Crítica: "Manchester À Beira Mar" dispensa o melodrama para abraçar a ironia em meio à tragédia

Favorito ao prêmio de "Melhor Ator", o longa navega em um mar de tristeza com humor negro e cinismo

Indicado ao Oscar de:

- Melhor Filme
- Melhor Direção
- Melhor Ator (Casey Affleck) *favorito*
- Melhor Ator Coadjuvante (Lucas Hedges)
- Melhor Atriz Coadjuvante (Michelle Williams)
- Melhor Roteiro Original *favorito*

Atenção: a crítica contém spoilers.

Eu não sou um entusiasta do provérbio “menos é mais”. Mais é mais na maioria das vezes e filmes que possuem essa filosofia de vida costumam me agradar, porém, às vezes sou obrigado a concordar que menos é mais. Foi o caso de “Manchester À Beira Mar”. Vendido como melodrama, o novo longa de Kenneth Lonergan faz um estudo de personagem em seu estranho protagonista e de situação na realidade em que ele é obrigado a entrar.

Lee Chandler (Casey Affleck, o irmão menos famoso do novo Batman, Ben Affleck) é um encanador e faz-tudo que volta à sua cidade natal, Manchester, quando seu irmão morre. No meio de toda a confusão emocional, descobre que, pelo testamento do irmão, ele agora é o guardião de Patrick (Lucas Hedges), seu sobrinho de 16 anos – a mãe do garoto é alcoólatra que sumiu no mundo. Lee deve largar toda sua vida para assumir as responsabilidades com o sobrinho?

Imagem: Divulgação/Internet
Parece até óbvia a resposta – que seria “sim”, afinal, ele é encanador. Além de não ser um grande emprego, ele pode continuar fazendo a mesma coisa em Manchester; sem falar que família vem em primeiro lugar, não? As coisas não são tão fáceis assim. Na cidade mora Randi (Michelle Williams), ex-mulher de Lee, e a última pessoa que ele espera encontrar na vida.

Antes de entrar nesse grande ponto na vida de Lee, há um motivo mais elementar: ele não quer assumir a responsabilidade. É difícil encarar tal fato em qualquer situação, seja no filme, seja nas nossas vidas, mas às vezes as pessoas não querem colocar em suas costas pesos que não são obrigadas. Sim, é bastante egoísta tal pensamento, todavia, Lee, além de ser alguém que prefere morar longe e ter uma vida irrelevante, não quer voltar e lidar com tudo aquilo. É um direito compreensível que o filme explana através das negações do protagonista.

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Num primeiro momento temos um filho que perde o pai e um homem que perde o irmão e, por meio do testamento, terão que encontrar forças para lidar com o luto juntos, porém, “Manchester” praticamente joga essa dramática premissa no lixo – propositalmente. Nem Lee nem Patrick demonstram grandes dores: a vida do garoto continua praticamente do mesmo jeito, tirando até vantagens pela ausência do pai já que o tio não dá a mínima para o que ele faz. Quando vai até o corpo do pai, o menino fica cinco segundos (não há exagero aqui) na sala do necrotério e sai com um simples “Tá, obrigado”. Não há lagrimas, não há soluços, não há um mísero “Por quê?” gritado aos céus.

Mesmo trabalhando com muitos temas pesados, como a perda, morte, luto, separação e tudo mais, “Manchester” se utiliza de um tom jocoso para retratar toda a situação – que só piora com mais camadas de tragédia quando vamos desvendando os personagens. Há uma forte veia de humor negro entre eles, principalmente por parte de Lee, o que torna até engraçado assistir a tudo aquilo. O pai acaba de morrer e, na cena seguinte, o filho tá rindo com os amigos e a namorada (um delas, na verdade) enquanto conversam sobre “Jornada nas Estrelas”. É surpreendente e até desconcertante a forma como todos lidam com o momento.

