Crítica: "O Mínimo Para Viver" é esquecível enquanto cinema, mas traz necessário debate sobre anorexia

Original Netflix, o filme debate de forma crua e didática os distúrbios alimentares para seu público alvo

A Netflix já é um dos maiores impérios de cultura do nosso planeta. Com mais de 100 milhões de assinaturas pelo globo, a plataforma de streaming consegue ditar pautas sociais a partir de seus lançamentos, introduzindo diálogos sobre os mais variados assuntos. Lembra quando a série "Stranger Things" foi lançada ano passado? Era absolutamente a única coisa que se falavam pelas redes sociais, e a série é uma obra original da Netflix.

"Stranger Things" é só um exemplo dos vários que caíram na boca do povo e foram originados na plataforma. Em 2017 tivemos o boom de "13 Reasons Why", série que veio com o intuito de discutir o suicídio na adolescência. Com fervorosos comentários contra a "glamourização" do suicídio que a série teria realizado até defensores que aprovam a história, o fato é que a série fez com que o número de pedidos de ajuda contra o suicídio aumentassem. No fim das contas, esse impacto positivo é a real conquista.

Por essa força de impacto, comprovada pelos números de "13 Reasons Why", a Netflix parece estar preocupada com outros problemas sociais. Recentemente a companhia comprou os direitos de exibição de "Okja", filme que debate o uso irresponsável de animais para o consumo humano. O lançamento da semana, no último dia 14, foi "O Mínimo Para Viver", longa-metragem que coloca os distúrbios alimentares na mesa.


Lily Collins, estrela (para o bem ou mal) de "Os Instrumentos Mortais: Cidade dos Ossos" (2013), vive Ellen, uma garota de 20 anos que sofre de anorexia. Sua estrutura familiar é meio caótica: a mãe mora em outra cidade, seu pai é completamente ausente (ele nem ao menos aparece no filme, uma sacada engenhosa da produção) e ela vive com sua madrasta Susan (Carrie Preston, de "True Blood") e sua meia-irmã Kelly (Liana Liberato). Ao ser levada pela madrasta até o médico William Beckham (Keanu Reeves), a garota é internada numa espécie de casa de repouso para transtornos alimentares.

O filme não perde tempo explicando nossos padrões de belezas. Não há uma introdução da garota vendo revistas de moda com aquelas modelos-palitos ou assistindo a videoclipes com cantoras e suas barrigas saradas: nós já estamos muito bem familiarizados com as imposições estéticas da nossa sociedade, principalmente as voltadas para o corpo feminino, ainda mais cruéis. Há uma rápida menção desses padrões e já caímos de cara com a doença da protagonista em plena atividade.

Como qualquer produção que evolve grandes mudanças físicas nos atores, "O Mínimo Para Viver" pode virar palco de curiosos em relação ao corpo de Collins. Magérrima, a atriz teve que perder muitos quilos para o papel, o que gerou controversas. A própria atriz já assumiu ter sofrido de distúrbios alimentares, então ter que emagrecer dessa forma, mesmo acompanhada de uma nutricionista, como ela mesma frisou em várias ocasiões, não seria o mesmo que um alcoólico recuperado voltar a beber álcool para um filme (com supervisão de um profissional)?


É bem verdade que soa perigosa essa transformação, porém se a atriz aceitou e recebeu orientação constante, não podemos interferir - imaginemos-a cheia de efeitos especiais como Kristen Stewart em "A Saga Crepúsculo: Amanhecer - Parte 1" (2011) durante sua fase esquálida da gravidez: o efeito principal do longa, só conseguido pelo impacto visual da doença, seria perdido. Além disso, Collins usou o filme como uma "libertação" dos fantasmas do passado, falando em redes sociais que "dividir a minha história em relação aos transtornos alimentares e o quão pessoal esse filme é para mim tem sido uma das experiências mais gratificantes da minha vida".

E assim como qualquer obra que trate de temas obscuros, como suicídio, bullying, depressão, assassinatos e afins, o filme mostra detalhes dos corredores dos distúrbios alimentares. Na casa de internação, há várias pessoas, principalmente mulheres, com anorexia e bulimia, e é revelado tanto as formas que elas fazem para não engordar até suas obsessões corporais. Há garotas vomitando depois do jantar dentro dum saco que guardam escondido embaixo da cama, há contrabando de laxantes, abdominais e outras atividades físicas obsessivas e até quem prefira correr ao invés de caminhar para perder mais calorias (que mal ingerem).


