Homens continuam a escrever personagens femininas e a ganhar prêmios com elas

Indicados nas categorias criativas do Emmy expõem machismo da indústria.

Esse ano três mulheres foram indicadas ao prêmio Emmy de Melhor Direção em Série Dramática: Reed Morano e Kate Dennis por “The Handmaid’s Tale” e Lesli Linka Glatter por “Homeland”. Desde 2010, não temos tantas mulheres na principal categoria de direção, e desde 1995 (Mimi Leder por “Plantão Médico”) uma mulher não ganha na categoria. Em 2017, as mulheres são favoritas ao prêmio, mas isso realmente representa um avanço?

A princípio esse dado pode parecer uma grande mudança para as mulheres como um todo e, em especial, para as que atuam ou querem atuar no meio audiovisual. Realmente é ótimo que meninas possam enxergar mulheres em cargos criativos e de liderança, inspirando-se a enfrentar barreiras nesse caminho. Contudo, há 22 anos uma mulher não ganha o Emmy de Melhor Direção e, olhando para as outras categorias, como Melhor Roteiro em Série Dramática, Melhor Direção em Série Cômica e Melhor Roteiro e Melhor Direção em minissérie, os homens continuam a dominar, e o pior – escrevendo personagens femininas.

“Feud: Bette e Joan”, da FX, série que explora a rixa entre as duas atrizes foi escrita, produzida e dirigida majoritariamente por homens.

Muitas das obras indicadas nas categorias acima contam com mulheres como protagonistas, é o caso de “Feud: Bette and Joan”, “Big Little Lies” e “Veep”, ou até mesmo como coadjuvantes, como é o caso de “Fargo” e “Master of None”, mas não são mulheres que constroem esses personagens e, em sua maioria, as dirigem. Homens continuam dominando a indústria, e pequenos avanços muitas vezes são recebidos com mais euforia do que deveriam, porque na verdade demonstram o abismo entre os gêneros no audiovisual. Além disso, produtores e showrunners, aqueles que de fato comandam a produção de uma série, são em sua maioria homens, e isso impacta diretamente na contratação de profissionais mulheres nos sets de gravação, sobretudo em posições de liderança, como diretoras e roteiristas. Só nessas posições que mulheres podem escrever e dirigir outras mulheres, deixando de lado assim personagens muitas vezes caricatas e longe da realidade. Mesmo quando são mulheres fortes e pouco “criticáveis”, é importante que elas mesmas falem sobre seus problemas em primeira pessoa, não?

“Orange Is The New Black” é um dos poucos exemplos de séries onde há muitas mulheres em cargos de liderança. 
É o caso de séries como “Orange Is The New Black” da Netflix, onde as produtoras são mulheres, e a maioria da direção e roteirização também é feita por mulheres, o que tornou a produção original do serviço uma referência em personagens femininas complexas e bem construídas. Não só tratar homens e mulheres como iguais nas séries, é necessário ações concretas para que ambos possam competir saudavelmente em seus ramos, e que as mulheres deixem de ser minoria na maioria das produções.

Vamos aguardar o Emmy 2017, que acontece no próximo mês, torcendo pelas profissionais concorrendo nas principais categorias, sem esquecer, é claro, de fazer nossa crítica à indústria atual, que não pode receber descanso da sociedade na pressão de tornar o meio mais igualitário.