Review: em seu novo álbum, Britney Spears é "Britney Jean", mas só para os íntimos

Com o perdão da palavra, a Britney Spears é foda. Desde quando fez de um disco seu desabafo em tempo que se tornava uma porra-louca pra ...

Com o perdão da palavra, a Britney Spears é foda. Desde quando fez de um disco seu desabafo em tempo que se tornava uma porra-louca pra mídia, lá em 2007 com o "Blackout", ela precisou aturar muita coisa, mas muuuita mesmo, e depois de raspar o cabelo, agredir os paparazzis e protagonizar sabe-se lá quantas especulações envolvendo seguranças, dançarinos, empregados, abusos sexuais e aspas nunca ditas, ela ganhou o selo oficial de ameaça para a sociedade, o que fez com que passasse a ser rodeada por essas coisas tipo "tutores", pra garantir que ela não sairia por aí mostrando o dedo e a língua enquanto se balançava em bolas rompedoras, além de incluir em sua rotina alguns 224364244 remédios que fez dela aquele ser quase sem vida que acompanhamos nos últimos anos.

Zombney não era foda. Em estúdio ela dependia muito dos produtores pra que as canções realmente acontecessem e, com sorte, conseguia alguns refrões marcantes, presentes nos discos "Circus" e "Femme Fatale", mas aí personificava a decepção dos seus fãs em palco, quando parecia temer arriscar alguns passos de dança, além de se tornar cada vez mais adepta ao playback (sim, playback e não base/apoio, rs). Mas as coisas se tornaram ainda pior quando passaram a depositar todas as cartas que envolviam seu nome nas mãos do produtor Dr. Luke, com quem ela pareceu encontrar uma perfeita zona de conforto. Nessa linha do tempo, Zombney se tornava cada vez menos Britney e o pior, cada vez com menos personalidade e, consequentemente, se tornando menos interessante. Com intere$$e, chegamos então na relação "artista X público" e no que realmente importa quando falamos de uma atração de grande gravadora: as vendas. 

Os singles do "Femme Fatale" talvez tenham sido um bom retorno pra RCA Records, atual responsável pelos materiais da Brit, mas nada perto do que ela já fez em outrora, o que faz com que eles questionem se seriam os fiéis fãs da cantora que também estavam pulando fora desse barco. Há tanto tempo sem performar ou cantar de verdade, a própria Britney já deveria estar bem cansada de toda essa vida de cantora, investindo cada vez mais no seu papel de mãe e em outros negócios, como fragâncias, mas para 2013 teve uma proposta irrecusável. 

Agora imaginem vocês, depois de tanto tempo gravando tantas canções sem saber o que iria ou não para álbuns oficiais, além de não ter controle algum sobre o que ganhava as rádios com seu nome e precisar se fingir satisfeita com isso, ela recebe um projeto de um disco em que ela co-compõe todas as canções, podendo realmente decidir o que vai ou não pras lojas na tiragem final, além de um espetáculo residente em Las Vegas. Uma ideia promissora, mesmo que um tanto utópica, mas que os grandões da gravadora toparam e ela, obviamente, também. Como tudo tem seu porém, em troca de tanta liberdade criativa, a cantora teria que ceder no disco espaço pra alguns itens que pudessem salvá-lo no caso de tudo dar errado, e é aí que entram a produção executiva do will.i.am, a tímida participação de Dr. Luke na edição deluxe do álbum e a tão comentada colaboração da australiana Sia. No fim, todas essas intervenções foram de menos e o álbum, intitulado "Britney Jean", cumpre com a proposta inicialmente prometida, aquela de um material mais íntimo, pessoal, sendo um cd bem feito de Britney pra Britney, de Britney para seus fãs.



Oficialmente lançado no dia 3 de dezembro, "Britney Jean" (que já anuncia sua vitalidade nos olhos de Britney em sua capa) é introduzido por uma baladinha, o primeiro passo arriscado da nova era. "Alien" não é nenhuma "Everytime", mas dá uma prévia daquele sopro de ar fresco pedido por seus fãs desde quando, bem, "Everytime" foi lançada, e convence. Só nesses quase 4 minutos de música, quase quatro minutos produzidos pelo William Orbit, já escutamos tudo o que os últimos dois cds dela deixavam a desejar: essa leveza aparentemente natural, além dos vocais realmente limpos, sem grandes intervenções. Dando uma quebrada no clima, "Work Bitch", primeiro single do cd, é a faixa seguinte. Não é querendo fazer a Demi Lovato, mas vocês não sabem o que passamos depois dos 95º que a canção levou no nosso Hitômetro, mas boa parte dessas reclamações não passaram de puro mimimi. Deixando de lado toda a falta de divulgação que a envolveu como single, "Work Bitch" tem sim uma proposta promissora, quase que soando como uma versão solo do que ouvimos até cansar alguns meses antes em "Scream and Shout". Numa visão geral, destoa um pouco de todo o disco, mas se encaixa perfeitamente no que dissemos sobre os "poréns" que possivelmente  envolveram o lançamento disco.

