Ouvimos o “4:44” do JAY-Z por várias horas e essas foram nossas primeiras impressões

Com vocais de Frank Ocean, Beyoncé e da mãe de JAY-Z, Gloria Carter, “4:44” foi lançado nesta sexta-feira (30) no Tidal.

Os rumores eram reais e, na última sexta-feira (30), o rapper JAY-Z lançou com exclusividade ao Tidal o seu novo disco, “4:44”. O álbum sucessor do “Magna Carta... Holy Grail”, é um verdadeiro livro confessional, no qual o marido de Beyoncé narra das vezes (sim, no plural) em que traiu a cantora aos problemas que teve com o seu amigo de longa data, Kanye West, abordando ainda narrativas sobre a forma como lida com o racismo e até mesmo a homossexualidade de sua mãe.

Das letras aos arranjos, “4:44” nos entrega uma experiência ainda mais complexa do que a oferecida pelo rapper em seu álbum anterior, contando com referências o suficiente para nos perdermos por algum tempo, o que só nos mantém ainda mais curiosos para ouvi-lo mais e mais vezes.

Abaixo, listamos alguns pensamentos que tivemos durante as primeiras vezes em que o escutamos.

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Kanye West está presente nesse disco


Apesar de JAY-Z e Kanye West estarem brigados, a influência do parceiro de Jay em “Watch The Throne” é perceptível do início ao fim do disco. A faixa de abertura, “Kill Jay Z”, inevitavelmente nos remete a “I Love Kanye”, do disco “The Life of Pablo”, o sample de Nina Simone em “The Story of OJ” é algo que Kanye West faria, o sample de Sister Nancy em “Bam” é o mesmo que o Kanye usou em “Famous” e por aí vai. Se não fossem as letras sobre ele, ‘Ye ficaria orgulhoso.



“The Story of OJ” é uma das músicas mais fodas desse ano, porque sim.


“Eu não sou um negro [qualquer], eu sou O.J.”, disse O.J. Simpson durante um de seus depoimentos enquanto era julgado pelo assassinato de sua mulher, em um dos maiores casos policiais dos EUA. A frase, por sua vez, foi o que permitiu que JAY-Z o associasse com essa faixa, na qual discute a forma como o racismo se mantém presente e violento na vida negra, independente da sua pele ser mais clara ou, como no caso de O.J. Simpson, você ser um negro famoso e milionário. “Negro claro, negro escuro, negro falso, negro real, negro rico, negro pobre, negro de casa, negro do campo, continuará sendo apenas um negro. Apenas um negro”, diz em seu refrão.

A música ainda traz um sample pontual de “Four Women”, da Nina Simone, na qual ela dá voz para quatro mulheres negras em tonalidades diferentes, demonstrando a forma como a escravidão deixou seus resquícios na vida de cada uma delas. Foda demais.

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O relacionamento dele com Beyoncé foi abusivo?


Da treta com Solange no elevador aos versos que fazem referência as agressões sofridas por Tina Turner em “Drunk In Love”, foram muitas as vezes em que o público se questionou sobre o relacionamento entre JAY-Z e Beyoncé ser abusivo em algum nível e, além das confissões sobre suas traições, o rapper dá margem pra que também interpretemos isso.

Na faixa “4:44”, um dos versos que nos chama a atenção é quando ele relembra que, no aniversário dela de 21 anos, pediu: “não me envergonhe”. Hoje ele se diz arrependido e afirma que deveria ter dito “seja minha”, mas toda a canção segue nessa narrativa em que ele fala sobre o quanto foi um macho babaca, para hoje reconhecer a mulher que tem ao seu lado. Nessa canção, ele também conta sobre quando ela descobriu uma de suas traições e se desculpa, inclusive, por abortos que ela teria sofrido em 2010 e 2013.

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...ok, precisamos lidar com o fato de que JAY-Z foi um homem babaca.


“Eu vou acabar com algo bom se você me deixar. Becky, me deixa em paz”? Meu cu, né JAY-Z. Se não bastasse o histórico narrado em “4:44”, na faixa “Family Feud” ele é ainda mais direto sobre as traições, agora fazendo menção a mesma Becky que também virou música com a Beyoncé em “Sorry”, do “Lemonade”, mas se colocando numa posição de vítima bastante incômoda para quem está ouvindo.

