Crítica: a parte mais assustadora de "A Morte Te Dá Parabéns" é seu machismo e falta de sororidade

Numa mistura de terror e comédia, essa fusão de "Pânico" com "Feitiço do Tempo" é um desserviço que nem ao menos diverte

Atenção: a crítica contém spoilers.

O mercado cinematográfico norte-americano é como qualquer loja de varejo que a gente conheça: ele se molda de acordo com as datas comemorativas ao decorrer do ano. Em outubro então temos lançamentos de filmes de terror com grande promoção para aproveitar o Halloween, afinal, nada como comemorar o dia das bruxas com um bom horror nos cinemas. A principal aposta de 2017 é "A Morte te dá Parabéns", que não só veio em outubro como estreou numa sexta-feira 13 na terra do Trump.

O longa conta a história de Tree (Jessica Rothe), uma universitária que morre no dia do seu aniversário. Porém, ao invés do pós-vida, a garota, imediatamente após o assassinato, cometido por um estranho mascarado, acorda no mesmo dia, revivendo tudo novamente. Ela então percebe que tem que evitar ser morta para quebrar o looping temporal e, claro, descobrir quem a mata todo dia.


A premissa e o estilo de "A Morte te dá Parabéns" remete a inúmeros filmes, então você já assistiu a esse antes. Nomes como "Pânico" (1996), "Feitiço do Tempo" (1993), "Crimes Temporais" (2007), "Eu Sei Quem Me Matou" (2007) e "Os Estranhos" (2008) rapidamente vêm à mente. Claro, "A Morte" é um slasher legítimo, com um psicopata mascarado perseguindo a protagonista loira sem piedade, com a adição de conceitos físicos no aparato temporal para tentar criar uma colcha de retalhos e sair da obviedade absoluta - algo que "Triângulo do Medo" (2009) realizou de forma anos-luz mais competente.

A máscara do assassino foi desenhada por Tony Gardner, o mesmo design que fez a "Ghostface", icônica máscara da franquia "Pânico". Apesar de não ser tão efetiva quanto, a "Babyface" de "A Morte" é um esforço interessante da produção, que, além de remeter aos clássicos vilões mascarados do gênero, pega carona na onda de bonecos assustadores do terror contemporâneo, encabeçado por "Brinquedo Assassino" (1988) e chegando até "Annabelle" (2014) e "Boneco do Mal" (2016). A mistura de infância com o macabro ainda consegue vender.


Tree vive numa república de meninas e, durante seu dia, vamos pouco a pouco conhecendo sua rotina e personalidade. Ela é uma autêntica patricinha, aquela personagem egocêntrica, que ignora desde colegas de universidade até seu pai, há horas esperando para o almoço de aniversário. Ao ganhar um cupcake de presente de Lori (Ruby Modine), sua colega de quarto, ela joga no lixo, e, entre aulas, tem um caso com um de seus professores, Gregory Butler (Charles Aitken), que é casado. Estamos a uma Lindsay Lohan de Tree ser uma Regina George.

Após ser morta pela primeira vez, Tree acorda novamente no quarto de Carter (Israel Broussard) e tudo se repete. Ela, achando que é um grande déjà-vu, segue seu dia sem tantas interferências, até ser morta novamente e tudo se repetir. Como o trabalho gira infinitamente ao redor desse círculo vicioso, há certo aborrecimento: na primeira repetição conseguimos ficar entretidos pela forma como a protagonista não percebe que há algo de errado; na segunda é legal vê-la ligando os fatos; na terceira em diante o molde já cansa. 


O que poderia habitar apenas no campo da familiaridade cai sem dó no clichê e na obviedade. Numa cena, após já sabermos os trajes e a máscara do assassino, aparece outro cara com a exata mesma roupa e máscara, para dar aquela confusão desnecessária e que em nada acrescenta. Em outro momento temos Tree fugindo do assassino quando é perseguida pela polícia. Ao invés de ficar aliviada, afinal, ela quase foi morta, desespera-se pela presença do policial (?), que, claro, é rapidamente morto pelo bandido, mesmo fim que ela terá.

Assim como passamos "Pânico" inteiro tentando descobrir quem é o assassino, Tree sai da posição de vítima passiva para caçar seu capataz. A síndrome de "quem matou Odete Roitman?" nos abate e ficamos juntando as peças do quebra-cabeça para saber quem está por trás da máscara de bebê. Há aquelas incertezas e reviravoltas, até que Tree descobre que Lori, sua amiga de quarto, é a assassina. E o motivo? A garota está com ciúmes da relação extraconjugal do professor com Tree.

Sim, ela quer matar a outra por causa de um homem. O macho em questão, casado, tem três mulheres ao seu redor: a esposa desconfiada, a aluna barra amante e Lori, querendo entrar nessa confusão. Até mesmo Tree fica perplexa ao saber que ela pode ser morta por causa de um homem, e lá vão as duas saírem no tapa. Por. Causa. De. Um. Homem. E isso não é mero detalhe: todo o filme é baseado em Lori matando Tree repetidamente, então sua motivação é o estopim de toda a trama, a base para que o filme exista.


É bem verdade que já fomos apresentados por motivos patéticos de motivações para vilões terror afora, porém, em pleno 2017, vermos um roteiro, escrito por um homem, é bom pontuar, colocando uma rivalidade entre mulheres por causa do macho dominante é para acabar com qualquer obra. Lori ainda fala que quer matar Tree não só porque ela pega o professor, mas também por ela ser uma "vadia". Sororidade para quê?

Ao mesmo tempo em que vai tentando quebrar a maldição do dia eterno, a protagonista vê como sua atitude está completamente errada, saindo da patricinha arrogante para uma humanização à jato - e só precisou morrer umas 10 vezes para isso. O final feliz após essa reabilitação comportamental está logo aí.

"A Morte te dá Parabéns" é um terrir - aquele terror que mistura comédia, todavia, quando não é nem ao menos divertido, não há muito o que salvar. O que poderia ser só mais um filme de terror ganha destaque negativo ao abraçar tão abertamente soluções machistas e que em nada dialogam com as discussões feministas modernas - cinema existe há mais de 100 anos e já passou da hora de entendermos que um filme é muito mais que mero entretenimento. Na nossa cultura do espetáculo, é inadmissível mercadorias como esse "A Morte te dá Parabéns" fazerem o desserviço que fazem. Aniversário pior que esse não há.