Crítica: você não vai dizer "gimme more" para "Britney Ever After", desastrosa cinebiografia da princesa do pop

Momentos icônicos estão na tela de forma desleixada, encabeçadas por uma atriz que nada se parece com a Britney

Quando estamos assistindo a uma cinebiografia, nossa percepção pela obra é construída de forma diferente. Ao assistir a adaptação da vida de determinada pessoa, você geralmente já sabe os principais acontecimentos – mesmo que a figura midiática não seja extremamente famosa, o panorama geral é conhecido pelo público na maioria dos casos. Há também as cinebiografias que têm como objetivo apresentar personalidades importantes, mas desconhecidas do grande público, como o caso de “Estrelas Além do Tempo”, no entanto, em termos gerais, você conhece a trama na tela.

Por ter essa ciência, as cinebiografias entram num concurso imaginário para ver quem consegue a melhor reprodução do real na tela. Quanto mais parecido o ator escalado para o protagonista ficar com a real pessoa, melhor. Os motivos são óbvios: tanto demonstra ótima produção para a composição do personagem como o básico fato de que a plateia irá se conectar muito mais facilmente se for “iludida” com as semelhanças.

Imagem: Divulgação/Internet
E quem não gosta de ver um ator encarnando uma figura popular de forma tão assustadora que até parece um sósia? Os exemplos do cinema moderno são muitos: Meryl Streep como Margaret Thatcher em “A Dama de Ferro”, Daniel Day-Lewis como Abraham Lincoln em "Lincoln", Salma Hayek como Frida Kahlo em "Frida", Eddie Redmayne como Stephen Hawking em "A Teoria de Tudo", David Oyelowo como Martin Luthe King em "Selma: Uma Luta pela Igualdade" e Natalie Portman como Jacqueline Kennedy no recente “Jackie”, muitos indicados e vencedores do Oscar pela atuação. 

Quando o/a ator/atriz não se parece tanto com a figura, a coisa complica mais, porém há meios de contornar a situação, como o caso de Michelle Willams em “Sete Dias Com Marylin”. A atriz, mesmo caracterizada, não era tão parecida assim com a lendária Marylin Monroe, entretanto, sua composição de gestos, trejeitos e voz conseguiu criar um link para que o espectador, enquanto via a atriz em tela, esquecesse que se tratava de outra pessoa. A magia do cinema está feita.

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Mas e quando o ator escalado se parece em NADA com o biografado real? É o caso do telefilme “Britney Ever After”. Produzido pelo canal americano Lifetime, o longa retrata a glória e a queda da princesa do pop Britney Spears, um dos maiores fenômenos culturais do século. A performer ficou famosa por surgir como a encarnação do “sonho americano”, porém, o estrelato e a pressão, além de problemas pessoais, fizeram com que ela caísse em danos psicológicos, protagonizando cenas icônicas na cultura pop.

Natasha Bassett foi a escolhida para encarnar Britney. Uma palavra pode definir bem a atriz: coitada. E nem é pela atuação, bastante fraca, mas por ter sido escolhida para viver um ícone tão grande sem parecer com o mesmo. Quase nenhuma composição de Bassett remete à Britney: alguns trejeitos lembram o da cantora de “Toxic”, mas de resto, a voz com sotaque forçado e a simples e elementar forma física da atriz estão longe do real. É impossível imergir na história quando sua maior estrela não nos faz acreditar no que está na tela.

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É bem sabido que, por se tratar de um telefilme, a produção careça de recursos – não há aqui o orçamento das grandes produções hollywoodianas, muitas das que fizeram os bem sucedidos filmes citados anteriormente. Entretanto, encontrar uma atriz que pareça minimamente com o sujeito escolhido para retratar é o básico do básico – a própria Lifetime já conseguiu resultados melhor com "House of Versace", escalando Gina Gershon para viver Donatella. Até a drag queen Derrick Barry parece MUITO mais com a Britney que Bassett. Com essa grande falha, o filme já perde bastante. Tal limitação poderia ser minimizada por uma boa direção, fotografia caprichada e edição coerente, todos os itens inexistentes em “Britney Ever After”. A edição, em especial, que mistura drama com documentário, é um horror.

