Crítica: "A Visita" marca a tentativa de retorno de M. Night no cinema com terror e comédia que não funcionam

"A Visita" chega à Netflix e marca o ressurgimento do diretor de "O Sexto Sentido" (ou pelo menos sua tentativa), caindo no found footage e apelações óbvias

Já virou quase um meme no mundo cinéfilo o aguardado “retorno” de M. Night Shyamalan. Não o retorno aos trabalhos com a sétima arte, e sim aos bons trabalhos. De 1999 a 2004, o diretor lançou sucessos atrás de sucessos, para depois enveredar numa sucessão de desastres. Em 2017 tivemos o segundo “agora vai” do indiano com “Fragmentado”, e, apesar de ter convencido boa parte do público e crítica, é só mais um esquecível exemplar de uma filmografia outrora tão incrível.

Mas o primeiro “é agora” de M. Night foi com “A Visita” (2015), que retrata a vida de Rebecca (Olivia DeJonge) e Tyler (Ed Oxenbould), dois adolescentes que passarão uma semana na casa dos avós. A questão é que eles nunca conheceram os dois pois sua mãe, Paula (Kathryn Hahn), está há 15 anos brigada com os pais. Rebecca, entusiasta da sétima arte, decide fazer um documentário retratando a semana, porém o comportamento dos idosos vai ficando cada vez mais estranho, fazendo com que as crianças temam por suas seguranças.


O primeiro baque que temos com o filme é a forma que ele foi filmado, no formato found footage, aqueles filmes montados com os próprios atores filmando e feito como se fosse um documentário real. A técnica foi introduzida por “Holocausto Canibal” em 1980, e popularizada por “A Bruxa de Blair” em 1999. De lá pra cá, o uso de tornou cada vez maior – “Atividade Paranormal” (2007), “REC” (2007), “O Último Exorcismo” (2010), “Assim Na Terra Como No inferno” (2014), etc – e, consequentemente, mais batido e reciclado. “A Visita” não escapa de nenhum dos clichês que o formato introduziu, como momentos oportunos aonde a filmagem vai até locais chaves sem muita explicação ou até o patético susto quando o personagem salta em frente à câmera.

O primeiro desafio encontrado pelo roteiro é construir uma justificativa forte e plausível para o uso do found footage. No horror, há diversas situações que largaríamos a câmera e sairíamos correndo, enquanto os personagens continuam filmando tudo sem propósito, o que claramente aniquila a veracidade do filme – isso sem mencionar as baterias infinitas dos eletrônicos do filme, bem distantes da nossa realidade escrava de carregadores. A justificativa de “A Visita” convence, mas a técnica poderia facilmente ter sido deixada de lado. Isso só mostra o quão desesperado está M. Night ao ceder para uma jogada tão banal e amplamente comercial, já que o filme seria bem melhor se feito convencionalmente. Está fácil para ninguém.


Um dos principais erros em filmes found footage é quando sua montagem esquece da própria linguagem. Se ele é filmado puramente pelos atores, tudo na tela é diegético, ou seja, tudo acontece na realidade do filme. Todas as imagens foram filmadas por eles e todos os sons são “reais”. Muitos desses filmes colocam trilha sonora por cima da fita, o que claramente quebra a linguagem do longa, ou até mesmo cenas que claramente não foram filmadas pelos personagens, como as imagens de descanso, aqueles momentos do filme onde vemos o céu, plantas ou detalhes do cenário para dar “respiro” ao ritmo. Num filme “convencional” isso é normal, mas num “documentário” como o de “A Visita”, onde tudo é feito de forma básica e sem grandes cuidados, planos alinhados e estáticos são quebras do próprio estilo escolhido - além de demonstrar um descuido com a própria linguagem, erro primário que não poderia ter acontecido com um cineasta tão experiente.

O encontro dos jovens com os avós é o choque de duas gerações. Pela delicadeza da situação, todos os envolvidos tentam manter a simpatia e o clima harmônico, mesmo que as crianças sejam a representação da briga com a mãe. Doris (Deanna Dunagan), a “Nana”, é a típica vovó de propaganda de margarina: vive para cuidar da casa e ama cozinhar as maiores gostosuras para os netos. John (Peter McRobbie), o “Papa”, mostra sempre grande intimidade e afeto pela esposa. É o casal e velhinhos perfeitos. Mas na casa há uma regra: cama às 21:30h. As crianças claramente acham aquilo um tédio, e decidem sair do quarto depois do horário, quando se deparam com cenas aterradoras da avó.


Os avós possuem na ponta da língua explicações para tudo o que há de estranho na casa. Dormem cedo porque eles são velhos. Não podem ir ao porão porque tem mofo. O vovô tranca celeiro porque ele tem incontinência. A vovó vomita pela casa à noite porque está doente do estômago. É tudo tão absurdamente lógico que deixa o roteiro com tom de muitas coincidências juntas. Claro, esse feito é óbvio para nós, já que sempre sabemos que de fato há algo errado na situação, mas soa bobo demais ver as crianças caindo em todo o papo dos avós.

M. Night, que além de dirigir “A Visita”, também o roteirizou, decidiu dar um tom de comédia para o longa, o que acabou por destruir sua solidez. Mesmo vendido com “thriller”, como seu cartaz, trailer e toda mercadoria promocional informa, a veia cômica está presente em diversos momentos, caindo como um tiro no pé no desenvolvimento que cambaleia entre o terror e a comédia, sem nunca assustar ou fazer rir, o que dita o fracasso. Mas se há uma sacada interessante para amantes de cultura pop é o modo como Tyler troca palavrões por nomes de cantoras.


Enquanto Rebecca é centrada e séria, Tyler é o alívio cômico do filme, cheio de manha e versos rap para toda e qualquer situação (que são as verdadeiras partes assustadoras do filme). Os dois são mortalmente sem charme e nunca conseguem passar o mínimo de afeição para o espectador, que acaba não se importando para o destino de ambos – e isso não se deve apenas a suas pobres atuações, mas também ao roteiro esquemático e previsível do diretor, que não nos poupa de problemas pessoais dos dois para justificar no final algumas cenas para dar tensão – como a germofobia do garoto e o medo da menina em se olhar no espelho.

Como esperávamos, o final surpresa de “A Visita” existe, e, apesar de ser interessante num primeiro momento, é fraco dentro do todo. A banalidade de toda a expectativa pela solução é piorada pela forma que diretor resolveu dar fim ao filme. É água com açúcar, é sem impacto, sem coração, sem cérebro, ou seja, sem vida, o que reflete perfeitamente a obra como um todo. Soa alarmante ver um diretor que fez obras tão incríveis entregar em sequência filmes fracos e que, com exceção das cifras em bilheteria, estão pouco a pouco acabando com a boa imagem construída com afinco na década passada.

“A Visita” erra como comédia, erra como terror e erra como Cinema em sua simplicidade. Mais um found footage genérico e óbvio, daqueles feitos por diretores iniciantes que estão loucos para chamar um pouco de atenção em troca de alguns trocados e, quem sabe no futuro, conseguir realizar bons filmes. Mas não estamos falando de um diretor iniciante, pelo extremo contrário. “Sexto Sentido” é aquele filme com tapete vermelho na estreia. “A Visita” é o DVD que fica no canto mais escuro da locadora da esquina. M. Night Shyamalan está nadando no fundo do poço que ele próprio cavou, mas que continue tentando - ainda temos esperança que aquele cineasta tão bom ainda está enterrado aí dentro.

A melhor definição de “A Visita” é: Katy Perry!