Feminismo: O curioso caso de Beyoncé Knowles!

A questão não é nada nova. Análises da cultura popular sob um ponto de vista social, num geral, também são tão velhas quanto necessárias...

A questão não é nada nova. Análises da cultura popular sob um ponto de vista social, num geral, também são tão velhas quanto necessárias, afinal são reflexos do pensamento e normas em vigência na sociedade. Mas Beyoncé vem, aos poucos, elevando o nível dessas discussões e representações femininas e/ou feministas na cultura popular e se fez alvo de mais e mais análises, principalmente, desde "Run the World (Girls)". Seu mais recente, inovador (com destaque para a forma que foi lançado) e homônimo trabalho nos fez parar, mais uma vez, porém com mais profundidade, pra pensar "qual é a ideia de feminismo da Bey? Será que ela tá divulgando os ideais feministas de forma correta ou está distorcendo teorias e discursos?". A resposta é um grande NÃO SEI. Tudo que podemos fazer é levantar os argumentos a favor e os argumentos contra o feminismo apresentado por uma artista popular e chegará a sua própria conclusão com embasamento em diversas  argumentações.

É importante lembrar sempre que, muitas vezes, os problemas sociais ficam de fora do repertório de assuntos de diversos dos maiores ícones do pop, ou são abordados de forma muito superficial, uma vez que vivemos na era do "Essa é minha opinião" (o que não é argumento em nenhum nível de discussão, tá?). A canção de maior destaque no Beyoncé, nesse sentido, é "***Flawless", com sample de um discurso da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, pro TED Talks. Chimamanda é, além de escritora, feminista negra (sim, existem diferenças entre o feminismo negro e o feminismo branco, afinal mulheres negras sofrem opressão em dobro) e seu discurso é um dos mais simples, acessíveis e esclarecedores que já vi. Segue o player abaixo com o discurso da Adichie e abaixo o trecho usado no Beyoncé.


Nós ensinamos garotas a se encolherem, a se diminuírem.
Nós dizemos às garotas: "Você pode ter ambição, mas não muita. Você deve almejar o sucesso, mas não muito sucesso. Caso contrário, você ameaçará o homem"Por eu ser mulher, esperam que eu sonhe com casamento. É esperado que eu tome decisões pra minha vida tendo sempre em mente que o casamento é o mais importante.
Agora, casamento pode ser uma fonte de alegria e amor e apoio mútuo.
Mas por que ensinamos garotas a desejarem o casamento e não ensinamos o mesmo aos garotos?
Nós criamos garotas para verem umas as outras como competição
Não [competição] por trabalho ou sucesso, o que eu acho que poderia ser algo bom
Mas sim [competição] por atenção dos homens
Nós ensinamos que garotas não podem ser seres sexuais do mesmo modo que garotos são
Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre sexos.
Os argumentos que vão contra o sample usado pela  Queen B. alegam que ela vende a sexualidade feminina de forma errada. A própria Chimamanda diz em seu discurso completo sobre o bottom power, que é quando as mulheres tentam exercitar o girl power através de sua sexualidade, mas na verdade estão apenas manipulando o poder alheio em troca de sexo ou sensualidade. E, convenhamos, esse erro é, talvez, o mais comum na indústria do pop.

Mas não estaria Beyoncé se mostrando como dona de sua sexualidade? É o mesmo caso da nossa Deusa Valesca Popozuda cantando "A porra da boceta é minha" e sim, toda mulher é dona da própria e dá pra quem quiser, o que demonstra que elas se satisfazem sexualmente, como todos deveriam fazer, sem invadir a intimidade alheia. Mas se elas incentivam a mulher a assumir a própria sexualidade ou usá-la para manipular o poder de outros, configurando um falso poder, é uma questão sem aquela resposta pronta e correta que tantos gostam, já que tudo depende da intenção das mulheres citadas e do entendimento de cada público.


“Pretty Hurts” – dirigido por Melina Matsoukas

A ex-Destiny's Child é casada e usou o nome do marido em sua última turnê, fato que somado a algumas letras em sua carreira podem ser entendidos como submissão ao homem. Mas a função do feminismo não é, nem de longe, ditar regras, ou seja, não se deve definir um comportamento e uma aparência para mulheres, afinal isso já é feito. Bey é casada, mas não foi obrigada a isso, não é submissa ao marido por obrigação, pressão e muito menos falta de opção. As mulheres devem ter direito de escolher serem grandes profissionais, assim como podem escolher serem donas de casa e se definirem como "a esposa de alguém". Tudo isso desde que não julguem e queiram definir que isso é o certo na vida de toda e qualquer mulher.

É importante lembrar que Beyoncé, além de artista, é celebridade. Isso torna tudo muito contraditório a primeira vista, uma vez que acompanhamos o desenvolvimento profissional e pessoal das celebridades. Se tomarmos como exemplo o trabalho do grupo Destiny's Child, poderemos afirmar sem grandes dúvidas que Beyoncé, Rowland e Michelle Wiliams reproduziram o machismo de forma massiva. Mas toda e qualquer pessoa precisa de tempo e muita pesquisa  para enxergar a profundidade das definições de gênero em nossa sociedade e isso significa que Beyoncé é hipócrita? Não, significa que ao longo dos anos ela vem se informando e se empenhando nessa luta, se desenvolvendo. As únicas grandes cobranças que talvez possamos fazer a rainha de vendas de 2013 é em relação a seu embranquecimento (isso não se refere somente a embranquecimento da pele, meus caros leitores. Vale a pesquisada), mas isso fica pra outro texto.

É totalmente errado definirmos um modelo de mulher feminista., de forma que só estaríamos criando um segundo padrão, uma segunda forma de oprimir. E em relação a mulheres de outras culturas, é mais difícil e errado ainda apontar contradições no feminismo de cada um, pois o contexto social americano é um e o brasileiro é outro. O vídeo de Chimamanda Ngozi Adichie ganhou muitas e muitas visualizações, as quais, acredito eu, ainda irão aumentar vendas de seus livros, propagando não apenas o feminismo, mas o feminismo negro de uma nigeriana em constante contato com a cultura mais que branca dos EUA. No fim, entre possíveis erros e acertos, o saldo da coragem de Beyoncé e seu feminismo polido para atingir as massas é totalmente positivo!

“***Flawless” – dirigido por Jake Nava