Crítica: "Dunkirk" é um exercício tecnicamente impecável, mas sem drama e pessoas não-brancas

Novo filme de Christopher Nolan ("A Origem", "Interestelar") possui poder técnico impressionante, porém falha em entregar drama ao não desenvolver seus personagens

Todo lançamento de um filme de Christopher Nolan é um verdadeiro evento. O diretor conseguiu angariar um status invejável dentro de Hollywood e é um dos maiores expoentes do cinema comercial do mundo - tendo em vista que ele se encontra dentro do mais poderoso pólo de Cinema do planeta. Sua fama deu-se, principalmente, pela trilogia Batman ("Begins" em 2005, "O Cavaleiro das Trevas" em 2008 e "O Cavaleiro das Trevas Ressurge" em 2012).

Nesse meio tempo e após a conclusão da franquia, o diretor também lançou dois enormes nomes do cinema contemporâneo: "A Origem" em 2010 e "Interestelar" em 2014. Ambos sucessos de crítica, enormes bilheterias e Oscars em suas prateleiras (o primeiro levou "Melhor Fotografia", "Efeitos Visuais", "Mixagem de Som" e "Edição de Som", enquanto o segundo ganhou "Efeitos Visuais"). Não era pra menos que o novo longa de Nolan, "Dunkirk" seja recebido com tanto entusiasmo.


A obra se passa durante a Segunda Guerra Mundial, quando a operação Dunkirk retirou soldados Aliados das praias da cidade de mesmo nome, no norte da França. Filmes sobre a guerra, sejam abordando a guerra em si ou utilizando-a como plano de fundo, são feitos há muitas décadas, como "A Lista de Schindler" (1993), "O Pianista" (2002), "A Queda! As Últimas Horas de Hitler" (2004), "Casablanca" (1942), "Vá e Veja" (1985), "Apocalypse Now" (1979), "Glória Feita de Sangue" (1957), "O Resgato do Soldado Ryan" (1998), "O Filho de Saul" (2015), "Até o Último Homem" (2016), etc etc etc.

Filmes com esse plano de fundo sobre alguma guerra real ou se inserem como contextualizadores, como o caso de "O Filho de Saul", ou são verdadeiras aulas de história, como é o caso de "Dunkirk". O roteiro de Dolan usa o macete da tripla perspectiva: a história se passa no ar, na água e na terra. Cada um dos trechos da batalha possuem durações diferentes, explicitadas logo no início, para que, concomitantemente, se unam num mesmo final. A jogada não é novidade na cinematografia do diretor, que adora o "pra quê simplificar se eu posso complicar?" - vide o roteiro de "Amnésia" (2000) que conta o filme de trás pra frente e o de "A Origem", lotado de camadas.


Se por um lado essa narrativa tripla é uma jogada bastante ousada, por outro soa gratuito e até confuso. O segmento no ar, por exemplo, que se passa em 1h, é uma chatice sem fim, basicamente mostrando os pilotos tentando derrubar aviões inimigos e preocupados com o nível de gasolina. Enquanto o trecho da terra se passa durante uma semana, com pinceladas nos eventos mais importantes, o ar sobra espaço para o tédio pela repetição de si mesmo.

Outra ousadia abraçada por Nolan foi não ter nenhum personagem como o real protagonista do longa. Quem é a estrela principal do filme é a guerra. Isso soa bastante interessante - e de fato é -, porém, assim como a tríplice narrativa, há prós e contras aqui. A principal vantagem é que não há um "herói", aquele personagem que você sabe que vai salvar o dia e que, mesmo com todos os percalços, nada de mal vai acontecer com ele. Com exceção de Tommy (Fionn Whitehead), o mais próximo do protagonismo entre os atores, todos são peões da guerra - esta, traiçoeira, brinca com o destino de todos de forma perversa.


A desvantagem da batalha ter o maior brilho é que não há desenvolvimento para os personagens. Pegamos apenas um trecho de suas vidas, alguns, como os pilotos do segmento no ar, apenas 1h de suas existências, então é impossível você se apegar a qualquer um deles. Os peões são tão descartáveis para o espectador quanto para a guerra. Se você não se atém aos seres humanos presentes na tela, a que se apegar? A resposta poderia ser à batalha em si, o objetivo do longa, porém, demonstrando de forma bem básica, a Batalha de Dunkirk tem pouca relevância para nosso contexto - talvez para os ingleses, principais locutores dos acontecimentos, o filme deva ter maior importância.

