Review: O abandono da felicidade em “Exile”, o novo e perfeito álbum do duo Hurts!

3 anos separam os dois álbuns do duo mais lindo, gato, delícia, synthpop, magya e poder que existe na face desse planetinha azul, o H...

3 anos separam os dois álbuns do duo mais lindo, gato, delícia, synthpop, magya e poder que existe na face desse planetinha azul, o Hurts. “Happiness”, o debut album, veio em 2010, envolto numa sonoridade absurdamente incrível e única, que fez o duo, formado pelo cantor Theo Hutchcraft e pelo tecladista Adam Anderson – já disse que eles são lindos? – ganhar visibilidade, principalmente na Europa, entrando no top 20 de vários países, incluindo o #4 no UK. Para quem já ouviu alguma música da dupla – se você não, essa é sua chance –, sabe que o conceito de “felicidade” dos caras é meio diferente (algo mais “oi, sou Lana Del Rey, estou feliz, venha cantar Lolita comigo”). Não que eles sejam tão melancólicos quanto a musa dos lábios de 1 kg (cada) - às vezes são até mais, é que a pegada sombria envolta em sintetizadores marca.


Agora, deixando a felicidade de lado, a dupla está exilada. Toda a animação de faixas como Silver Lining, Wonderful Life, Better Than Love, que serviam até para as pistas de dança, não se encontra em “Exile”. Não que ele seja totalmente down, só que, até as faixas animadas tem letras pesadas e até mórbidas. Dá para notar pela capa. A de “Happiness” é branca, luminosa, com os rapazes bem vistos. Já a de “Exile” é preta, escura, onde mal vemos os olhos dos dois. Esse contraste feito de maneira simples traduz a troca de conceito, mas, claro, Hurts ainda é Hurts. Vamos à análise faixa a faixa?

1. Exile
O álbum é aberto com a faixa título. Ela, ainda com resquícios de “Happiness”, é animada, colocando o álbum lá em cima. Suas batidas poderosas e sintetizadores no refrão, marca da dupla, servem magistralmente como intro. E eles anunciam: “Isso é o exílio”.

2. Miracle
A música mais incrível do ano até agora para o escritor que vos fala. O milagre de Hurts é uma orquestra fenomenal que esconde a melancolia da letra. “Se você olhar meu coração você vai encontrar nada de luz, nada de vida, nenhuma saída à vista”. Mágica, perfeita, absurda, o lead single do álbum é a evocação de todos os sentimentos e tem que, obrigatoriamente, ser cantada em plenos pulmões.


3. Sandman
Apesar de ter a letra repetitiva, Sandman continua a epopeia de Miracle, sendo outra faixa impactante com aqueles assovios ao fundo. O Homem de Areia, para quem não sabe, é uma criatura que representa os sonhos, um ser antropomórfico que mantém coeso o universo físico e todos os seres vivos. Na música, os rapazes estão esperando a entidade colocá-los para dormir e não trazê-los de volta à vida, mas ele nunca ouve o chamado.

4. Blind
Com a letra à la Adele, Blind fala de separação, mas de forma extremamente pesada. Na letra, o cara prefere ter os olhos cortados a vê a amada com outra pessoa. Bizarro, porém belíssimo. E o refrão, com uma só frase, é destruidor. Ah, e é o segundo single do álbum, yay!


5. Only You
Não cansando de serem lindos, a dupla agora leva o amor num nível menos mórbido, mas ainda redentor. “Não importa onde esteja eu sempre vou pensar em você, porque só você pode me libertar”. Que instrumental é esse, minha gente? Lindo, lindo, lindo.

6. The Road
A faixa que serviu como prelúdio do álbum é o resumo de todo o conceito. Épica, traduz tudo que o Hurts pode representar no mundo da música. Começa lenta, calma, quase um sussurro. “Querida, qual seu nome? Você pode me ouvir?”. Depois, lá no refrão, explode numa letra e melodia de matar. A letra lembra Dark Paradise de Lana Del Rey, ambas tratam de morte e o desejo de estar com o outro que já partiu. Porque quando eles fecham seus olhos, o outro está lá. Abaixo o sensacional vídeo de apresentação do álbum com parte de The Road.


7. Cupid
Saindo do fundo do poço que o álbum estava entrado, Cupid, a menor e mais simples faixa do álbum, dá uma animada sensacional, quase um choque. Aqui o moço está apaixonado, como sempre, mas pelo próprio Cupido, e ele não o deixará ir embora nunca.

8. Mercy
Toda trabalhada nos sintetizadores, essa balada elétrica é simples, mas alucinante. Não devemos chorar agora, ainda há muita dor por vir, e alimentar o ódio no eco do silêncio nos faz tremer e pedir m-e-r-c-y. Uy.

9. The Crow
A mais lenta faixa do álbum marca a passagem dos álbuns do duo, da luz para a escuridão. Aqui, a amada abre as asas quando vai voar. Achamos que ela é algum pássaro mais leve (pensei que seria uma pomba, por exemplo), porém ela é um corvo, que de tão negro tampa o sol. Não julgaria você caso passasse a música na sua playlist, ela é realmente muito lenta e grande (mais de cinco minutos), mas dê uma chance a ela, que é muito bonita.

10. Somebody To Die For
Faixa que está junta com Miracle no hall das mais belas do ano. Não existem palavras na língua humana que expliquem a perfeição dessa música, que não precisou de nada exagerado para ser grandiosa. Somebody To Die For é quando o amor encontra a música certa.

11. The Rope
Não sei bem o motivo, mas o início me lembrou Linkin Park. Okay, informação irrelevante. A música é uma versão animada sobre a morte, representada pela corda do título. É uma redenção, todavia até quando seu coração não doer, seus pés não se levantem do chão, você deve dar o melhor de si. ~Letramente falando, é uma Wonderful Life 2.0.

12. Help
Sabe aquela música que você fecha os olhos e passa um filme em sua cabeça? Pois é, a da vez é Help. A faixa é quase um mini filme, com um coro no final para se ouvir de joelhos e uma guitarra que chora até nos acabar. Cheia de floreiros dramáticos, Help é antológica.

13. Heaven
Não sei se foi intencional ou não, mas Heaven me lembra uma passagem da Bíblia, onde Jesus é tentado pelo Diabo (não sou religioso, então se não é exatamente isso que mostra na passagem me perdoem, risos). Aqui, a amada é o Diabo, que tenta nosso vocalista vagante e com o coração vazio, e ele pergunta “isso é o céu ou o inferno?”. Tiro certeiro.

14. Guilt
Hurts novamente fecha o álbum serenamente (“Happiness” foi fechado com a lenta The Water), e é talvez a faixa mais pessoal, mais íntima. Quase um canto de ninar que nos cobre com sutileza depois de toda a carga emocional nas treze faixas anteriores.


Resumindo: Não sou grande conhecedor de música (e nem finjo ser), não tenho aquele "bom ouvido" para notar todas as camadas e nuances de uma canção. Mas para apreciar um álbum é preciso tudo isso mesmo? Depois do "Happiness", parecia que o duo não conseguiria trazer algo tão fenomenal quanto, mas felizmente nos enganamos. "Exile" é uma ode à arte, sua musa inspiradora. É lindo, especial, profundo, pura poesia pós-apocalíptica que, assim como o mundo exilado dos dois, sangra masoquistamente. Claro, como todo valor cultural existente, ele pode não tocar você tanto quanto me tocou, porém "Exile", cheio de hinos, eleva o ouvinte a um novo nível, e é essa a função mor da música, que hurts magicamente.