Crítica: "Fragmentado" e a banalização de doenças mentais para nosso entretenimento

O novo filme de M. Night Shyamalan tenta trazer sua antiga glória em tempos de "13 Reasons Why" e a discussão sobre doenças mentais

Atenção: essa crítica contém detalhes da trama, sem entregar a reviravolta final.

Se você não for da roda cinéfila, provavelmente não saberá quem é M. Night Shyamalan, mas com certeza você conhece seus filmes. O diretor indiano foi um dos maiores nomes do cinema norte-americano a surgir no final da década de 90 com "O Sexto Sentido", aquele filme do garotinho que via gente morta. O longa foi um fenômeno, arrecadando mais 700 milhões de dólares em bilheteria e rendendo seis indicações ao Oscar, incluindo "Melhor Filme", "Diretor" e "Roteiro Original".

Os louros de M. Night. perdurariam com seus próximos filmes: "Corpo Fechado" (2000), "Sinais" (2002) e "A Vila" (2004), esse último sendo mais controverso e dividindo a plateia pelo seu final. E é aqui que reside a força do cinema shyamalaniano: seus filmes possuem finais surpresas de cair o queixo, além de um clima de suspense aterrorizante. E, claro, o diretor, imitando Alfred Hitchcock, sempre faz pontas em seus próprios filmes, um pequeno, mas notável, traço do seu cinema.

Imagem: Divulgação/Internet
Porém Shyama (para os íntimos) sofreu algum dano que fez com que a qualidade dos seus filmes despencassem - dentro, obviamente, dos parâmetros subjetivos que percorrem a arte que é o cinema (ou qualquer uma, na verdade). Filmes como "Fim dos Tempos" (2008) e "O Último Mestre do Ar" (2010) jogaram seu nome na lama e sepultaram um diretor outrora tão genial.

Em 2015 então veio o "renascimento" com "A Visita", mistura de terror com comédia que viria para reascender o nome de M. Night. Todavia, o filme ficou só na tentativa. Não que ele seja realmente ruim, mas é descartável e esquecível, o que fez com que o diretor tentasse mais uma vez em 2017 com "Fragmentado", dessa vez com uma pegada mais "séria". Será que agora vai?

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"Fragmentado" conta a história de Kevin (James McAvoy), um homem que possui transtorno dissociativo de personalidade. Kevin não é apenas Kevin: dentro dele tem 23 personalidades diferentes, tanto masculinas quanto femininas. Certo dia ele sequestra três garotas, Casey (Anya Taylor-Joy), Claire (Haley Lu Richardson) e Marcia (Jessica Sula), que lutarão para fugir enquanto Kevin espera o nascimento da 24ª personalidade, que ele chama de "A Besta".

Antes mesmo da estreia da obra, M. Night enfrentou bastante crítica pelo teor do filme: mais uma utilização negativa de uma doença mental. Diversas manifestações pela internet surgiram, incluindo a carta aberta da Doutora Michelle Stevens, especialista em "duplas personalidades" (e paciente da própria doença). O texto, reproduzido pelos maiores sites de notícia americanos, dizia:

'Fragmentado' é um suspense sobre um sociopata com múltiplas personalidades que segue uma longa tradição de filmes como 'Psicose', 'Vestida Para Matar', 'Clube da Luta'. Quando você e outros em Hollywood zombam da nossa doença, é nada diferente de um estudante que zomba de uma criança deficiente. Você faria um filme sobre uma pessoa com Síndrome de Down que tem fantasias sexuais doentias? Você escreveria um roteiro sobre um assassino com autismo? Claro que não. Seria condenável. Então por que é certo ridicularizar minha doença mental?

Acho que temos um ponto aqui. Mas essa generalização não seria exagerada? As pessoas não deixaram de visitar o Texas achando que todos os habitantes seriam insanos psicopatas depois de "O Massacre da Serra Elétrica", não é mesmo? Bem, é verdade que "Fragmentado" por si só não dará o rótulo de "perigoso" para quem sofre da doença do protagonista, no entanto, como bem pontua Dra. Stevens na carta, o filme é mais um bloco que constrói estereótipos sobre doenças mentais, tão banalizadas e até romantizadas na nossa sociedade.

“Fragmentado” inicia-se com um tom bastante sarcástico e sombrio, o que é característico do cinema de Shyama no auge da criatividade. As garotas são trancadas no subterrâneo e, enquanto tentam achar formas de fugir, vão conhecendo algumas personalidades de Kevin. Casey, interpretada pela revelação de “A Bruxa”, faz uma manipuladora amizade com Hedwig, personalidade de um garoto de nove anos, o que a faz explorar o cativeiro, enquanto as outras garotas, mais desesperadas, não são tão sutis em suas abordagens em busca da liberdade.

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O maior foco do filme está, claramente, na atuação de James McAvoy. Ele não interpreta de fato todas as 24 personalidades, apenas algumas delas, porém não consegue orquestrar personagens realmente marcantes e tão diferentes um do outro – com exceção de Hedwig. Outro fator primordial para o não sucesso da película é que nunca, em momento algum, o perigo iminente da chegada da tal Besta é palpável na tela – e através dela. As garotas passam até por uma tensão, mas do lado de cá do ecrã a tal entidade representa medo nenhum, o que faz com que sua chegada seja insossa – e até um pouco fantasiosa demais.

No meio de tudo isso está a Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley), psicóloga que cuida de Kevin e acredita que a doença dele é uma porta de abertura para a expansão da mente. Ela trata Kevin quase como um pupilo, a cobaia perfeita para seus estudos. A personagem é uma daquelas que previsivelmente irá descobrir a real natureza do seu paciente e consequentemente cair em suas garras, sem antes deixar de forma explícita o modo de combatê-lo. É o deus ex machina que aparece para Casey conseguir se safar, um mero peão para a conquista da protagonista – uma artimanha tão clichê de tantos filmes de suspense/terror.

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Entretanto, antes disso, para dar aquele peso no roteiro, M. Night decidiu introduzir flashbacks na vida de Casey, mostrando que ela é abusada pelo tio desde a infância, algo que ela jamais conseguiu confrontar. Tal trama serve exclusivamente para que, quando Casey enfrente a Besta, ela passe por uma superação e finalmente consiga enfrentar um monstro em sua vida, culminando no final dúbio onde não sabemos se ela volta para a casa com o tio ou não. Tratar de tema tão sério como mera ferramenta narrativa é um tiro no pé.

“Fragmentado” nem chega a ser uma tragédia como “O Último Mestre do Ar”, por exemplo, porém é um erro tanto por ser só mais um filme esquecível na há tempos maculada filmografia de M. Night Shyamalan quanto por se utilizar de uma doença banalizada em prol do entretenimento. Estamos em plena febre da série “13 Reasons Why”, que discorre sobre a importância de falarmos sobre a depressão e doenças mentais, então um longa como esse nada contra a maré. Há diversos elementos, tantos narrativos quanto de composição, que dão o empurrão para que "Fragmentado" teoricamente voe alto, mas quando temos os múltiplos personagens não funcionando, uma atmosfera de tensão inexistente e ainda uma cena final extremamente vazia, mesmo que nostalgicamente bacana, é a prova de que não foi dessa vez, M. Night. Como eu disse após assistir “A Visita”, continue tentando. Um dia vai.