Cê foi lá transar sem ninguém te obrigar, sabendo que era marido da fucking Beyoncé. Não vem se fazer de inocente pedindo pra mina te deixar em paz, porque era você quem poderia ter dado um fim nisso antes mesmo de ter começado. Cuzão.



A sacada de “Moonlight” foi genial


Depois do soco de realidade na letra de “The Story of O.J.”, o racismo volta a ser pautado em “Moonlight”, uma reflexão sobre como a maioria se apega ao conformismo em meio aos pequenos avanços. “Nós continuamos em La La Land. Mesmo quando ganhamos, estamos perdendo”, diz em seu refrão.

A sacada fica para a relação com o último Oscar, no qual o drama LGBT negro “Moonlight” venceu o musical favorito muito branco “La La Land” e, mesmo com a estatueta da noite, teve seu momento marcado pelo anúncio confuso da premiação, que inicialmente deu o prêmio ao segundo filme. O que deveria ser histórico pelo filme vencedor, terminou lembrado pela gafe, fato que, de certa forma, ofuscou o brilho da produção negra.



Caralho, Blue Ivy, tu é muito esperta


Agora que Beyoncé teve gêmeos, Blue Ivy precisa se preparar pra dividir a maior fortuna do mundo com mais duas crianças, mas a menina é esperta. Na faixa “Legacy”, é ela quem começa perguntando, “papai, o que é um testamento?”. Quer menina mais esperta?

Falando sério, a letra fala sobre o legado que o rapper quer deixar para seus filhos e termina com um sample do Donny Hathaway, no qual ele profetiza: “Algum dia, todos nós seremos livres.”

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Dá vontade, não dá, Macklemore?


A gente bebeu muito mijo do Macklemore & Ryan Lewis pelo sucesso de “Same Love”, que trazia vocais da cantora bissexual Mary Lambert, abordando a relação homoafetiva, raramente discutida por artistas do hip-hop, e aqui está JAY-Z indo ainda mais fundo em “Smile”, na qual sua mãe é quem revela ser homossexual, da forma mais bela e inspiradora possível.

“Mamãe teve quatro filhos, mas ela é lésbica”, canta JAY-Z. “Precisou fingir por tanto tempo que se tornou uma atriz. Precisou se esconder no armário até ser medicada. Por vergonha da sociedade e da dor ser grande demais para aguentar. Chorei lágrimas de alegria quando se apaixonou, porque pra mim não importa se será ele ou ela, só quero te ver sorrir apesar de todo esse ódio.”

No final da faixa, é a própria mãe do rapper, Gloria Carter, quem recita um poema, no qual diz:
Vivendo duas vidas, feliz, mas não livre. Você vive nas sombras pelo medo de ferir alguém da sua família ou pessoas que você ama. O mundo está mudando e eles dizem que está na hora de se libertar. Mas você vive com o medo de apenas ser você. Viver nas sombras parece a forma mais segura de ser. Sem danos pra eles, sem danos pra mim. Mas a vida é curta demais, então é hora de ser livre. Ame quem você ama, porque a vida não está ganha. Sorria.

Dá o Grammy pra ela!

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JAY-Z foi um puta babaca com a Beyoncé? Sim, ele foi. Mas, assim como ela fez em “Lemonade”, transformou todo esse transtorno em um dos seus melhores álbuns – e, felizmente, em um dos melhores álbuns desse ano – de uma forma em que não ficaremos surpresos se, assim como ela, conquistar o apreço critico como nunca antes – e, provavelmente, perder o Grammy para algum artista branco.

“4:44” é um disco que resgata a qualidade dos primeiros trabalhos de JAY-Z, com toda a maturidade artística que ele só poderia apresentar nos dias atuais, com o acréscimo do que absorveu ao longo de suas parcerias com artistas como Kanye, Beyoncé e até nomes mais novos do que ele neste jogo, como Frank Ocean e Kendrick Lamar.

É um disco sofisticado e agressivo, sutil e escandaloso, feito para ser amado e odiado. E, disponível apenas no Tidal, definitivamente, vale a audição.