Crítica: "Colossal" tenta ser comédia, ação, sci-fi e até feminista, mas falha em todos os gêneros

Estrelado por Anne Hathaway, o filme é recheado com os personagens mais incongruentes dos últimos tempos e um roteiro colossalmente vazio

Atenção: a crítica contém spoilers.

A comédia é um gênero bastante interessante quando se alia ao humor negro. Tais comédias geralmente caem de cabeça no nonsense, seja para causar estranheza ou reflexão na plateia. Nomes atuais como “O Lagosta” (2015) e “Um Cadáver Para Sobreviver” (2016) se utilizam do humor negro não exatamente para nos fazer rir de uma piada, e sim rir do descontentamento exibido na tela.

Em 2017 temos o primeiro grande exemplar do humor negro na comédia americana com “Colossal”. Estrelado pela ganhadora do Oscar (e do coração de milhões de fãs) Anne Hathaway, a queridinha vive Gloria, uma escritora desempregada e alcoólatra que mora com seu namorado, Tim (Dan Stevens). Depois da milésima mentira contada por ela para esconder o fato de que está chegando em casa bêbada, Tim termina o relacionamento, o que a leva a voltar para sua cidade de infância. Na cidade, ela reencontra Oscar (Jason Sudeikis), dono de um bar local e velho amigo da protagonista, que a ajuda a recomeçar sua vida.

A construção da personagem de Hathaway é basicamente um clichê ambulante que tenta ser “cool” pelos seus trejeitos. Ela é desengonçada, bêbada, sem grande apelo social e com vício de coçar o topo da cabeça. Dos seus cabelos desgrenhados até as roupas, tudo é composto para gerar a áurea “maneira” e “descolada” da personagem (reflexo da áurea que o próprio filme quer assumir para si), que acaba sendo um grande e óbvio esforço cinematográfico não bem sucedido. Nem todo o carisma da atriz consegue dar fôlego num papel tão batido.


Todos os elementos primários de “Colossal” renderiam um drama, mas o diretor/roteirista Nacho Vigalondo, diretor do interessantíssimo "Crimes Temporais" (2007), injeta cavalares doses de elementos "indie" e, por que não?, "nerds" em sua trama. Ao mesmo tempo em que Gloria retorna à cidade natal, um kaiju aparece destruindo Seul, na Coreia do Sul – kaiju nada mais é que um monstro no estilo Godzilla, e é aqui mesmo, nessa óbvia referência, que o longa dá boas vindas ao lado nerd, quando nos pegamos relembrando varias criaturas gigantes que destruíram o cinema ao longo dos anos, como o próprio Godzilla, King Cong e o Cover, o alien da franquia "Cloverfield" (2008).

Mas fugindo do padrão dos monstros citados, “Colossal” traz o nonsense quando a responsável pelo surgimento do monstro em Seul é a própria Gloria: sempre que ela passa por um parquinho na cidade às 8:05h da manhã, a criatura se materializa no outro lado do planeta e faz exatamente o que ela faz. A cena em que ela descobre que é a “culpada” pelo evento de maior impacto global no momento é, de longe, a melhor da película, orquestrada com belo requinte de tensão quando vamos acompanhando a protagonista descobrir o óbvio.


Já está bem evidente que o espectador deve comprar o ingresso dessa loucura para a história funcionar (quais as chances de Gloria passar na hora exata e no local exato para que apareça o monstro e quais as chances de isso se repetir?). Como se não bastasse ter um monstro assassino nas suas costas (mesmo sem querer), Gloria ainda tem que lidar com todos os problemas de sua vida: o término com Tim, sua conta bancária zerada, sua casa sem móveis e seu problema com o álcool.

Oscar, que de início se mostrou um salva-vidas para Gloria, dando um emprego a ela em seu bar e até ajudando a mobiliar a casa, vai pouco a pouco mudando sua persona quando a protagonista se interessa por um dos amigos dele, Joel (Austin Stowell). A situação piora quando ele descobre o “poder” de Gloria e, ao ir ao parquinho no mesmo horário, outro monstro gigante surge em Seul, dessa vez um robô, controlado por ele.