Passado o choque pós-farofão, os nervos são acalmados outra vez em "Perfume", a baladinha lançada como segundo single do álbum e também composta pela Sia. Com toda a sinceridade do mundo, a letra é bem bobinha, principalmente se levarmos em consideração que veio da mesma compositora de "Diamonds" da Rihanna ou "Titanium" do David Guetta, mas o bom é que essa proposta ~minimalista~ acaba por deixar todo o brilho para aquilo que tanto deixou a desejar nos últimos trabalhos da Britney: seus vocais. Ou vocês não estavam com saudades desse tom mais grave em que quase sentimos todo seu esforço pra mostrar que realmente tá trabalhando? Uma das nossas favoritas em toda a produção.

Cumprindo mais uma vez as exigências da gravadora, will.i.am volta pra deixar um recadinho em "It Should Be Easy". A descartada do "#willpower" é uma produção do cara com o David Guetta, repetindo a colaboração que deu certo no smash hit "I Gotta Feeling" e na recente "Fashion!" da Lady Gaga (presente no disco "ARTPOP"), mas soa bem filler no "Britney Jean". Uma farofa que não agrega valor algum ao álbum. Falando de coisas que agregam valor a ele, chegamos então em "Tik Tik Boom", a primeira parceria que dá certo no cd. Numa colaboração com o rapper T.I., aqui Britney Spears traz um pouco do tão pedido urban no disco, provando que, mesmo em um ano que o gênero rendeu músicas e mais músicas, ainda consegue acrescentar nele um quê a mais. A produção é do Anthony Preston com o Damien LeRoy.

"Body Ache" e "Til It's Gone" são e não são boas. Donas dos refrões mais chicletes do disco, elas são aquelas que, acompanhadas de "Tik Tik Boom" e "Work Bitch", serão pegas pelos DJs pra agitar as noites baladas afora, mas também soam um tanto perdidas numa visão geral. "Body Ache", na verdade, consegue soar tão filler quanto "It Should Be Easy", enquanto "Til It's Gone" aos poucos nos convence pela força dos seus sintetizadores, mesmo trazendo mais do datado dubstep. O saldo do disco permanece bem positivo na faixa seguinte, "Passenger", composta pela Sia com Katy Perry e Diplo. A mid-tempo tinha ganhado a internet um pouco antes do disco completo sair e muitos custaram a acreditar que aquela seria a versão final, principalmente pelo arranjo se aproximar daquele pop-rock-inocente à la Hilary Duff, mas taí, não notamos sequer uma diferença entre as versões vazada e final, e agradecemos a todos os envolvidos.

"Britney Jean" começa a se despedir em "Chillin' With You", mais um grande destaque do álbum. De volta as baladinhas, aqui a cantora vem acompanhada de sua irmã (e agora cantora country) Jamie Lynn, e nos arranca vários suspiros com esse momento família. Aos interessados, a canção conta com um break que flerta com a trap music, mas nosso momento favorito fica mesmo para os segundos em que elas cantam juntas, além da parte em que revezam o "you... you... you". Fechando a edição standard do disco, chegamos então em "Don't Cry (Me A River)" e mergulhamos em um novo mar de possíveis indiretas para o Justin Timberlake (que também teria cantado sobre Britney em "Not A Bad Thing", do seu último cd). Mais uma vez, os vocais de Brit vêm naquele tom grave carregado de esforço, e os versos que ficarão na cabeça de Justin por um bom tempo: "esse será nosso último adeus. Nosso amor se foi, mas eu sobrevivi. Esconderei minhas lágrimas e secarei meu rosto. Você não precisa me ver chorar um rio".

Na sua versão deluxe, o disco conta com outras três canções, sendo elas "Brightest Morning Star""Hold On Tight" e "Now That I Found You". Que a verdade seja dita, todas fariam um trabalho bem melhor que "It Should Be Easy", "Body Ache" e "Work Bitch" na parte standard da tracklist, mas tudo bem, podemos superar isso. Dr. Luke, que desta vez esteve por trás apenas da "Brightest Morning Star", entrou rápido no jogo desta nova era, produzindo uma das baladinhas mais gostosas do cd. "Hold On Tight" também carrega um dos melhores refrões do disco, além de mais um pouco desses vocais quase naturais-ney e em "Now That I Found You" ainda temos a divertida redenção country de Britney, numa pegada dançante pra lá de interessante que nos remete à "Wake Me Up" do Avicii e "Timber" do Pitbull com a Ke$ha. Arriscamos dizer, inclusive, que a da Britney é melhor que as duas outras citadas, mas né, vamos defender a ideia de que isso envolve muito do gosto pessoal.



Pra concluir, quando disseram que o "Britney Jean" seria o álbum mais íntimo da cantora, talvez tenham sido mal interpretados. Em um ano com tantos álbuns autointitulados, muitos podem compreender isso como uma forma dela reforçar seu nome, mas Britney não precisa fazer isso, justamente por ser ela. A parte pessoal do álbum se dá por toda a produção ser algo dela diretamente para seus fãs, aquela discussão de relacionamento que eles estavam adiando há tanto tempo, e se querem uma prova disso, o pequeno apelo comercial do disco está aí pra não nos deixar mentir. Pode parecer que não, mas sim, é tudo bem arriscado e, mais uma vez, foda. Aliás, Britney não é só isso, ela é fofa também. De resto, só sentimos falta de refrões e versos mais impactantes, num álbum que garante, no minimo, o título de bom.