Crítica: a discussão sobre transexualidade em "A Garota Dinamarquesa" é tão bem intencionada quanto rasa

"A Garota Dinamarquesa" está mais preocupado em mostrar a transformação de Redmayne que de fato com a representação trans no cinema

Tom Hooper é um verdadeiro caçador de Oscar. Vencedor do careca dourado de “Melhor Diretor” pelo questionável e esquecível “O Discurso do Rei” (2010), Hooper, naquele ano, viu seu filme levar ainda “Melhor Ator”, “Melhor Roteiro Original” e “Melhor Filme”, num ano abarrotado de obras muito mais interessantes e inesquecíveis (“Cisne Negro”, “A Rede Social”, “Toy Story 3”...). É a Academia se curvando para a forma de bolo.

E o que é a forma de bolo do Oscar? Segue a receita: um punhado de roteiro geralmente didático, um litro de grande atuação do protagonista, duas colheres de fotografia sóbria (se for dourada, melhor ainda), trilha sonora cheia de pianos e violinos à vontade e uma grande pitada de história de superação. Voilá! Eis o filme feitinho para o prêmio. E um filme que se enquadra nessa forma é automaticamente ruim? Claro que não. E querer se encaixar aqui para ganhar prêmios? Também não.

Às vezes, a Academia consegue surpreender e premiar algum filme que fuja da receita, como “Birdman” (2014) na edição de 2015, mas se couber na forma, pelo menos uma indicaçãozinha terá. Prova? Pegando nos últimos 10 anos: "O Curioso Caso de Benjamin Button" (2007), "O Leitor" (2007), "Um Sonho Possível" (2008), "Cavalo de Guerra" (2010), "Lincoln" (2011), "12 Anos de Escravidão" (2012), "O Jogo da Imitação" (2013), "Brooklyn" (2014)...

Infelizmente (para o diretor), seu último filme, apesar de ter todos os itens listados, voltou para casa quase sem prêmios. “A Garota Dinamarquesa” se baseia na história de Lili Elbe, uma pintora que, nos anos 30, foi uma das primeiras transexuais a se submeter à cirurgia de redesignação sexual. Lili é interpretada por Eddie Redmayne, recentemente vencedor do Oscar de “Melhor Ator” ao interpretar Stephen Hawking em “A Teoria de Tudo” (2014). Com o prêmio em mãos, recebido com louvor (mesmo não sendo o melhor entre os indicados), os holofotes se viraram para o ator, o que gerou um grande movimento contra sua escalação. Por que não escalar uma atriz trans para o papel?


Uma das primeiras justificativas foi “Na década de 30, as trans não passavam por reposição hormonal, por isso tinham traços ‘masculinos’”, o que é um argumento bem nulo. O próprio diretor, durante o Festival de Veneza, comentou que escolheu Redmayne porque ele possui traços femininos, o que desarma completamente a lógica anterior. A questão aqui não são os “traços”, e sim a representatividade.

Pense rápido: quantos atores/atrizes trans você já viu atuando no cinema? Caso consiga pensam em algum(ns), compare com o número de artistas cis. A diferença é esmagadora, certo? Mesmo, de uma forma ou de outra, colocar em pauta a transexualidade, “A Garota Dinamarquesa” é um filme sobre trans sem nenhuma trans. Seria, numa comparação hiperbólica, como se “Selma: Uma Luta Pela Igualdade”, filme sobre Martin Luther King, não possuísse atores negros.

Certo, a arte de atuar possui beleza quando vemos atores se despindo de todas suas características e encarnando personagens cada vez mais desafiadores e fora da sua realidade. Foi assim como Felicity Huffman em “Transamérica” (2005) e Jared Leto em “Clube de Compras Dallas” (2013) – esse levando o Oscar pela atuação –, ambos pessoas cis interpretando personagens trans. E realmente não houve toda a discussão que houve durante a divulgação de “A Garota Dinamarquesa” no lançamento dos citados, mas isso inviabiliza as atuais discussões? Não, só mostra que as pessoas estão cada vez mais preocupadas com a questão da representação, o que é maravilhoso. Também não precisamos condenar qualquer um dos citados por não trazem atrizes trans em seus papéis, eles não estão cometendo crimes a serem repudiados, porém, a discussão deve ser levantada para que, um dia, nós nem precisemos dessa discussão.