Até aqui, o filme corre meio cambaleante, mesmo sem cair de cara no chão, porém tudo começa a desandar quando Oscar deixa de ser o prestativo moço para se tornar um abusador e manipulador. É claro que o personagem foi construído para ser detestado pela plateia, e sua posição de “vilão” é óbvia, porém as situações não fazem o menor sentido. Basicamente ele começa a manipular Gloria, ameaçando usar seu avatar para destruir Seul caso ela não obedeça. Mas espera, se ele fizer isso, o que ela tem a ver? Sim, ela contou sobre seu avatar, o que fez Oscar descobrir o dele, todavia, se ele usa a criatura para o mal é totalmente fora da jurisdição dela. Mas, dentro do filme, isso não existe, pois ela cede a tudo, inclusive rejeitando Tim, que vai até a cidade pedir para que ela volte com ele. Oscar se gaba em dizer que Gloria está na palma da sua mão.

A partir de então o filme se torna uma briga patética entre os personagens, e fica difícil saber quem é mais insuportável: Oscar, por ser um completo imbecil, chegando a agredir a protagonista, ou Glória, que aceita tudo quando poderia simplesmente pegar suas coisas e ir embora. As motivações para a situação chegar até aqui são ainda mais risíveis: a dor de cotovelo de Oscar, que deseja de forma doentia uma mulher que ele não vê há anos e que está na sua cidade há apenas alguns dias. Precisamos, sim, comprar o ingresso do absurdo para lidar com a premissa, mas o roteiro extrapola o limite do aceitável com momentos verdadeiramente irritantes.

Na verdade, todo o filme poderia ser resolvido com sessões de terapia, o que se comprova quando Gloria se lembra do motivo para todo esse caos: quando crianças, um raio caiu sobre ela e Oscar. Cada um segurava um brinquedo, que são exatamente seus avatares em Seul (como ela não se lembrou do ocorrido quando viu os avatares, que são IGUAIS aos brinquedos?). Gloria também lembra que Oscar destrói um projeto dela porque “ele se odeia” (?). E é isso que “explica” as ações do personagem. Ele se odeia. Ah, tá.


Um dos lados do prisma mais interessantes da obra é a posição que Gloria assume perante Oscar. No recente "A Garota no Trem" (2016) temos uma situação parecida de misoginia onde a personagem principal aceita diversas humilhações vindas de um homem - todavia, com justificativas sólidas, o que não a deixa como uma boboca. Não contente em jogar os dados em vários gêneros, "Colossal" tenta ainda soar feminista, com a iminente reviravolta na situação de Gloria no clímax.

A solução do filme é ainda pior: como Oscar agora é um maníaco assassino que está matando inocentes em Seul, Gloria vai até a Coreia do Sul para, de lá, levar seu avatar até o parquinho e acabar (ou “matar”, sendo mais claro) com Oscar, arremessando-o no horizonte. Sim, a garota que não tinha dinheiro para os móveis da própria casa conseguiu chegar de avião até Seul. Numa rápida pesquisa, se você quiser sair dos EUA até Seul hoje, as passagens custam, no mínimo, R$ 5.500. Faz todo e absoluto sentido para alguém falido.

“Colossal” é um filme que atira em vários gêneros e referências. Há a comédia com os diálogos, há ficção científica com os monstros, há ação com as lutas, há lampejos de “Transformers” (2007), de “Avatar” (2009) e de diversos outros filmes, e há, também, o derradeiro posicionamento feminista quando a protagonista, depois de ser tão massacrada pelo macho opressor, acaba com ele quando o mesmo grita "Me coloque no chão, sua vadia!". No entanto, nenhum desses tiros consegue acertar com maestria a colcha de retalhos que o longa costura.

Há toda uma veia filosófica quando temos a ligação entre os dois protagonistas e seus avatares, numa metáfora que diz que todos nós temos nossos monstros internos (o que só reitera a necessidade de um psicólogo para esses personagens), o que no papel é fonte de muito material, que renderia uma apropriação válida do cinema como ferramenta de discussão, porém, com todos os furos, os personagens incongruentes e uma resolução gratuita que parece (mas só parece) feminista, eis um filme tenta ser original e profundo, mas soa como um vazio colossal.