"Mulher-Maravilha" é a representação da força feminina em inúmeros aspectos

Mulheres talentosas no cinema é o que não falta; o que falta é a oportunidade.

Sem Superman, Batman ou Liga da Justiça. Desta vez, Diane Prince, a Mulher-Maravilha, está solo em seu autointitulado filme, lançado na última quinta-feira aqui no Brasil. Com críticas positivas, uma nota de 8,5 no site especializado IMDb e pisando horrores com sua aprovação no famigerado Rotten Tomates. “Mulher-Maravilha” reergue a DC Comics ao lado da Warner após os fracassos de “Batman Vs Superman – A Origem da Justiça” e de “Esquadrão Suicida”, que decepcionou bastante os fãs – que, obviamente, colocaram todas as expectativas possíveis em ambos.

Sem entrar no mérito de roteiro/narrativa, o longa é um marco na história do cinema, pois se trata do primeiro filme com o orçamento superior a US$ 100 milhões dirigido por uma mulher, além de ter sido a estreia de uma diretora à frente de um filme de super-herói. Apesar de ter comandado a produção de “Monster – Desejo Assassino”, que rendeu à Charlize Theron o prêmio de “Melhor Atriz” da Academia, o currículo de Patty Jenkins possui mais trabalhos na TV. É válido ressaltar também que o filme, em seu final de semana de estreia, chegou em US$ 243 milhões.



Isso segue uma recente tendência de alguns estúdios em colocar na direção de grandes franquias – como “Jurassic World” e “Quarteto Fantástico”, por exemplo – diretores com pouca experiência. O motivo é incerto (economia, talvez?), mas é claramente um jogo de sorte. No caso de “Quarteto Fantástico”, de Josh Trank, não deu muito certo. Em contrapartida, Patty Jenkins foi uma aposta mais do que bem sucedida da DC Comics, tendo em vista os resultados que o estúdio está colhendo. Inclusive, Gal Gadot e Jenkins já assinaram para a continuação.

Por que então tanta resistência para contratar uma mulher para dirigir um filme deste porte? Se experiência, aparentemente, não conta pontos para as contratações, por que tamanha demora para colocar uma diretora – ainda mais num momento em que os filmes de super-heróis estão tão em alta? Simples: sexismo, a resposta para qualquer pergunta que diz respeito à presença feminina no mercado cinematográfico. Mulheres talentosas no meio é o que não falta; o que falta é a oportunidade.


Mas não é só de direção que um grande filme é feito. O mérito deste impacto é também de Gal Gadot, que dá vida à amazona de Themyscira. Assim como Krysten Ritter e Melissa Benoist, protagonistas da séries “Jessica Jones" e “Supergirl” – também sobre heroínas –, Gal não é vista como símbolo sexual aos olhos de Hollywood; tampouco era famosa antes de “Batman Vs Superman – A Origem da Justiça”. Israelense e ex-recruta do exército de Israel, a atriz recebeu críticas pelo seu corpo quando foi anunciada no papel de Mulher-Maravilha – que, no filme, não apresenta trajes reveladores.

“Eles disseram que eu era muito magra e que meus seios eram muito pequenos. Tenho muita sorte por nada na minha vida ter sido fácil. Se eu fosse mais nova, levaria essas críticas muito a sério”, disse.

Como se a personagem fosse lutar contra o mal com seus seios e quadris, não é mesmo? Apesar dos exemplos positivos das séries, as heroínas das telonas, infelizmente, ainda são em maioria o oposto – como a Arlequina de Margot Robbie e a Viúva Negra de Scartlett Johanson. Vale ressaltar que o problema não são as curvas ou as roupas, mas sim a soma dos fatores (que inclui a forma como a personagem é posta na trama).

Porém, mais uma vez, é um processo: assim como a atual Mulher-Maravilha é menos sexualizada do que a Viúva Negra, a Viúva Negra é menos sexualizada que a Mulher-Gato de Anne Hathaway em “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, que é menos que a de Halle Berry no filme autointitulado da heroína. E quanto mais diretoras, roteiristas ou produtoras assumirem longas deste mundo de superpoderosos (com protagonistas mulheres ou não), melhor será para as mulheres de uma forma geral – tanto para as profissionais da área, quanto para as atrizes; e até mesmo para o público, principalmente o feminino.

Hoje em dia, quadrinhos, filmes e qualquer coisa acerca deste universo de super-heróis tem um alcance enorme de público. Independentemente da idade, homens e mulheres, meninas e meninos, compram estes produtos. Vão ao cinema, compram livros, action figures, itens licenciados, quadrinhos e mais uma infinidade de coisas. É cool ser geek. E com um público tão vasto, é importante que as mulheres tenham seus ícones também. Ícones que as inspire, e não que as deixem se sentindo mal com seus corpos ou por não terem sex appeal – ou, até mesmo, ícones que mostrem que é possível ser mulher e assumir uma produção multimilionária. Ícones que mostrem, a ambos os sexos, que mulher pode estar onde ela quiser.


Se antes as crianças estavam começando a ter influências feministas nas animações (com Moana, Elsa, Merida, Rapunzel, Tiana, Mulan, entre outras), elas agora podem tê-las no mundo dos super-heróis graças a esta Mulher-Maravilha de hoje. E quem sabe Diane Prince não é a nova super-heroína favorita (entre homens e mulheres) dos meninos – ou, pelo menos de alguns deles? Ninguém nasce desconstruído ou "construído", portanto, quanto mais os garotos tiverem contato com este tipo de personagem na infância, mais cedo aprenderão sobre equidade entre gêneros, mesmo de forma indireta – até chegar num momento que isso será natural na sociedade. A mídia e o entretenimento são grandes influenciadores, então que estes impactos sejam, para todo tipo de público, positivos.

Com uma mescla de força e candura, a Mulher-Maravilha que está nos cinemas é um exemplo para meninas e mulheres, mas não dá para parar por aí, pois uma andorinha só não faz verão. É um caminho longo a ser percorrido: em todas as esferas possíveis do cinema e, no caso, nos quadrinhos, ainda há um grande abismo entre homens e mulheres. Mas não vamos fechar os olhos para as mudanças que, mesmo sutis, estão ocorrendo. Por isso, o que temos agora deve ser prestigiado. No fim das contas, somos os clientes finais destes produtos, então levantemos a bandeira e mostremos que para a gente a representatividade importa, e muito.