Isso pode soar como um belo manual para novos anoréxicos, assim como "13 Reasons Why" pode parecer um guia passo a passo de suicídio, porém o que separa o "incentivar" e o "conscientizar" são os mecanismos que a obra em questão se utiliza para mostrar que fazer aqueles passos é algo prejudicial. No caso de "O Mínimo Para Viver", não só acompanhamos o definhar físico de Ellen enquanto ela luta contra um medo desproporcional de ser gorda, mas também testemunhamos o desespero de sua família ao ver que a garota está, pouco a pouco, morrendo. O retrato desse impacto familiar é de suma importância para as discussões da obra, pois não exclui o indivíduo doente, como se todos os males apenas o abatessem. Ele, inserido num contexto social, acaba interferindo na realidade das pessoas à sua volta.

Numa cena, Ellen diz ter a situação sob controle, uma ilusão imposta por ela mesma para se manter confortável no meio da doença; em outra, ela assume ter medo de começar a comer e não conseguir mais parar. É bem difícil conseguir entender tal pensamento quando estamos fora da caixa craniana da personagem ou de alguém que sofre com quaisquer transtornos psicológicos, e é ainda mais difícil um filme transparecer de forma real tais problemas. Além de Collins, a própria diretora/roteirista, Marti Noxon, produtora de diversas séries, como "Buffy, a Caça-Vampiros" e "Glee", usou suas experiências com alimentação para construir a história, o que coloca mais verdade no ecrã quando sabemos que as pessoas envolvidas infelizmente vivenciaram o que está sendo exibido.


Talvez a melhor abordagem do filme, mesmo não sendo palco principal, é a romantização de problemas na internet. Ellen desenhava seus desejos e medos causados pela anorexia e postava no Tumblr. Uma garota, também anoréxica, cometeu suicídio e citou na sua última carta que o trabalho de Ellen a inspirou a realizar aquilo. A protagonista não é real culpada da morte da garota, porém há um peso muito forte quando transformamos algo negativo em belo, legal e até desejável.

Você com certeza já deve ter visto as glamourizações de suicídio pelos perfis de "sad boys", aquela garota anoréxica que posta fotos no Instagram e tem milhares de seguidores, e até mesmo ouve nossa querida Lana Del Rey cantando sobre violência doméstica de forma quase divina. Quem nunca "queria estar morta"? Até onde tais consumos são prejudiciais? Como somos influenciados por essa onda de endeusamento do que deveria ser repudiado?

O filme não condena os desenhos da protagonista, assim como não precisamos iniciar uma caça às bruxas pelos exemplos citados, contudo, há a necessidade de maiores responsabilidades com temas tão delicados, principalmente quando inseridos num meio de propagação tão rápida como a internet. Essa leve problematização serve para acendermos uma luz amarela quando a menina que se matou pelos desenhos de Ellen é baseada em histórias reais.


E essa responsabilidade é encontrada em "O Mínimo Para Viver". A obra se preocupa em deixar muito claro que tem nada de bonito em parecer um cabide, pois, muito acima da aparência, a saúde de suas personagens são o objetivo principal a ser atingido por todos ali. Há menções biológicas dos impactos da abstinência em alimentação, como o fato do corpo consumir seus músculos e órgãos quando não há mais ingestão de calorias. Aqui não temos um filme motivacional ou romântico, e sim uma abordagem seca e didática na medida certa (com exceção do esquemático final) sobre o passo a passo de ter um distúrbio alimentar, chegar no fundo do poço e conseguir sair de lá. É tudo cru, desde os diálogos até mesmo o sóbrio design de produção, carente de cores vibrantes.

Com um público alvo bem delimitado, adolescentes (foco na estrela teen no protagonismo, o romance bobinho - e desnecessário - e as descobertas sexuais dignas de um coming of age), "O Mínimo Para Viver" é um filme recomendado para gerar um debate sobre um assunto tão sério e tão atual. Mesmo não alcançando voo alto, a produção consegue cumprir o que propõe sem tanto impacto gráfico que a mensagem inicial promete, terminando com um positivo tom (para não dizer piegas) que pede para o espectador discorrer sobre o tema de forma esperançosa. Aqui temos um bom filme para ser passado em escolas, instituição que deve fomentar tais debates.

Durante as filmagens do longa, Collins, esquelética, encontrou uma amiga que comentou como ela estava ótima, querendo, ainda, saber o que ela fez para estar tão magra. Enquanto vivermos numa realidade torta onde o visual deprimente da atriz é motivo para elogios e o adjetivo "magra" uma bênção dos céus, o problema persistirá. "O Mínimo Para Viver" pode ser esquecível enquanto cinema, mas é correto enquanto debate.