“Atlanta” é um retrato real da juventude negra americana cheia de sonhos

Comédia da FX merece os diversos prêmios que ganhou este ano.

De vez em quando somos agraciados com séries extremamente originais e deliciosas, que fogem do que a televisão normalmente oferece ao público, principalmente nas comédias, comumente fáceis e esquecíveis, mas com “Atlanta” o canal FX dá o espaço necessário para uma produção ousada como essa nascer. Estrelada por Donald Glover, — também conhecido como Childish Gambino, pseudônimo musical que tem o hit “Redbone” — a série tem na direção e roteirização também próprio autor e outros profissionais negros, e tem a intenção de mostrar os dilemas da juventude negra, sob uma perspectiva própria, o que torna o show incrível. 

Earn (Donald Glover) é um jovem que abandonou Princeton (sem dar muitas explicações) e agora está entre a busca pelo sonho de fazer algo importante com sua vida e a necessidade de se manter e criar uma filha que teve com a ex-namorada Vanessa (Zazie Beetz), que por igual quer crescer na vida mas encontra muitos obstáculos. Zazie tem uma belíssima interpretação, e vai ganhando destaque ao longo dos episódios, sendo um ótimo referencial de mulher jovem, pobre e negra mas cheia de determinação e dúvidas. 


Sem grana, morando de favor com Vanessa, Earn se junta a seu primo Miles a.k.a Paper Boi (Brian Tyree Henry), rapper em ascensão, servindo como empresário do artista que, ao longo da série, se mete em muitas enrascadas, como dar um tiro em um cara após uma confusão ou bater em Justin Bieber (outro ponto alto da temporada). Darius (Lakeith Stanfield), amigo de ambos, faz o “piradinho” da turma, num papel ótimo e de destaque. Uma das melhores coisas na série é mostrar a complexidade da comunidade negra, que no geral possui papéis estereotipados. 

Essa ideia que o cidadão branco comum americano tem sobre os negros é satirizada no programa, como no 9º episódio “Juneteenth”, onde o anfitrião da festa, um homem branco de meia idade, quer ditar o que é ou não cultura negra, e que todos os negros deveriam “voltar a sua terra natal para conhecer suas raízes”. É algo comum na cultura ocidental e principalmente norte-americana achar que os negros ainda são africanos e possuem alguma conexão com a África. Se quiserem ir, ótimo, mas a terra natal deles é onde nasceram e não de onde vieram seus ancestrais. Nesse mesmo episódio, o anfitrião tem o álbum “Awaken, my love!”, do pseudônimo de Donald Glover, bem posicionado em sua prateleira. “Atlanta” é cheia de referências.

O humor da série vem justamente dessas cenas comuns em uma sociedade historicamente racista, e apenas quem tiver muita empatia não sendo negro é que considerará “Atlanta” um humor. Para os que olham de passagem e que não possuem um senso crítico, talvez o programa seja na realidade um drama. É uma mistura dos dois, é certo, mas diferentes olhares perceberão em “Atlanta” tendências de determinado gênero.

Comédia e assuntos importantes se misturam, e constroem uma narrativa nova, se passando justamente em uma cidade que pertence a um dos últimos estados a abolir a escravidão, a Géorgia – o tom opressor do sul está presente o tempo todo. Os problemas dentro da própria comunidade são discutidos ao longo dos 10 episódios, como a violência e o alto índice de assassinatos de homens negros por outros homens negros, algo pouco falado em tempos de #BlackLivesMatter e violência policial, mas uma constante na vida em periferias. 

O sétimo episódio é o ápice da genialidade do show: uma entrevista de Paper Boi e uma ativista dos direitos trans. O entrevistador questiona o tempo todo os tweets de Paper Boi sobre Caitlyn Jenner, mulher transexual e pai de Kylie Jenner e Kendall Jenner. O rapper responde, então, que tem o direito de não querer transar com Caitlyn, e que os problemas dela são dela, e não tem nada a ver com ele. Em algum momento ele e a ativista presente concordam, e o apresentador começa a buscar outras acusações à Paper Boi, uma vez que um rapper só pode interpretar o papel de um gangster mau, e não alguém cujas ideias façam sentido em seu meio e mereçam, até certo ponto, serem respeitadas. 


De fato, “Atlanta” não chega a lugar nenhum em sua primeira temporada, mas não por falta de vontade ou talento. Sua missão se cumpre ao nos apresentar personagens bem construídos e divertidos, e dar tempo para que conheçamos todos. O show volta apenas em 2018, devido a compromissos de Glover com “Star Wars”, por isso se ainda não viu, aproveite devagarzinho, compreendendo as diversas referências e camadas que contém. Todos os prêmios, como os dois Globos de Ouro e o Emmy de melhor direção são merecidos, pois “Atlanta” é a uma joia rara da comédia. A série está disponível na Netflix.