Anitta não é branca, mas podem avisá-la que, no Brasil, existem brancos sim

Para o caso de ainda não estar claro, viemos escurecer.

A música nacional historicamente serviu de palco para algumas das maiores demonstrações práticas sobre como funciona a apropriação cultural e o dito whitewashing (expressão em inglês que descreve o “embranquecimento” dos meios culturais, como a substituição de artistas e personagens negros por padrões brancos no cinema, teatro e TV) e isso talvez explique a razão de muitos artistas negros buscarem, ao primeiro passo que alcançam o mainstream, “colorir” o seu trabalho e persona, a fim de evitar ser jogado para escanteio ou, como assistimos inúmeras vezes, substituído por algum favorito mais conveniente.

Entender esse ponto, desde já, se torna crucial para a compreensão da discussão como um todo, que vai bem além do penteado que Anitta usou ou deixou de usar no último carnaval.

Vinda da periferia, sob um gênero marginalizado e visto como pejorativo por suas origens da favela, Anitta conquistou muitos títulos ao longo de sua carreira, mas seu mais recente pode ser o que menos te dê orgulho: no intervalo recorde de quatro anos, a cantora partiu de discussões sobre o suposto clareamento da sua pele às acusações de, após gradualmente ser considerada branca, se apropriar da cultura negra. 


É difícil atribuir culpados dentro dessa narrativa, uma vez que, ainda em 2013, quando foi questionada por supostamente estar “branca demais” pelo The Guardian, Anitta rebateu: “Meu pai e família dele são negros (...) e a minha mãe é branca. É que estou sem tempo de ir à praia. Quando eu for, você vai ver: volto neguinha”. Mas em meio aos tantos questionamentos e massiva desinformação, é valioso que desmitifiquemos e desconstruamos o que estiver ao nosso alcance, a começar pela mudança de postura da própria cantora.

Bastante inspirada por artistas como Beyoncé e Rihanna, não é difícil perceber de onde vêm as influências de Anitta para o seu visual, incluindo as vezes em que apareceu usando tranças rasteiras nos últimos meses, e apesar de ambas as artistas internacionais terem pautado tópicos como o racismo, empoderamento feminino e negro em seus recentes trabalhos, esse repertório teórico é o que ainda inexiste no caso de Anitta, que em resposta à ultima polêmica, afirmou para a Folha de S. Paulo: “No Brasil, ninguém é branco”.

E se enganou.

Embora tenhamos passado por um longo processo de miscigenação, que explica as inúmeras variações de tons de pele e quantidade de pessoas autodeclaradas pardas, o Brasil ainda lida com o racismo do país que foi um dos últimos a abolirem a escravidão e, a cada 23 minutos, assassina um jovem negro. De forma que usar de nossas pluralidades e misturas para alegar que não existem brancos, é um triste e perigoso caminho que fomenta a deslegitimação da luta negra, assim como relativiza as estatísticas, que não nos deixam mentir.

Na época em que questionou o embranquecimento da cantora, a publicação do The Guardian ressaltou a possibilidade disso acontecer pelo branco e seus padrões serem esteticamente mais aceitos, o que tornaria a imagem da cantora “vendável” para um público mais amplo, não tornando-a nichada aos fãs do funk periférico e que, até hoje, segue de maneira independente por baixo da onda dominada por grandes gravadoras e seus investimentos. 

Neste ponto, voltamos então para uma palavra utilizada no primeiro parágrafo deste texto: conveniência. Na qual a brasileira não se lê como uma pessoa branca quando acusada de uma prática racista, mas permite o debate ambíguo de forma omissa ou mal explicada quando tem a oportunidade de usufruir de “privilégios” (ênfase nas aspas) por conta da sua pele mais clara e todo o processo que coloriu o seu eu artístico até aqui.

É óbvio que, enquanto pessoa, Anitta tem a chance de errar e aprender com seus erros. Um bom exemplo foi a sua evolução nos debates sobre feminismo, que te deu segurança para discursar sobre o tema até mesmo em seus shows e entrevistas. Porém, enquanto pessoa pública, também é inevitável que cobremos posicionamentos mais responsáveis, uma vez que, sendo uma das maiores artistas brasileiras da atualidade, numa entrevista para um dos principais veículos de massa do país, sua fala voz tem peso e, mesmo que não tenha sido mal intencionada, se torna significativa dentro de um cenário em que já perdemos e retrocedemos tantos anos em apenas alguns meses.