"Planeta dos Macacos: A Guerra" encerra a trilogia com maestria

Foi o final que a gente merecia.

Dizem que a vida imita a arte, mas há também momentos em que a arte imita a vida – e o cinema não é diferente disso. E não, não fala-se, aqui, de fatos históricos, situações cotidianas completamente plausíveis ou, até mesmo, (pelo menos não por ora) de uma avançadíssima tecnologia de CGI capaz de imitar com perfeição qualquer ser ou lugar. O cinema, muitas vezes, joga na nossa cara algo inerente à nossa condição humana, mas que não conseguimos enxergar. “Planeta dos Macacos: A Guerra”, assim como os outros filmes da franquia, traz isso não somente representado nos humanos, mas também, nos próprios símios. A grande moral deste longa, que encerra a trilogia que antecede a série original, é sobre como a linha entre o bem e o mal é tênue; sobre como a ideia de herói e vilão é apenas uma questão de ponto de vista. É um filme sobre empatia.

Vivendo naquele mundo pós-apocalíptico, César (Andy Serkis) lidera sua comunidade de macacos até que são surpreendidos por ataques de humanos que pretendem dizimá-los, o que ocasionou na morte de seu filho e sua esposa. Para proteger seu grupo, César trama uma missão para irem a um lugar seguro enquanto ele planeja se vingar do líder dos soldados, o Coronel (Woody Harrelson). E é justamente nas “cabeças” de ambos os lados, humanos e macacos, onde percebemos que existe sentido e razão nas motivações. Apesar de sermos facilmente convergidos para o lado de César, o ideal de sobrevivência do Coronel nos leva à questão de: "seríamos nós tão diferentes dele na mesma situação?". Enquanto, por exemplo, em "Planeta dos Macacos: A Origem", de 2011, a questão do bem e mal é colocada em extremos, temos, neste, a desconstrução desses padrões de personalidade.

Mais uma vez "Planeta dos Macacos" faz qualquer um perder o fôlego com sua tecnologia de captura de movimento empregada nas cenas. Andy Serkis, com seu espetáculo de expressões faciais – que faz você crer e descrer, ao mesmo tempo, que é um ser humano por trás do animal – não fica muito a frente de seus colegas de elenco Karin Konoval, Terry Notary, Michael Adamthwaite e Steve Zahn (Maurice, Rocket, Luca e Bad Ape, respectivamente). Numa soma de atuações excelentes, um bom roteiro, um CGI e mocap impecáveis, o resultado não poderia ser nada menos que personagens muito bem construídos e únicos, que fazem jus à grandiosidade da obra. Dos novatos, vale destacar o curioso Bad Ape, um ex-macaco de zoológico que traz um tom de melancolia e comicidade com seu jeito senil e inocente; Coronel, com um deboche sombrio, e Nova – esta, infelizmente, com um destaque negativo. 

O único ruído dentre os personagens é discreto, mas incomoda devido a algumas incoerências e clichês. Enquanto os outros são tão reais, Nova (Amiah Miller) apresenta uma inocência forçada, mesmo para uma criança. Além disso, em alguns momentos parece que houve a intenção de acelerar a ligação dela com sua nova família de símios e, por isso, deixaram alguns pontos à desejar. Seu pai (ou tutor) é morto por César e ela não se assusta ou hesita em se integrar aos macacos, mas chora pela morte de Luca, mesmo o conhecendo há poucos dias. Não é algo que, de fato, interfira na narrativa, mas é válido de se pontuar, já que o longa, no geral, parece evitar esses estereótipos.

O diretor Matt Reeves, assim como  Mark Bomback, Rick Jaffa, Amanda Silver, Michael Giacchino e Peter Chernin, sem dúvidas fechou com chave de ouro essa memorável trilogia. Com personagens, atuações, roteiro, trilha sonora, fotografia e, claro, efeitos especiais igualmente ótimos, o resultado não poderia ser outro além de um filme que mostra que a história dos macacos humanizados pode alcançar e agradar a todas as gerações. Sempre com fortes críticas sociais, Reeves e César podem ter a certeza de que seus legados irão permanecer.