Crítica: o amor é de todas as cores no incandescente e provocante "Azul é a Cor Mais Quente"

"Azul é a Cor Mais Quente" é, além de um fenômeno cinematográfico, uma das mais poderosas histórias de amor já feitas na Sétima Arte

Quando “Azul é a Cor Mais Quente” começou a ser divulgado, antes mesmo da sua estreia no Festival de Cannes em 2013, o que mais se falava era sobre suas cenas de sexo. O diretor prometia longos planos íntimos das protagonistas, o que gerou uma impressão errada. Ele é muito mais que isso. Felizmente, o júri do festival conseguiu abrir essa espessa cortina e ver toda a complexidade do longa, que ganhou de forma unânime (um dos três filmes nesse século a conseguir o feito) a Palma de Ouro, o maior prêmio do festival e um dos maiores do mundo.

A entrega da Palma foi um momento único. Desde que foi implementado, em 1955, o prêmio é dado para o diretor do filme vencedor. Abdellatif Kechiche, diretor de “Azul”, recebeu a honraria, mas ao lado das duas protagonistas, Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux, sendo a primeira vez que o prêmio é dado para alguém além do diretor. Com isso, Adèle e Léa se tornaram as únicas mulheres, juntamente com a diretora Jane Campion, a ganharem o prêmio máximo, com Adèle sendo a mais nova da história (apenas 20 anos à época).

Imagem: Divulgação/Internet
“Azul é a Cor Mais Quente” é baseado num quadrinho de mesmo nome lançado em 2010 por Julie Maroh. Conta a história de Adèle, uma garota de 15 anos como qualquer outra. Ela vai à escola, conversa com suas amigas sobre garotos e tudo mais. Nessa grande fase do descobrimento, ela encontra na rua uma garota de cabelos azuis, que a deixa hipnotizada (sendo quase atropelada em seguida). Com aquela imagem na cabeça, ela continua sua vida e fica com Thomas (Jérémie Laheurte, namorado de Exarchopoulos na vida real), mas aquela relação não a completa. Ela ainda pensa na menina de cabelo azul. É aí que a menina, Emma, aparece na sua vida para mudá-la completamente.

Adèle é uma personagem imediatamente cativante, ela é uma garota aberta para o mundo. Seus olhos estão sempre abertos, seu nariz, sua boca. Como se ela tentasse consumir o máximo do que existe para formar quem ela é. E Adèle come. Come MUITO. Comida, livros, pessoas, o mundo. Aí entra Emma, com seus cabelos azuis. Enquanto Adèle é uma estudante de Literatura do ensino médio, Emma já está na faculdade, graduando-se em Belas Artes. “Existem as ‘Artes Feias’?”, questiona Adèle sobre o curso. Enquanto esta é curiosa, afinal, está desabrochando para o mundo agora, Emma possui um ar misterioso, regado pela sua experiência. Ela sabe o momento de olhar, de falar, de agir, enquanto Adèle fica perdida sem saber o que fazer. Suas grandes bochechas avermelham-se com facilidade, seus olhos tropeçam e ela ri de nervoso. Emma permanece sempre intacta. E as duas se conectam de forma impressionante.

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O filme trata de um amor lésbico. O principal defeito de filmes com temática LGBT, principalmente os romances, é colocar o espectador numa posição de observador. As pessoas da tela são seres estranhos, quase tratados como animais num zoológico, ali fixos para nossos olhos apenas. Abdellatif Kechiche então quebra essa barreira e joga a câmera nos detalhes: close-ups estão por todo o filme e focam os olhos das atrizes, as bocas, as mãos, as costas, os sexos. Nós então deixamos de ser meros observadores para fazermos parte do relacionamento, tamanha proximidade que temos com o casal.

Nós estamos bem próximos das primeiras trocas de olhares, das conversas, do primeiro beijo e do sexo. Principalmente do sexo. A primeira sequência tem nada menos que oito minutos ininterruptos. Não é algo verdadeiramente explícito, mas é bem, bem perto. E tudo é filmado sem pudor. As atrizes estão realmente dentro da cena, e demonstram uma intimidade absurda: demonstrar conexão da forma que é mostrado é algo raríssimo – alguns casais reais não possuem tamanha conexão. Tudo é filmado de forma seca e sem maquiagem. Não há grande fotografia, não há trilha sonora, há apenas a naturalidade de duas pessoas fazendo sexo.

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Aqui habita o maior acerto do filme: seu naturalismo. Todo o desenvolvimento é feito com bastante calma e cuidado, fazendo com que os acontecimentos ocorram de forma translúcida. “Azul” tem três horas de duração, mas não há momentos gratuitos; é tudo feito para compor o ritmo perfeito, para nós amarmos as personagens numa forma próxima do que elas se amam. 

