A crítica social por trás de “Chained To The Rhythm”, da Katy Perry

Por trás da batida dançante e vídeo fofo, “Chained To The Rhythm” traz referências ao livro “1984”, de George Orwell, e critica o conformismo sobre o governo de Donald Trump.

Tá pra nascer uma artista tão inteligente quanto Katy Perry e, passada uma baita estratégia de divulgação, que incluiu outdoors pelas ruas dos Estados Unidos e globos espelhados com trechos de sua música nova ao redor do mundo, a californiana lançou o primeiro single do seu quarto disco, a faixa “Chained To The Rhythm”, e nos trouxe bem mais do que um convite para dançar.

Como reflexo de seus últimos passos, incluindo o apoio à candidatura de Hilary Clinton e ao Woman’s March, passeata feminista que também contou com a força de Beyoncé, Lady Gaga, Madonna, Miley Cyrus, entre outros nomes, muitos cogitavam que a nova fase de Katy pudesse ter algum teor político e, apesar de soar inofensiva num primeiro momento, sua música de retorno carrega, sim, uma mensagem social, criticando implicitamente o atual cenário dos Estados Unidos, hoje presidido por Donald Trump.

Em sua letra, “Chained To The Rhythm” fala sobre o conforto de viver numa bolha, alheio aos problemas que, aparentemente, não te atingem, e então questiona se estamos loucos, nos iludindo sobre uma falsa liberdade, enquanto dançamos acorrentados ao mesmo ritmo.



“Aumente o som, essa é a minha música favorita
Dance, dance, dance sob a distorção
Vamos lá, aumente mais, deixe repetindo
Caindo por aí como zumbis acabados
Sim, nós achamos que somos livres
Beba, essa é por minha conta
Todos nós estamos acorrentados ao ritmo”

O contexto político se torna mais explícito com a entrada do cantor Skip Marley, que inicia seus versos dizendo “meu desejo é derrubar os muros para nos conectarmos, nos inspirarmos”, numa possível analogia ao famigerado muro que Donald Trump prometeu erguer na fronteira entre o México e EUA, dificultando a entrada de imigrantes refugiados.

O lyric video de “Chained To The Rhythm” junto com a faixa e, no vídeo, acompanhamos a rotina de um hamster, que passa o dia sendo alimentado por uma mão humana, maior que as miniaturas de sua casinha, e sendo entretido por uma televisão, ilustrada por outro hamster andando em círculos. E até essa produção, inicialmente tão fofa quanto as outras da californiana, ganha peso quando ela explica por suas redes sociais que o bichinho se chama Mr. Parsons, personagem do livro de George Orwell, “1984”, que tem como principal característica sua alienada e inabalável fidelidade ao governo autoritário do Grande Irmão, que observa a sociedade vinte e quatro horas por dia e os desinforma por meio de números e notícias falsas.



Um ponto interessante é a forma como Katy, em parceria com Sia e o produtor Max Martin, soube sintetizar o discurso delicado dentro de uma proposta tão vendável, o que faz com que suas ideias, ainda que implicitamente, sejam disseminadas mais facilmente e, então, siga abrindo espaço para esse tipo de debate dentro do meio mainstream.

Numa entrevista resgatada pelo documentário “What Happened, Miss Simone?”, disponível na Netflix, a lendária cantora Nina Simone discute a importância de artistas se posicionarem politicamente e, no trecho em destaque, questiona: “Como você pode ser um artista e não refletir sobre os tempos atuais?”. Com o exemplo de Beyoncé, Kendrick Lamar, Lady Gaga, Alicia Keys, Kanye West, entre outros nomes, é perceptível que, aos poucos, a cultura pop tem se permitido discutir assuntos sérios outra vez. E isso é um bom sinal.