A Netflix cancelou a sua série favorita, mas esse não é o fim do mundo

Na real, talvez seja só uma oportunidade deles investirem ainda mais no restante dele.

Há alguns dias, em seu Instagram, Sophia Amoruso, escritora da autobiografia #Girlboss, e também criadora da série de mesmo nome na Netflix, anunciou o cancelamento do show pela plataforma mundial de streamings. 

A princípio, podemos levantar que os motivos essenciais para o cancelamento estão entre as críticas negativas, à época do lançamento, há apenas alguns meses, a protagonista Sophia vivida por Britt Robertson recebeu diversas críticas entre “mimada”, “irritante” e “grosseira”, e o show foi rotulado como “série sobre problemas de uma garota branca”, e também a baixa audiência. 

Como sabemos hoje, se não deu resultados, a Netflix cancela. Mas esse argumento não parece ser importante para os críticos de internet de plantão, que caíram matando, mais uma vez, em cima da companhia, dias após o anúncio do aumento do preço dos planos do serviço. 

Sim, pagamos Netflix para receber conteúdos que gostamos e temos todo o direito de protestar. Vejam só o que aconteceu com Sense8 essa semana, que ganhou um especial de encerramento após protestos dos fãs (diversas outras séries também foram resgatadas nos últimos tempos, Gilmore Girls, Fuller House...).


Contudo, vamos pensar de uma maneira um pouco mais mercadológica? As manas precisam por a cara nas finanças.

Então vamos lá. Há pouco menos de um mês, após o cancelamento de Sense8, o CEO da Netflix Reed Hastings afirmou que a estratégia da companhia é “assumir riscos”, o que pode ser traduzido como experimentar narrativas e formatos novos, na esperança de encontrar um sucesso. Tanto 13 Reasons Why, quanto Stranger Things foram sucessos inesperados. 

Logo, se algum show não atende às expectativas, ele é cancelado. E porque antes a Netflix pelo menos dava um final para suas séries canceladas, foi o caso de Hemlock Grover, por exemplo, e agora nem isso? Bem, é provável que seja questão de sobrevivência. 

Saiu na imprensa, há algumas semanas, que a empresa de Hastings havia passado o número de assinantes de TV por assinatura nos Estados Unidos, um feito impressionante, sem dúvida! Mas também é sintomático, uma vez que será muito mais difícil para a Netflix crescer em terras do Tio Sam.

E o que eu to falando aqui tem base, tá? Relatórios recentes mostram que a companhia está crescendo muito... Mas principalmente fora dos EUA, e o principal mercado internacional fora o estadunidense é o chinês, que impede o funcionamento da companhia americana. Sendo assim, a Netflix precisa encontrar outros mercados, e segurar as pontas naqueles investimentos caros e com pouco retorno (Sense8 é uma das séries mais caras da história, com uma logística super difícil, e que acabou sendo hypada por um nicho muito específico de consumidores). 

Dito isso, é muito provável que a empresa esteja caminhando para uma internacionalização de suas operações, buscando clientes em países emergentes como o Brasil, a Índia, países em crescimento da África e America Latina e, com isso, o catálogo da gigante de streamings fique cada vez mais... Diverso. Justamente os que os fãs órfãos da empresa disseram que deixaria de acontecer com o cancelamento de Sense8, famosa por possuir grupos minoritários em papéis de destaque. 

É absolutamente plausível esperar produções originais brasileiras, como 3% (atualmente está em fase de produção uma série brasileira baseada na Lava-Jato), além de produções locais indianas, bolivianas, colombianas, argentinas, mexicanas, espanholas, italianas... Enfim, um catálogo verdadeiramente mundial e sem fronteiras.

Ingobernable, série mexicana da Netflix, é um House Of Cards com muito mais drama. 

Não é possível ainda definir qual o futuro da TV, principalmente com tantos players novos no mercado (Amazon, Youtube, Facebook, Hulu), todavia, podemos esperar e devemos desejar uma forma de assistir televisão diferente do que já vivemos, conectados com realidades totalmente diferentes da nossa, e longe do círculo vicioso que estivemos ao longo de toda a história da indústria do entretenimento atual, com o consumo de produções ora européias, ora estadunidenses.

Talvez um dia nos encontremos lendo artigos sobre novas séries fodas produzidas na Ásia, na Oceania, na África e entre nossos vizinhos. Enfim, explorar um novo lado da globalização.

Muitas das séries canceladas pela Netflix recentemente eram boas sim, mas o corte nesses títulos não significa que a empresa esteja ficando ruim, que merece os boicotes que tem recebido. Se for para direcionar seus investimentos em segmentos novos no audiovisual, melhores e mais criativos, quem sabe nos ajudar a quebrar essa birra que temos com línguas que não sejam o inglês e o português, e se for para ficar melhor do que está, que venham, porque estamos prontos.