A gente vai se ver na Globo?

Quando movimentos sociais conquistam um espaço dentro de uma das maiores emissoras de televisão do país para discutir sobre as opressões e a forma como lutam contra elas, de quem é o lucro?

Existe um blog chamado “Quem a homofobia matou hoje?”, que diariamente nos atualiza com reportagens sobre pessoas LGBTs que tiveram suas vidas tiradas no Brasil. O país da diversidade, do carnaval e do futebol, é também o que mais mata transexuais, travestis, homossexuais e bissexuais em todo o mundo e, segundo uma pesquisa realizada pelo grupo Gay Bahia em 2016, estima-se que um LGBT morra a cada 26 horas.

Há pouco menos de vinte e seis horas, independente de sua posição política, orientação sexual, gênero, etnia e idade, quem estava com a televisão ligada na Globo, teve sua casa tomada por artistas, ativistas e pessoas públicas LGBT, que se abriram sobre as dificuldades em viver dentro de um país intolerante, desmitificaram os grupos que integram e representam e, de forma descontraída, modelada como entretenimento, deram uma verdadeira aula sobre o que é ser aqueles que morrem todos os dias apenas por serem quem são.

O programa que serviu de palco para todo esse show foi o “Amor & Sexo”, comandado pela Fernanda Lima, e levando em consideração as últimas edições dessa temporada, é esperado que as bandeiras dessas e outras minorias sigam sendo levantadas por mais algum tempo — e isso é maravilhoso!

Não, ninguém se esqueceu de quem é a Globo. A emissora tem um passado e presente que a condenam, é relembrada o tempo inteiro sobre ter apoiado um golpe político no Brasil há alguns anos e, refrescando nossa memória, apoiou outro anos depois. Em sua programação, fomentou estereótipos racistas, machistas e LGBTfóbicos e, após perceber que não poderia mais tratar essas fatias da população com tamanho desrespeito e indiferença, viu a oportunidade de abraçá-los. Abraçar-nos.

Quando se fala em representatividade e visibilidade, não podemos ignorar a necessidade de ocupar os espaços e, cientes de que esse diálogo não deve se limitar aos que já estão do nosso lado e compreendem nossas lutas, é inevitável que nos apropriemos também de palcos que nem sempre nos serviram para o bem, de forma que nossos discursos possam alcançar um número cada vez maior de pessoas.


Uma das convidadas da última edição do “Amor & Sexo” foi MC Linn da Quebrada, uma cantora negra, transexual e periférica, que se autointitula uma “bicha preta, louca e favelada”, e ao cantar sua nova música de trabalho, o afronte dançante de “Bixa Preta”, ela não só promoveu seu material enquanto artista, como fez do programa o palco para o seu discurso.

“Se tu for esperto, tu vai logo perceber que eu já não tô de brincadeira. Eu vou botar é pra foder.”

Outro destaque ficou para Liniker, artista que dispensa limitações de gênero e, usando vestido e batom, realizou uma performance da canção “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque, que retrata a história de Geni, uma travesti que, como muitas outras, é literalmente apedrejada por conta de sua condição inferiorizada pela sociedade.


A apresentação cheia de interpretação é interrompida quando Liniker apresenta os dados que abriram esse texto, concluindo com a afirmação de que isso tem que acabar: “Só assim poderemos nos redimir”.

Outras artistas LGBTs, como Pabllo Vittar, Gloria Groove e As Bahias e a Cozinha Mineira, também passaram pela programação, que contou com a consultoria de Jaqueline Gomes de Jesus, mulher trans, negra, doutora em psicologia social e pós-doutora em trabalho e movimentos sociais.

Não se ganha e mantém por tantos anos o título de maior do Brasil sem ser esperta nos negócios e, enquanto uma empresa, é óbvio que a Globo olhará para os grupos sociais como nichos de mercado, fatias que ainda pode abocanhar como telespectadores. E, mesmo que gradualmente e sob muita resistência, isso tem surtido efeito: semanalmente, a timeline das redes sociais se divide entre os que comemoram o espaço ocupado na programação da emissora e os que criticam a comemoração do primeiro grupo. No final, todos assistem.

Ainda assim, também não podemos negar que, embora não saibamos quais são todas as reais motivações da cúpula global, esse espaço ocupado significa um passo importante para essas minorias, que semanalmente têm a oportunidade de invadir “a tela da tevê” daquela sua tia homofóbica, daquele seu vizinho machista e colega de trabalho racista — um pessoal que dá zero fodas para os textões que você compartilha no Facebook, seja por achá-los chatos, discordar ou sequer entender — para darem a cara à tapa e baterem de volta também.

Tudo está ao nosso alcance nas bolhas que são as redes sociais, nas quais bastam alguns cliques para nos livrarmos do que nos incomoda e outros para nos rodearmos do que nos agrada e representa, mas é na televisão que ainda se concentra o maior poder de influência dos meios de comunicação no Brasil e, uma vez ocupado esses espaços, nossos discursos ecoarão alto demais para serem ignorados. O que não podemos é nos acomodar e acreditar que, por conta de alguns minutos de exposição, nos livramos das violências e opressões de cada dia, até porque, se fosse tão simples, não chamaríamos de luta.


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