Crítica: na nossa cultura da violência, uma mentira devasta a todos no desconfortável "A Caça"

Em tempos de euforia social, "A Caça" é um lembrete urgente sobre como não podemos trazer justiça com as próprias mãos

Estamos vivendo no meio de um movimento de transformação social que tem tudo para ser histórico. Desde as denúncias de abuso sexual contra Harvey Weinstein, um dos maiores nomes de Hollywood, começaram a sair, mais de 80 mulheres (!) vieram a público relatar casos de condutas impróprias e estupro pelo cineasta. Com a hashtag #MeToo (“eu também”), milhões de pessoas ao redor do globo encontraram coragem para relatar seus próprios abusos, um crime ainda tão silenciado e de difícil discussão.

Mesmo com a noção do quão absurdo é um abuso sexual, não faltam pessoas, homens em sua maioria, em não só cometer como apoiar. Mas esta crítica não vem comentar o acontecimento, e sim discorrer sobre o filme “A Caça”, de Thomas Vinterberg. Lucas (Mads Mikkelsen) é um professor de jardim de infância divorciado que tenta manter uma relação saudável com a ex-esposa que o repele. Ao mesmo tempo, vive feliz em seu vilarejo dinamarquês com seus amáveis alunos. Klara (Annika Wedderkopp) é, além de uma das alunas, filha do seu melhor amigo, Theo (Thomas Bo Larsen). Cega por uma paixonite infantil, a garotinha tenta conseguir o inapropriado amor do professor, que claramente recusa. Como vingança, a menina fala para a diretora da escola que Lucas mostrou seu órgão sexual para ela, o que desencadeia uma série de tragédias na vida de todos.

Em primeiro lugar é necessário deixar um ponto claro. O filme trata-se de uma exceção: a maioria das acusações de abuso sexual e pedofilia é verdadeira. Em momento algum “A Caça” deseja mostrar mulheres como mentirosas em relação à essas graves acusações, ou relativizar esse ou qualquer tipo de crime – seu objetivo é explorar o que acontece após denúncias como essa na sociedade em geral, sejam essas denúncias verdadeiras ou não. Em caso de denúncia, a voz da mulher deve ser sempre posta como prioridade. Todo o longa é não apenas um estudo de personagem, mas principalmente um estudo de situação.


O engenhoso roteiro de Vinterberg e Tobias Lindholm constrói uma situação perfeita para demoli-la pouco a pouco. Lucas é uma pessoa retraída e que só se sente à vontade ao lado das crianças. Ele brinca, educa e até leva ao banheiro os pupilos. Um verdadeiro moço-modelo, o homem aceita quase tudo ordenado sem pestanejar, desde o “Não me ligue mais” da ex-esposa até o “Vá lavar as louças” da namorada. Sua proximidade com as crianças e certa frieza com os adultos são armadilha perfeita para quando a situação explodir.

Do lado de Klara, a garota sofre um dos impactos do machismo nosso de cada dia. A ideia de acusar o professor com algo tão específico partiu de um momento onde o irmão mais velho e um amigo mostram uma foto pornográfica para a menina, que olha desconcertantemente. Para os garotos, a “brincadeira” é perfeitamente normal. Eles possuem tanta certeza de que nada acontecerá ao mostrar um órgão fálico duro para uma criança de cinco anos que saem aos risos da cena. Foi só unir este caso com a raiva pelo professor e voilà. O caos estava instaurado.

Durante toda a projeção a inocência do professor é evidente, mas só nós, e ele, temos certeza disso. O longa nos torna espectadores-cúmplices completamente passivos diante da cadeia de horrores que desaba na cabeça de Lucas, e é exatamente esse o viés mais poderoso e crítico da fita. O primeiro passo da diretora, a única pessoa a saber da acusação até ali, é falar para a mãe da garota. Depois, uma espécie de assistente social chega à escola para interrogar Klara. Num completo desserviço, o homem coloca palavras na boca da menina para arrancar de qualquer forma uma confissão. Todos estão tão certos de que ela fala a verdade que vão pressioná-la até ouvirem o que querem.


O principal argumento da confiança para com Klara é “criança não mente”, o que é um completo absurdo. Mas aqui Vinterberg se utiliza de um conceito social poderosíssimo que impera sem que percebamos: crianças é um dos grupos que nós automaticamente vamos julgar como inocentes. Eles não seriam capazes de cometer algo errado, certo? É fato que a menina não tem real consciência do que fez, porém todos os adultos possuem uma convicção divina de que o que ela diz é verdadeiro e Lucas deve ser expulso do convívio social. Ele é impedido de entrar na escola, o que é um feito aceitável, afinal, uma acusação como essa jamais pode ser tratada com leviandade, porém ele é impedido até mesmo de entrar num supermercado, antes de julgamento (jurídico) ou qualquer ordem de autoridades sobre o caso.

A histeria da massa vai aumentando até aparecerem supostos outros casos de abusos cometidos pelo professor, pois outras crianças apresentavam sintomas aparentemente irrefutáveis de abusos, como “pesadelos” e “xixi na cama”. Até descrições do local desses abusos são feitas, o porão da casa de Lucas, mas aqui habita a chave de tudo: a casa de Lucas não possui porão.