Outro ponto da produção que esbarrou em dificuldades é que aqui se trata de uma cinebiografia não autorizada, ou seja, nada que envolva a marca Britney pode ser usado. Como ela é figura ligada à música, espera-se que suas canções estejam no filme, afinal, acima de tudo, foram elas que deram o sucesso da cantora, contudo, apenas duas músicas são regravadas pela atriz, “Satisfaction” e “I Love Rock’n Roll”, pois ambas já eram regravações feitas por Britney. Músicas originais (e sem o menor brilho) foram feitas para o filme, outro ponto que corta a conexão do espectador, órfão dos hits “Baby One More Time”, “Oops I Did It Again” e tantos outros. Imagine um filme da Madonna sem "Like A Prayer" ou do Michael Jackson sem "Thriller".

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O principal motivo para gerar o interesse em cinebiografias é, claro, as reconstituições dos maiores acontecimentos da vida da pessoa biografada, dando mais ênfase ainda quando este viveu eventos que entraram pro imaginário popular. Muitas vezes tais eventos são de cunho trágico – como vemos JFK sendo assassinado ao lado da esposa em “Jackie” –, o que coloca a obra numa posição delicada: ela tem que tratar tudo de maneira com que não vire mero circo sensacionalista. “Britney Ever After” encontra três eventos tristes da história de Britney: a cena do ataque aos paparazzi com o guarda-chuva, o momento em que a cantora raspa o cabelo e a malfadada apresentação no Video Music Awards (VMA) de 2007.

Grandes esforços deveriam ter sido feitos na reconstituição de tais cenas tão famosas na carreira da princesa do pop, mas, com exceção do ataque com o guarda-chuva, as outras não conseguem o devido impacto. A cena em que Britney raspa a cabeça é feita com uma peruca artificial e montada de forma quebrada, talvez em “respeito” ao momento, enquanto a apresentação no VMA é um desastre por 1 não ter a música original, “Gimme More”, pelos motivos já citados, e 2 não ser feita em local minimamente parecido com o palco da premiação (ao que parece, é utilizado o mesmo palco o filme inteiro). Custava nada uma ensaiada com o vídeo original para pelo menos assistirmos e lembrarmos do evento. No fim das contas, o que seria o prato principal do longa foi feito de forma pobre. Resta o quê, então?

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A “missão” de “Britney Ever After” pode ser definida como a humanização de Britney Spears, objetivo geral de muitas cinebiografias. O filme tenta dar um enfoque mais pessoal numa figura que sofreu tanto pela mídia, todavia, os eventos roteirizados são bastante mal feitos, sem um arco narrativo que dê sustentação ao colapso psicológico enfrentado pela protagonista. É tudo jogado na tela de forma desleixada, soando ainda mais fraco pelos problemas já explanados – isso quando não esbarramos em cenas constrangedoras, como a “briga” em forma de dança de Britney e Justin Timberlake (interpretado por Nathan Keyes, esse, pelo menos, lembra o real cantor). “As Branquelas” encontrou seu sucessor.

Há vários pontos aqui passíveis de perdão, mas quando todos se unem, depende muito da boa vontade do espectador engolir “Britney Ever After”. Acertando em nenhum dos aspectos que se propôs, perdemos aqui uma obra que poderia retratar os males da era do TMZ e como a mídia sanguessuga pode arruinar a vida de alguém. Esse “Britney Never After” falha como cinebiografia, como produto para os fãs da cantora e, em primeiro lugar, como cinema, conseguindo ser pior que “Crossroads: Amigas Para Sempre” ao fazer algo teoricamente corajoso (contra a vontade da figura retratada) de forma desastrosa – as vezes é melhor não fazer do que fazer mal feito. Quando nem o icônico vestido jeans é feito minimamente parecido (no filme nem vestido é), a coisa está feia. Desculpa, Britney.