"Dunkirk" falha em algo que é primordial num filme: não há drama. Ao contrário do melodramático "Interestelar", há um excesso de frieza e letargia por parte da película, que não entrega grandes ganchos para a fixação do público. Nomes como Harry Styles (sim, do One Direction, em competente atuação), Cillian Murphy e Mark Rylance (recém vencedor do Oscar de "Melhor Ator Coadjuvante" por "Ponte dos Espiões", 2015, outro longa com guerra como fundo, dessa vez a Guerra Fria) até ganham destaque, mas, impossibilitados de nos afeiçoarmos pelos mesmos, seus destinos são insípidos.


Com uma intricada narrativa, personagens sem desenvolvimento e centenas de figurantes para embaralhar ainda mais a coisa, a obra sofre de um mal que já deveria ter sido abolido: o whitewashing (ou "embranquecimento", no bom português). Mesmo com milhares de atores, não se vê pessoas não-brancas: africanos, indianos e outros povos são excluídos para dar espaço aos ingleses brancos. Em artigo no The Guardian, a escritora indiana Sunny Singh critica a forma histórica escolhida por Nolan:

Mas por que é tão importante para Nolan, e para muitos outros, que o filme expulse toda a presença não-branca na praia e nos navios? Por que é psicologicamente necessário que as tropas britânicas heroicas sejam resgatadas apenas por marinheiros brancos? (...) O exército francês em Dunkirk incluia soldados de Marrocos, Argélia, Tunísia e outras colônias, e em números substanciais. Alguns rostos não-brancos são visíveis em uma cena de multidão, mas é só. (...) [Discutir] isso é importante porque, mais do que livros de história e aulas escolares, a cultura popular molda e informa a nossa imaginação não só do passado, mas do nosso presente e futuro. (...) Todos os contadores de histórias conhecem o poder que detêm. Histórias podem desumanizar, demonizar e apagar. Mas as histórias também são o único meio de humanizar aqueles considerados desumanos; para criar solidariedade, compaixão, simpatia e até amor para aqueles que são estranhos. E é por isso que "Dunkirk" - e de fato qualquer história - nunca é apenas uma história.

A produção até tenta esconder, mas é um produto de evocação inglesa. Há certa "objetividade" na retratação dos fatos, porém, no final, a trilha chorosa não perdoa o ar de superioridade daquele povo da terra da rainha, e como todos são vitoriosos e bonzinhos - que nada difere dos patrióticos filmes norte-americanos, como "Sniper Americano" (2014). Nolan, que é inglês, poderia encerrar seu longa sem cair nessa patifaria tão barata de exaltação que em nada agrega, principalmente ao silenciar várias etnias que estavam em grande número na aula de história que o filme tenta fazer.

Porém, todos os defeitos, que são grandes, não são capazes de ofuscar a beleza das imagens de "Dunkirk". Comentar sobre sua fotografia é chover no molhado, entretanto, é inevitável não falar das belíssimas imagens retiradas por Hoyte Van Hoytema (também diretor de fotografia de "Ela", 2014, "007 Contra Spectre", 2015, e "Interestelar"). Utilizando o horizonte como porto seguro, todos os jogos de câmera, num poderoso rolo de 70mm, são louvores da complacência da natureza, enquanto vemos homens agonizando pelos descaminhos da guerra. Indicação ao Oscar de "Melhor Fotografia" é obrigação.


Outro aparato técnico impressionante é a edição e mixagem de som. "Dunkirk" é um filme sem muitos diálogos entre os personagens porque é a guerra que grita. Ela é o encapsulamento do horror, então a película é um trabalho bastante barulhento. Não um caos de sons aleatórios como vemos num "Transformers" (2007) da vida, mas uma sucessão bem ordenada de tiros, bombas e gritos. A trilha sonora fora de série de Hans Zimmer (vencedor do Oscar de "Melhor Trilha" por "O Rei Leão", 1994) é irretocável, exagerada e violentamente eficiente - excluindo o final -, que, fundidas com os sons diegéticos, orquestram um espetáculo sonoro sem precedentes.

Christopher Nolan consegue contar uma história praticamente só pelas imagens, e comprova sua expertise em domínio cinematográfico, todavia, fica difícil não sair do cinema com aquela sensação de que seu novo filme é muito mais uma afirmação de "vejam como eu sou bom em filmar tudo isso". Doses homeopáticas de tensão são entregues e, mesmo sendo seu segundo filme mais curtos (106 minutos), a duração parece se arrastar por horas a fio, efeito causado principalmente por não nos importamos com o que está no ecrã - estamos mais entretidos pela parte técnica, hipnotizados pelas lindas imagens e como a trilha ajuda a compor o quadro. "Dunkirk", por fim, é um prato de decoração que penduramos na parede da cozinha: de beleza inegável, mas sem comida alguma dentro. O espectador sai da sessão vislumbrado, mas com o estômago tão vazio quanto esse prato.