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Obviamente, o polo do longa é Lee, e a forma como ele age vai pouco a pouco se explicando. Há algo de errado com o comportamento do personagem, que não parece se importar com nada – às vezes nem com ele mesmo. O que poderia ser mera excentricidade nas mãos de outro roteirista, aqui é uma máscara, algo moldado para proteger Lee depois de tantos problemas. Ele vivia feliz com Randi e seus três filhos, no entanto, graças a um descuido, os filhos morrem num incêndio que destrói toda a sua casa, o que arruína o casamento – e as vidas – dos dois. Estar em Manchester é reviver esse fantasma esmagador, principalmente quando Lee reencontra Randi, agora casada com outro homem.

Por meio de flashbacks, vemos o mundo de Lee ruir quando os filhos morrem e como ele digere a culpa, culminando na incrível cena onde ele tenta se suicidar na delegacia, o ápice da pujança emocional do longa. Lee é uma pessoa destruída, quase oca pelos eventos que o despedaçaram no passado, interpretado com maestria por Affleck. O ator consegue transparecer toda a frieza e a sutil dor do personagem, que dispensa escândalos e berros. É fato que, assim como o irmão, Casey possui um rosto pouco expressivo, mas isso casa perfeitamente com as nuances inseridas na vida de Lee – assim como Ben foi a escolha perfeita para viver o marido perdido de “Garota Exemplar”.

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Voltando para o Oscar, Casey é o favorito à estatueta de “Melhor Ator”, já tendo levado quase 30 prêmios pela atuação, porém, há uma forte “campanha” contra o ele, que foi processado por duas mulheres em 2010, alegando "indesejáveis comentários, insinuações e avanços sexuais". O caso recebeu um acordo entre as partes, mas não foi esquecido pelo público. A atriz Constance Wu, uma das várias celebridades a se pronunciar, foi às redes sociais com uma carta aberta para o Oscar dizendo "A arte não existe por causa de prêmios, mas os prêmios existem SIM para prestigiar a honra da arte de tentar completar a vida. Então o contexto importa".

Traduzindo ainda mais o comentário de Wu, todos nós podemos apreciar a arte da atuação fenomenal de Affleck, mas não louvá-lo com prêmios graças ao contexto em que ele está inserido. E é interessante notar como há, no público, revoltas seletivas. "O Nascimento de Uma Nação" foi completamente ignorado pela Academia graças às acusações de abuso sexual do diretor/protagonista. Johnny Depp sofreu todo um movimento após ter agredido a esposa, sendo boicotado em seus novos filmes, como "Alice Através do Espelho" e "Animais Fantásticos & Onde Habitam". Tudo isso mostra que estamos cada vez mais vigilantes sobre tais graves problemas sociais e que famosos devem pagar, principalmente por possuírem espaço e voz. Mas por que não há o mesmo burburinho ao redor de Affleck?

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Mesmo ainda sendo o favorito, especula-se que a Academia ouvirá tais reivindicações e dará o prêmio (merecidamente também) para Denzel Washington por “Um Limite Entre Nós”. O ator venceu Affleck no Screen Actors Guild (SAG), a maior premiação americana voltada para atuações e o principal termômetro para os Oscars de atores, o que deixou todo mundo surpreso, incluindo o próprio Denzel. Mesmo não sendo uma análise sobre o filme de fato, é importante discutirmos tudo isso porque, como bem disse Wu, contexto importa.

Apesar desse debate, “Manchester À Beira Mar” é um longa simplista, mas poderoso em sua realização e composição. Fugindo de todas as obviedades, aqui não temos personagens tentando se reerguer, e sim aprendendo a viver com suas próprias mortes. Há bastante cinismo por parte das pessoas envolvidas porque não há mais nada a perder, nada a ganhar, só continuar existindo. É até assustador ver o quão grande pode ser a dor que conseguimos suportar e como cada um decide (ou é obrigado) a lidar com tais traumas. Palmas para a direção/roteiro afiadíssimos de Lonergan, que trabalha inteligentemente o humor negro e navega esse mar de tristeza com cinismos e ironias, à já citada atuação de Affleck, ao apoio monstruoso do jovem Hedges, que cria um adolescente único, e até à Williams, que mal aparece, mas dá força a um filme triste, melancólico, sensível e, por que não?, estranho.