Crítica: "Thelma" e o cinema de super-herói lotado de metáforas (e lesbianidade)

O representante da Noruega ao Oscar 2018 é quase um "X-Men" mais realístico e menos fantasioso

Quando você for contar para os seus filhos (isso se você não já os tiver) sobre como era o cinema "no seu tempo", provavelmente você falará que viveu a era dos super-heróis na telona. Sem entrar nos méritos desse sub-gênero, desde o sucesso de "Homem-Aranha" em 2002, os quadrinhos de mutantes, alienígenas e dotados de poderes especiais invadiram o cinema, rendendo bilheterias cada vez maiores e sequências que criam todo um universo próprio.

"Thelma", o representante norueguês ao Oscar 2018, também pega carona nessa vertente, porém, longe de Hollywood, subverte a narrativa já óbvia dos longas heroicos, criando um material menos comercial e mais subjetivo, tirando a pipoca e colocando simbolismos, o que é sempre bom, afinal, dá uma diferenciada dentro de um modelo cada vez mais batido.

A obra conta a história de Thelma (Eili Harboe), uma estudante que sai do interior para a capital quando passa na faculdade. Inserida num contexto contrastante, a jovem ultrarreligiosa, virgem e sem tanto preparo social se vê apaixonada por outra garota, Anja (Kaya Wilkins) - o nome sugestivo, para o português, soa correto. Essa relação vai desencadear uma série de mudanças na vida de Thelma, que descobre lados desconhecidos de sua própria natureza.


Se você for da roda cinéfila, essa premissa irá te lembrar de outro filme: "Grave", da francesa Julia Ducournau, sobre uma garota com pais bastante repressores que, ao entrar na faculdade e comer carne pela primeira vez, descobre ser uma canibal. Curioso termos dois filmes tão próximos em lançamento e premissa, mesmo cada um indo para caminhos diferentes - e com "Grave" sendo um pouco superior.

Mesmo à distância, os pais de Thelma controlam sua vida via telefone. Eles sabem todos os horários da filha, que não consegue nem mentir sobre cada passo do seu dia. Quando conta sobre sua infância, ela narra como o pai segurava sua mão sobre o fogo e dizia que assim era o inferno, eternamente, caso ela pecasse. Bebida é proibido, sexo então, fora de questão.


Aí ela conhece Anja. Durante o encontro, uma forte atração surge por parte de Thelma, que começa a sofrer um ataque epilético, enquanto animais ao redor agem estranhamente, com pássaros se atirando nas janelas e morrendo. Seus sonhos agora são preenchidos por uma cobra negra que rasteja determinadamente até sua cama. Esses eventos são prelúdios do desabrochar dos seus poderes paranormais.

Longe dos pais, no meio da nova vida completamente diferente, a garota cai nas graças dos médicos e passa por diversos exames para tentar encontrar a causa dos ataques. Remetendo ao clássico "O Exorcista" (1973), Thelma é submetida a torturantes procedimentos, assim como Linda Blair sofre nas mãos dos médicos em busca de algo que a ciência não explica. Porém, cada vez mais desesperada pelos estranhos acontecimentos em sua volta, a protagonista aceita percorrer esse caminho - sem contar para seus pais.


Mesmo sem encontrar uma justifica cientificamente plausível para sua condição, no fundo Thelma sabe o que acarretou tudo aquilo: Anja. Em suas fantasias mais obscuras, a garota deixa-se levar pelo prazer de ficar com a amiga, como na icônica cena em que ela engole a cobra de seus sonhos, numa clara referência ao pecado original, com Thelma aceitando a tentação. Mas ela ora fervorosamente para que deus tire esses pensamentos pecaminosos de sua cabeça.

Thelma, no fim das contas, é quase uma Carrie moderna - de "Carrie: A Estranha" (1976), obra-prima de Brian De Palma. Seus poderes nunca ficam absolutamente claros - assim como diversos pontos do longa. Joachim Trier, diretor e roteirista da obra, faz com que o espectador use de sua subjetividade para dar sentido às bizarrices da tela, sem soluções fáceis ou explicações tão explícitas.


“Thelma” é, sim, mais uma alegoria à repressão feminina – assim como “Grave”. A garota, presa dentro de uma redoma de vidro pela família, encontra os prazeres da vida – antes pecados – quando sai de sua gaiola, o que é representado pelos pássaros durante o longa. Em seu primeiro ataque, um pássaro voa diretamente para uma janela, como Thelma tentando fugir de sua prisão, para, só no final, conseguir vomitar a ave que vivia presa dentro de si.

Uma das vertentes mais interessantes no longa é o jogo nada simples entre “mocinhos” e “vilões”. Por se passar através do ponto de vista de Thelma, somos imediatamente colocados numa posição favorável à ela, e, consequentemente, contrária aos pais, todavia, vários elementos são dados à conta gotas através de flashbacks, que mostram que os pais podem não estar tão errados assim.


Não existe, aqui, um binarismo fácil, uma saída óbvia do que é certo ou errado. É fato que o fanatismo religioso que acorrenta Thelma é algo ruim, no entanto, sem conseguir controlar seus poderes, a garota causa dados irremediáveis quando extrapolados. Dentro dos acontecimentos, o que você faria se fosse os pais? Como lidar com algo humanamente inexplicável?

“Thelma” atinge nada longe o cinema de super-herói, sendo mais realístico e menos fantástico – toda a construção da personagem em nada se diferencia das construções dos mutantes na franquia “X-Men” -, entretanto, é inegável o requinte narrativo e técnico da película, usando metáforas e alegorias para deixar a cabeça do público voar. Com uma das melhores montagens do ano, “Thelma” consegue dialogar com diversas referências clássicas e atuais, além de instigar, provocar e, à maneira norueguesa, entreter.

Crítica: "Thelma" e o cinema de super-herói lotado de metáforas (e lesbianidade) Crítica: "Thelma" e o cinema de super-herói lotado de metáforas (e lesbianidade) Reviewed by Gustavo Hackaq on 12/11/2017 05:33:00 PM Rating: 5