"O Chamado 3" quer desesperadamente criar algo novo para a franquia, porém se torna dispensável

Em contrapartida, traz grande potencial para futuros filmes.

Após uma boa leva de anos banhados em rumores, produção, pós-produção e adiamentos, "O Chamado 3" finalmente chegou aos cinemas ontem, acompanhado de uma ousada, porém nem um pouco nova, proposta para a franquia. Se render bons números com a nova produção, certamente deve voltar para assombrar aqueles que têm pavor de Samara.

O maior desafio dos inúmeros roteiristas que cuidaram de "O Chamado 3" era criar algum gancho que permitisse o novo filme. Subtitulado "O Círculo Se Fecha", a sequência do primeiro filme anula qualquer possibilidade de Samara voltar a assombrar às pessoas com sua fita, porém isto não pareceu um problema. Como esperado, "O Chamado 2" é ignorado e é a partir deste ponto que os problemas surgem em tela. Mas vamos com calma.

"O Chamado 3" não traz de volta os Keller ou ao menos os cita — oportunidade teve — e resolve caminhar com seus próprios pés, buscando uma nova história e personagens. Na nova trama, acompanhamos Julia (Matilda Lutz), que após o desaparecimento do namorado Holt (Alex Roe), acaba se envolvendo com o misterioso vídeo que mata pessoas. Inclusive, o vídeo nunca esteve tão popular, sendo conhecido por muitos.

O longa-metragem de F. Javier Gutiérrez usa e abusa daquilo que tornou o curta "Rings" bom, porém de sua maneira. Somos apresentados a um "culto" à Samara que toma conta de boa parte do primeiro ato. Inclusive, é a por conta dele que a produção caminha muito bem na primeira meia hora, fazendo com que o espectador fique instigado a querer descobrir mais sobre tal culto. Apesar da morte repentina do arco, ele deve, felizmente, voltar nos próximos filmes.

A vontade de criar algo realmente novo para a franquia é exorbitante, porém não justifica as escolhas tomadas para tal inovação. Pela terceira vez, enxugam ao máximo a história de Samara, mais especificamente de sua mãe e pai biológicos. A sensação que permanece é de que tal exploração de mitologia não é necessária, causando grandes confusões para aqueles que sequer se recordam dos primeiros filmes, gera furos no roteiro e traz soluções um tanto quanto convenientes no mesmo.

Em consequência aos pontos escolhidos, Samara tem seu tempo de tela surpreendentemente reduzido. Por volta de seus 102 minutos, S. Morgan tem um presença fortíssima apenas em quatro cenas, e por estas aparições não serem bem distribuídas, "O Chamado 3" não parece ser um filme dela própria. Chega a ser cômico.

O tom escolhido também é preocupante. Enquanto no original japonês de 1998 temos um terror psicológico e em seu remake um suspense bem construído, aqui encontramos o famigerado terror pastelão, recheado de jump scare que beira ao ridículo, apoiado em uma releitura da trilha sonora dos primeiros filmes. A fotografia também falha ao tentar recriar o que vimos em "O Chamado". Em alguns momentos, a fotografia não sabe decidir o que realmente quer transmitir, jogando cores vivas e alegres numa mistura que resulta no começo de algum comercial da Coca-Cola, seguido de tons azuis e sombrios, causando drásticas mudanças visuais de uma cena a outra. 

Mesmo com o tom errôneo, furos inexplicáveis no roteiro e suas soluções duvidosas, "O Chamado 3" se vira dentro do possível, numa produção que parece ter sofrido grandes cortes (e que são muito bem-vindos, obrigado), para tentar entregar algo relativamente interessante e novo para a mitologia de Samara, porém o resultado final é dispensável.