Todavia, ao contrário de Huffman e Leto, que orquestraram atuações brilhantes, Redmayne copia e cola sem piedade os trejeitos e expressões que usou em “A Teoria de Tudo”, o que soa completamente equivocado e ainda mais sem peso para sua escolha. Em diversos momentos parece que é Stephen Hawking ali na tela – há uma cena numa cadeira de rodas e é exatamente a mesma composição de personagem. A carga dramática do roteiro e os violinos chorosos da trilha são o que sustentam o melodrama, pois o ator claramente é um homem tentando a toda força parecer uma mulher, ao invés de ser a mulher que Lili sempre foi. Durante toda a projeção, parece que a obra se preocupa mais em mostrar a transformação do ator do que de fato com a representação e discussão da transexualidade no cinema.

A caracterização do personagem, feita por “““imitação dos jeitos femininos””” (coragem) é ofuscada por Alicia Vikander, que interpreta Gerda, esposa do então Einar. A atriz sueca, que vem despontando recentemente e brilhou em “Ex Machina: Instinto Artificial”, rouba toda a cena e é o pilar central do longa, o que torna o mesmo uma obra torta: como o filme é sobre a Lili e é Gerda que toma os holofotes? Esse efeito acontece porque o roteiro pontua mais o relacionamento dos dois do que de fato a questão transexual da protagonista – outra vez remetendo “A Teoria de Tudo”, onde os acontecimentos se passam na visão da esposa. Vikander, por fim, levou o Oscar de “Melhor Atriz Coadjuvante” pelo papel, o único, e controverso, prêmio do filme. Vikander é protagonista, porém a produtora do longa decidiu submetê-la ao prêmio de “Coadjuvante” para que suas chances de vitória fossem maiores. E foram.


E até mesmo o desenvolvimento de uma esposa descobrindo que seu marido é na verdade uma mulher não alcança voos tão altos como em “Laurence Anyways” (2012) do Xavier Dolan, que trata com muita mais profundida a mesma discussão – um roteiro oscariável não poderia se dar ao luxo de se alongar como Dolan fez em seu filme de 3h. Mas nem isso é justificativa. O longa “Tangerina” (2015) possui apenas 88 minutos e consegue construir um filme sólido e reflexivo sobre a realidade da pessoa trans – isso sem falar que as protagonistas são atrizes trans. “A Garota Dinamarquesa” é raso em todos os aspectos narrativos, tendo pouco impacto no florescer do próprio tema.

E o que dizer de um filme chamado “A Garota Dinamarquesa” falado em inglês? Imaginemos um longa chamado “A Garota Brasileira” filmado na Argentina e falado em espanhol. Seria completamente estranho, não? Pois é. Lili viveu na Dinamarca e, para completar suas cirurgias, se mudou para a Alemanha, porém o longa é um típico filme inglês, o que joga por terra a nacionalidade e cultura da própria história. Esquecemos completamente da Dinamarca com a narrativa, que pontua raras vezes que estamos no país, e não no Reino Unido.


É certo que colocar o longa em inglês faz com que a obra tenha uma abrangência maior, afinal, o eixo Estados Unidos-Inglaterra é o que há de mais poderoso no cinema em termos de alcance – só perceber a quantidade de filmes estrangeiros são mutilados em remakes em inglês – o que, no fim das contas, é mais uma “boa intenção” da produção, que deseja levar a mensagem sobre a transexualidade (ainda que rasa) para o maior número de pessoas. Mas ainda assim é um embaçamento na cultura original da história.

São vários os motivos que sepultaram o desejo de Tom Hooper em conseguir arrematar alguma estatueta com o filme (a única vencida foi para a estante de Vinkander), e, ao que parece, seu estilo feito para prêmios está passando batido perto de tantos filmes que ousam sair do lugar-comum – mesmo “A Garota Dinamarquesa” sendo “bem intencionado”. E, no final do dia, é bem melhor produzir uma obra que tenha relevância na arte e no público do que uma estatueta na estante – algo que “A Garota Dinamarquesa” não chegou perto.