Inocentado, o professor tenta voltar à sua rotina, mesmo sem o emprego, todavia, apesar de ser judicialmente inocente, ele socialmente é culpado. As pessoas ainda o julgam como doente e um monstro. Os abusos da turba raivosa partem para situações sérias: Lucas é covardemente espancado, tem a casa depredada, quase morre com uma pedrada e tem sua cadela morta. Os justiceiros estão à solta e querem sua cabeça.

Como sendo a exceção dos casos de abuso sexual/pedofilia, “A Caça” não busca desestruturar essas acusações, e sim ver o outro lado da moeda: e quando um acusado é inocente e tem sua vida automaticamente sentenciada? E podemos extrapolar para qualquer crime ou até mesmo conduta vista como errada. Como temos a privilegiada visão da inocência de Lucas, somos jogados numa montanha-russa íngreme de emoções: aflição, medo, angústia, ansiedade, raiva e dor pela injustiça que o protagonista passa. Quando percebemos, estamos com ódio da garotinha, que não tinha noção do que falava.


E é aqui que o filme bate. Não devemos jamais nos deixar levar pelas emoções numa situação crítica como essa. As pessoas no vilarejo acataram de imediato a culpa de Lucas e expurgaram seus ódios no alvo fácil, sem nem ao menos sentar para ouvir o que ele tinha a dizer - chega a ser irritante a forma como ele não é ouvido. Proteger a pessoa que acusa, no caso, Klara, é importante, mas silenciar o acusado em nome de uma certeza cega, nublando o julgamento racional, é quase sentença de morte. No entanto o que nós faríamos ali, no meio da situação? Se acontecesse perto de nós? E se Klara fosse nossa filha? São dilemas aparentemente impossíveis de responder com clareza.

E o que Lucas poderia fazer? Todos estão ali certos de sua culpa. O homem não tem mais emprego e provavelmente jamais conseguirá um novamente. Não pode andar na rua sem olhares de reprovação e apanha ao tentar comprar uma costela de porco no açougue. Ele é marginalizado de todas as formas possíveis, e vê, impotente, sua vida ir pelo ralo por algo que não fez. A mentira aqui se espalha como uma bactéria, onde é Lucas o que mais sofre dos seus danos.

Isso nos remete ao caso Escola Base, aqui mesmo no Brasil, em São Paulo. Em 1994, os proprietários, o motorista, uma professora e seu esposo da escola em questão foram acusados de abuso sexual de alunos. A imprensa imediatamente os colocou como culpados, mesmo sem provas, graças a uma investigação “incompetente”. O país inteiro estava horrorizado com a “escolinha do sexo”, e todos foram jogados na fogueira pela opinião pública: a diretora foi torturada, sua casa depredada e a vida de todos abalada permanentemente. No fim das contas, todos eram inocentes.


São essas algumas das sequelas em casos onde os acusados são inocentes, iguais Lucas. O filme mostra uma situação fictícia, mas profundamente plausível – o caso Escola Base está aí para provar. Vivemos numa cultura da violência enraizada, onde todos estamos armados com pedras prontas para atirar no primeiro alvo que aparecer e iniciar uma caça às bruxas em nome da justiça com as próprias mãos, ao invés de deixar entidades responsáveis lidarem com o problema de forma racional – sem entrar nos méritos dessas entidades.

Somos todos seres humanos e carregados de emoções muitas vezes difíceis de lidar, mas um inocente ser crucificado é uma dor inimaginável. Gritar sua revolta é parte imprescindível do processo de desconstrução do mal em específico, tanto no caso do filme como em casos reais como o que aconteceu no Rio (só um exemplo dos incontáveis). O que não devemos é ser algozes e paladinos da justiça com carta-branca para violentar e até matar alguém. Isso só desencadeia em mais violência e barbárie.

“A Caça” é a união irretocável de todos os elementos que fazem o cinema ser uma arte tão devastadora. Mikkelsen (o Dr. Hannibal Lecter da série “Hannibal”), numa atuação contida, mas poderosíssima, desenvolve um personagem impressionante, tridimensional e de fácil empatia, que lhe rendeu o prêmio de “Melhor Ator” no Festival de Cannes 2012. Vinterberg, pai do Dogdma 95 (1), usa alguns dos elementos crus do movimento para deixar ainda mais documental seu relato, o que só destila ainda mais o turbilhão de sensações regurgitadas na tela. “A Caça” é uma ode ao desconforto, que mexe com as certezas e as dúvidas do espectador – se essa não for uma das mais impressionantes funções do cinema, não sei o que é.

Obs.: Em casos de acusação de abusos sexuais, físicos e/ou psicológicos, sempre ouça a vítima. Não relativize ou tente buscar justificativas para o caso. Denuncie e ajude quem denuncia.

(1) Movimento cinematográfico criado na Dinamarca pelos cineastas Thomas Vinterberg e Lars Von Trier. Preza por um cinema mais realista e menos comercial, possuindo diversas regras, chamadas de "voto de castidade", como a proibição de luzes artificiais, deslocamentos temporais e geográficos, qualquer uso de câmera além da câmera de mão e até o nome do diretor nos créditos. Para mais informações, visite a página do movimento (em inglês).