Afinal, quem é Camila Cabello?

Se a identidade de Camila já não estava muito clara até aqui, as coisas só se confundem mais com suas músicas novas, “Havana” e “OMG”.

Camila Cabello teve uma saída pra lá de conturbada do Fifth Harmony, em dezembro do ano passado. Na época, o grupo teria anunciado a partida da cantora sem que ela fosse previamente anunciada, até que, após uma troca pública de textões, os dois lados entenderam que era hora de seguir em frente.

Quando o integrante de um grupo famoso toma uma decisão como essa, é comum que falem sobre liberdade criativa, oportunidade de ser quem realmente é e, sem toda a rigidez cobrada de um grupo, espaço para ousar, musicalmente falando, mas, faltando pouco mais de um mês para a estreia do seu primeiro álbum, nada disso nos foi oferecido.



O primeiro passo de Camila Cabello em sua carreira solo veio com “Crying In The Club”. Soando como tantas outras lançadas entre “Shape of You”, do Ed Sheeran, e “Cheap Thrills”, da Sia que, inclusive, assina como co-compositora da faixa, a produção se apoia num sample de “Genie In A Bottle”, da Christina Aguilera, e transforma o que poderia se tornar uma brilhante recordação pop em uma das faixas mais descartáveis do ano. Ao menos sendo dançante, precisamos dizer.

Ao lado de “Crying”, Camila lançou ainda a baladinha “I Have Questions” e, numa  oportunidade de explorar melhor sua voz, fez justamente o oposto: repetiu do início ao fim as técnicas da compositora da faixa, Bibi Bourelly, ao ponto de, em vários momentos, nos questionarmos se não seria a própria Bibi assumindo os vocais.



Bibi Bourelly tem uma voz e técnica bastante marcantes, também emulados pela Rihanna em outra música escrita por ela, “Bitch Better Have My Money”. Falando de Cabello, as semelhanças ficam mais perceptíveis ao ouvir músicas como “Riot”, “Ego” e “Poet”, do repertório da compositora.



Entre as colaborações lançadas enquanto divulgava seus próprios singles, Camila Cabello também ficou bastante perdida. “Love Incredible”, com Cashmere Cat, traz a cantora com vocais bem próximos da Ariana Grande, que também trabalhou com o produtor em músicas como “Adore”e “Quit”, e com o Major Lazer, em “Know No Better”, ela enfim parece soar como a mesma Camila do Fifth Harmony, mas sem nos oferecer nada demais.



Se a identidade de Camila já não estava muito clara até aqui, as coisas só se confundem mais com suas músicas novas, “Havana” e “OMG”. Não dá pra negar que ambas as faixas são muito interessantes e, se esbarrarmos numa playlist do Spotify, dificilmente deixaremos passar, mas elas falham no que nenhum dos seus singles anteriores foi capaz de fazer: nos mostrar seu verdadeiro potencial.

“Havana”, a favorita do público desde que as duas foram lançadas, soa como uma demo da Rihanna. Numa tentativa de resgatar suas origens cubanas, a música leva a cantora para um lado bem menos genérico que suas outras canções, mas pouco soma a sua carreira como um todo, aqui nos lembrando de dois outros nomes: é como se Ariana Grande cantasse “Same Old Love”, da Selena Gomez.



E ainda mais genérica, “OMG” nos dá a impressão de que Camila ouviu e tentou repetir algo que curtiu da Rihanna, em discos como “Talk That Talk” ou “Unapologetic”, e falhou, claramente. Mais levada para o hip-hop, a música consegue ser tão urbana quanto qualquer coisa lançada nos últimos meses pela Bebe Rexha ou Katy Perry, ainda que seja divertida. O que realmente não salvamos é a participação do Quavo, mas qual artista não lançou uma música com ele ou com o Migos neste ano?



Não dá pra negar que Camila Cabello sempre foi uma das integrantes com maior destaque no Fifth Harmony (e de uma presença de palco absurda; me lembro até hoje de como deixei o primeiro show delas em São Paulo, no Z Festival, caindo de amores pela dona de “Crying In The Club”), mas, em suas faixas solos, é como se todo esse brilho se perdesse, enquanto ela se atrapalha em tentativas de repetir o que já funcionou com outros artistas.

Depois de tantas músicas genéricas e esquecíveis, a cantora se vê com apenas algumas semanas para se fazer relevante ou, na melhor das hipóteses, minimamente interessante, enquanto lida com um público que, na primeira oportunidade, não hesitará em troca-la por qualquer um dos nomes que ela provavelmente tem visto como inspiração.

A gente gosta das canções, são pelo menos divertidas, e torcemos bastante por essa nova fase, mas nada do que fez até aqui responde nossa pergunta inicial: afinal, quem é Camila Cabello?