Ao começar a sair com Emma, Adèle é confrontada na escola, uma fatia que toda pessoa LGBT infelizmente já provou. Ao invés de uma abordagem amigável, ela é (literalmente) cercada pelas “amigas” e apontada de forma pejorativa como “sapatão”. Adèle então parte para cima de uma que começou a descer o nível, repetindo exaustivamente que não é lésbica. A negação aqui não é apenas externa. Mesmo vivendo com Emma, Adèle esconde sua relação. Quando ela vai à casa de Emma e conhece seus pais, ela é tratada como namorada. Quando Emma vai à sua casa, é apenas uma amiga que a ensina Filosofia (e que tem namorado).

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Nesses jantares familiares somos introduzidos às realidades das duas, algo não tão explorado, já que as conhecemos a partir dos olhares de Adèle. Emma, na casa de Adèle, come macarronada e conversa sobre seu namoro, provas e trabalho, num formato classe-média. Adèle, na casa de Emma, conversa sobre arte, paixão, e os mistérios da vida – enquanto come ostras. A diferença social é evidente, mais uma diferença entre as duas, que parecem não dar muita bola para isso (o que é ótimo e assimilado pelo espectador de forma delicada).

Não sabemos exatamente quanto tempo vai se passando no decorrer do filme, havendo elipses que às vezes impactam. A maior delas é quando as duas passam a morar juntas e Emma tira os cabelos azuis. O que poderia ser apenas uma escolha de estilo tem peso primordial na trama. O título do filme é “Azul é a Cor Mais Quente”. Desde sempre sabemos que o azul é, na verdade, uma cor fria, mas para Adèle o azul é quente, misterioso e desafiador. Quando Emma retira a cor da sua cabeça é uma metáfora para o esfriamento da relação. Ela deixou de ser quente.

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Emma passa a ficar cada vez mais emocional e fisicamente distante de Adèle, que se torna o estereótipo de “mulher perfeita”: cozinha para Emma e seus amigos, posa ao lado da amada, sendo a musa do seu trabalho. Mas até Emma sabe que aquilo não faz Adèle completa. “Eu queria que você fosse feliz”, diz ela depois de uma exposição. Mesmo Adèle afirmando que está feliz, seus olhos parecem tristes. O fogo de Emma apagou com seus cabelos.

Assim como temos o deleite de amar junto com as duas, sofremos com as brigas e os desentendimentos. Em uma cena, Adèle vai à praia. Ela, tentando cobrir toda a dor que sente no momento, entra o mar e fica boiando. A câmera de Kechiche a rodeia até focar em seu rosto inerte, enquanto ela é coberta pela imensidão azul. Mais uma vez temos o simbolismo da cor: o que antes representava euforia para a protagonista agora revela tristeza. Ali é como se ela esperasse que o azul do oceano a tragasse para suas profundezas, ou até mesmo se deitar naquele mar da cor que ela tanto ama. É uma cena simples, porém de riqueza emblemática.

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Mas uma produção como essa não escaparia sem polêmicas. Já no lançamento da obra, repórteres criticaram as "más condições de trabalho" enquanto técnicos da produção acusaram o diretor de "abuso". Seydoux foi a público defender o filme e o diretor, dizendo: "Eu disse sim que [o filme] foi difícil. A verdade é que foi extremamente difícil, mas isso é ok. Eu não me importo por ter sido difícil, eu gosto de ser testada. A vida é tão mais difícil. Ele [o diretor] é muito honesto e eu amo seu cinema". Além disso, por que não escalar atrizes lésbicas para viver as protagonistas? Questões de representatividade são, sim, bastante importantes para o cinema, porém, pela forma como tudo foi feito, com tamanho esmero, o longa se torna uma relevante voz – assim como "Transamérica", "Clube de Compras Dallas" e outros exemplares.

"Azul é a Cor Mais Quente" é uma das maiores histórias de amor que o Cinema já fez, nos dando o privilégio de quase fazer parte de toda a magia que se desenvolve desde o começo entre as magníficas atrizes, dois monstros na tela que entregam performances a serem lembradas pelo resto da eternidade. Ao reduzir ao máximo a distância entre o lado de cá e o ecrã, o diretor consegue compor algo íntimo para quem assiste, jogando cargas de sentimento implacáveis que nos deixam sem ar. E não importa qual orientação sexual é a sua. O filme levanta a bandeira LGBT, mas o fato de se tratar de um romance lésbico é coadjuvante no real enfoque da película, que é, acima de tudo, o amor, e como ele é o sentimento mais complicado (e necessário) que existe.