneira~ de sua própria vida. É uma música bem motivadora, que encoraja bastante em alguns momentos: "Procurando uma saída nesse mundo de medo. (...) Olhando pela janela para um mundo de sonhos. Posso ver o meu futuro indo embora. (...) Eu preciso, preciso de uma mudança. Eu já cansei de correr atrás da sorte. (...) Estou ateando fogo à vida que eu conheço. (...) Até que nossas vidas estejam em chamas de ouro".

3) "Be My Forever" (feat. Ed Sheeran)
Continuando com as boas surpresas, confesso que quando vi o nome do Ed Sheeran como um dos colaboradores do "Head or Heart", logo imaginei que pudesse surgir uma mega balada dessa parceria. Pra nossa surpresa, o que temos é outro midtempo delicioso. "Be My Forever" é a junção de dois artistas supercriativos, com ótimos vocais e que se completam ao longo da canção, sem que em nenhum momento, um fique maior que o outro. Mostrando, acima de tudo, respeito. E no mais, que esses dois lindos sejam nossos para sempre.

4) "Human"

A quarta faixa é um espetáculo. Escolhida como primeiro single do álbum, "Human" é simplesmente uma das melhores coisas lançadas no ano até aqui. Emocional ao extremo e um show de técnica vocal em sua montanha-russa de sentimentos, é a típica baladinha que se espera da Perri e, que, se não se juntar em números às incríveis "Jar of Hearts" e "A Thousand Years", ao menos em performance, merece o mesmo patamar. Pegando na questão de que todos nós somos imperfeitos aos olhos dos outros, simplesmente por sermos humanizados e não robôs, é como se pudéssemos ver e sentir as batidas do coração da cantora a cada nota cantada, tamanha a entrega dela na faixa. Absolutamente deslumbrante.

5) "One Night"
Depois de nos fazer chorar na faixa anterior, "One Night" nos traz uma nova faceta da cantora. Com destaque para seu tom de voz mais sedutor (que eu ainda não tinha ouvido em seu álbum de estreia), a faixa tem instrumentais sutis, mas que conferem um poder incrível à ela, sem contar que seu refrão contínuo, é extremamente catchy. É uma das canções mais interessantes do ponto de vista produção/composição, que, embora escondida (é possível que passe despercebida, se não prestar bem atenção), é louvável seu mérito em sair do "lugar comum" e criar uma identidade própria em meio ao sentimentalismo exacerbado visto até então.

6) "I Don't Wanna Break"

Single promocional do álbum, "I Don't Wanna Break" traz um sentimento bem parecido com "Burning Gold". Outra faixa encorajadora dentro de um midtempo, só que agora sai o piano e entra o violão. Em alguns momentos, pode até soar como algo "mais do mesmo" vindo de qualquer outra cantora por aí, só que isso não é uma coisa ruim. É visível o quanto Perri se arrisca mais nessas músicas que não estão na sua zona de conforto, que é cercada por super baladas. Aqui, temos uma música cativante. E, honestamente, gosto bastante dela.

7) "Sea Of Lovers"
Outra baladinha clássica, "Sea of Lovers" é, na minha opinião, uma das músicas mais fracas do álbum. Pode ser dividida em duas partes: a boa, que é antes de refrão; e a ruim, do refrão em diante. No geral, apesar da boa melodia, sua letra e todo o resto (incluindo os vocais mais agudos da Perri) soam bem cansativos ao longo de seus 3 minutos e 37 segundos.

8) "The Words"

Aqui iniciamos a segunda parte, novamente com as dúvidas entre seu lado mais racional e/ou emocional. Melhor faixa do álbum, "The Words" nos faz esquecer rapidamente tudo que nos incomodou na anterior. Com uma letra impecável e ao mesmo tempo despojada, somada ao piano clássico (que até agora não havia sido utilizado direta e exclusivamente), é uma power ballad. É aquele tipo de canção para não ouvirmos com os ouvidos, mas com os olhos. Ok, essa última frase parece confusa, eu sei. Mas é a mais pura verdade. Apenas feche seus olhos e deixe "as palavras" de Perrie ecoarem na sua mente: "E todas as escadas que me levam até você. E todo o inferno que eu tenho que percorrer. Mas eu não trocaria um dia para ter a chance de dizer, meu amor, estou apaixonada por você". É uma sensação primorosa.

9) "Lonely Child"
As mesmas críticas feitas à "Sea of Lovers" podem se repetir aqui, porém com um adendo: a confusão que a faixa faz em torno de si mesma, influindo diretamente na letra, um pouco evasiva no contexto do álbum. Liricamente, é a faixa menos rica. De bom mesmo, só a sensação dela tentar algo novo outra vez. Só que não bem-sucedida.

10) "Run"
Na busca por experimentações, "Run" nos leva a um "lugar comum" outra vez. Flertando com o eletro-pop, a faixa fica num meio-termo, só que pro lado ruim da coisa. Ao menos pra mim, pareceu aquela sensação de "ame-a ou deixe-a". Se Perri em alguns momentos do álbum têm que optar entre sua razão ou emoção, em relação à "Run", eu escolhi deixá-la e partir pra outra. E sim, estou feliz com a escolha.

11) "Butterfly"
É inegável dizer que a segunda parte do álbum é (propositalmente?) ruim e bem abaixo se comparada à primeira. "Butterfly" é apenas mais uma canção a somar pra esse fato. Não acrescenta muita coisa ao contexto do álbum, pelo contrário, até é mais correto admitir que ela se encaixaria melhor se tivesse sido do "Lovestrong". Falta intensidade e, nesse momento, certa vontade nossa também. Uma pena.

12) "Shot Me In The Heart" 
E, após reclamar em três faixas seguidas dessa segunda parte, não é que surge algo interessante de novo? "Shot Me in the Heart" é um belo "achado". Animadinha, pop, com refrão catchy e radiofônica, foge um pouco da singularidade habitual de Perri, o que é ótimo e sempre vale o registro, mesmo que nem sempre acertando, ela se arrisca.

13) "I Believe"
Depois de tantas incertezas e escolhas (nem sempre legais) baseadas em sua intuição, coração e honestidade, chegamos ao fim do "Head or Heart" com uma baladinha, que encaixa bem no que se propõe. É uma das faixas mais "Christina Perrizísticas" do álbum. Letra e melodia crua, vulnerável e ótimos vocais. Um pequeno coral e algumas leves, porém perceptíveis batidas de beatbox, dão um encerramento bastante consistente a um álbum que, embora excelente na primeira parte, deixa bastante a desejar em sua segunda.

Por fim...
Christina Perri é uma ótima cantora e compositora, principalmente quando interpreta baladas. Em "Head or Heart", o que temos é, assim como seu título, uma massiva confusão de sentimentos. Onde, a cada momento, devemos optar por aceitar o que nos é proposto, ou, simplesmente, deixar pra lá. Dividido em duas fases, temos uma montanha-russa sentimental na primeira, que é muito boa, e não seria e má-fé dizer que, se o álbum fosse composto apenas das 6 primeiras músicas mais "The Words", poderia ser muito mais bem visto de uma forma mais crítica e abrangente. Já a segunda parte, é bem ruim, apenas com pouquíssimas ressalvas (muito mais pelo fato de sair do "lugar comum") e olha lá, o que afeta o trabalho num todo. Num geral, o segundo álbum de Christina Perri soa como um sucessor correto para seu álbum de estreia, porém, sem a mesma força. Uma pena.