Apesar de alguns deslizes, ainda há encanto em "A Bela e a Fera"

Você está convidado a se encantar.

"Tudo é igual, nessa minha aldeia...". Se você reconhece este trecho, e até mesmo sabe continuá-lo, certamente ficará feliz com o resultado do novo "A Bela e a Fera" (2017), live-action da Disney para a animação clássica de 1991, que é um dos maiores sucessos do estúdio e foi o primeiro filme do gênero a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme (categoria com apenas cinco indicados, na época), conquistando duas estatuetas douradas para a casa do Mickey — e posteriormente trilhando caminho à Broadway, com o nascimento de uma divisão da empresa destinada estritamente ao teatro.  

Nesta adaptação, dirigida por Bill Condon ("Dreamgirls", 2006; "Saga Crepúsculo: Amanhecer", 2011 e 2012) e roteirizada por Stephen Chbosky ("As Vantagens de Ser Invisível", 2012) e Evan Spiliotopoulos ("O Caçador e a Rainha de Gelo", 2016), a Disney busca reapresentar sua produção animada ao público (e à bilheteria), como fez com "Mogli: O Menino Lobo" (2016), "Cinderela" (2015) e "Malévola" (2014). Seguindo os passos dos dois mais recentes, "A Bela e a Fera" apresenta conteúdo adicional àquilo que foi visto no longa animado, mas mantêm-se fidedigno à produção original. Esta decisão do estúdio de manter-se seguro pode incomodar a um público sedento por reviravoltas, mas agrada aos fãs mais puristas, que de fato constroem o arrecadamento financeiro do filme.

Com Emma Watson (marcada por interpretar Hermione na saga "Harry Potter" [2001-2011])  no papel de Bela (oscilando entre ótima, nas sequências mais dinâmicas e de cunho emocional, e apática, nas demais) e Dan Stevens (das séries de TV "Downton Abbey e "Legion") como Fera, a nova versão consegue construir um romance crível entre o duo protagonista, mas se destaca mesmo com a performance e o espaço dado a seus coadjuvantes; Luke Evans e Josh Gad, ambos com background forte no teatro musical, brilham como Gaston e Le Fou, respectivamente, e a constelação de atores por trás dos objetos mágicos (entre eles, Ewan McGregor, Emma Thompson, Ian McKellen, Audra McDonald, Stanley Tucci e Gugu Mbatha-Raw) atinge o carisma necessário a estes personagens. 

É nos quesitos técnicos que a produção encontra seus maiores prós e contras: a trilha, novamente conduzida por Alan Menken, emociona; as novas canções, em especial "How Does a Moment Last Forever", "Days in the Sun" e "Evermore", arrepiam e são dignas das grandes premiações; o design de produção é belo e preciso; o figurino obedece (em sua maior parte) ao contexto histórico (fator ignorado na animação) e a maquiagem funciona nas situações em que faz-se necessária. Em contraponto, a montagem é terrível; entrega um problema de ritmo forte no primeiro ato, em que algumas cenas são "apressadas" com cortes pontuais na conclusão de diálogos e outras são "estendidas" e demoram mais do que o necessário. Há também problemas em manter a fluidez narrativa, com sequências editadas para uma organização episódica. O CGI, por sua vez, é suntuoso em certos momentos, mas falha de forma frustrante em relação ao visual da Fera, por vezes semelhante à computação amadora.

A direção de Bill Condon é bastante dúbia: falha em diálogos-chave, em que o desempenho dos protagonistas não está ao máximo, mas acerta precisamente no teor teatral dos números musicais — o ápice de todo o filme, com "Belle", "Gaston" e "Be Our Guest" figurando entre as melhores cenas. Quanto ao conteúdo inédito, apesar de ser relativamente pouco (em seus 45 minutos), consegue ser necessário, entreter e funcionar. A cena da transformação final, por exemplo, encontra uma interessante participação dos objetos mágicos, no intuito de reavivar o aspecto comovente que a consiste. E, em reação à representatividade, a Disney (uma empresa em prol da diversidade) dá pequenos (e importantes) passos que contestam ideais retrógrados, trazendo dois personagens LGBT (que, ao contrário do esperado, não recaem com força em estereótipos) e casais interraciais. 

"A Bela e a Fera" é um blockbuster dentre os melhores do estúdio, que apesar dos defeitos, agrada em quesitos gerais, sendo uma obra que atende às expectativas dos fãs e funciona no que propõe. Pode não soar tão encantador aos exigentes por inovação, mas consolida-se como uma boa obra de entretenimento, que reconhece seu público e o delicia com pompa visual e prazer nostálgico.