Crítica: "Lion: Uma Jornada Para Casa" é um "de volta para minha terra" manipulador e eficiente

Se o "De Volta Para Minha Terra" do Gugu tivesse um filho com "Quem Quer Ser um Milionário", "Lion" seria o filho perfeito

Indicado ao Oscar de:

- Melhor Filme
- Melhor Ator Coadjuvante (Dev Patel)
- Melhor Atriz Coadjuvante (Nicole Kidman)
- Melhor Roteiro Adaptado
- Melhor Fotografia
- Melhor Trilha Sonora

É provável que você, ao esbarrar com “Lion: Uma Jornada Para Casa”, imediatamente faça uma ligação com “Quem Quer Ser Um Milionário?”: filmes com ambientação indiana, feitos para premiações e protagonizados por Dev Patel; as semelhanças são evidentes, e, depois que o filme de Danny Boyle levou oito Oscars em 2009, incluindo “Melhor Filme”, até demorou a despontar um grande nome vindo da Índia (mesmo que não seja, de fato, um filme indiano).

É certo que “Lion” não tenha nem 1/3 do poder que “Milionário” teve em 2009 – as bilheterias refletem bem, $378 milhões contra $44 milhões –, porém, o filme de Garth Davis, que provavelmente terminará a noite de 26 de fevereiro de mãos abanando, merece atenção especial, mesmo não sendo a oitava maravilha da cultura moderna.

Imagem: Divulgação/Internet
Indicado a seis categorias na 89ª edição do Oscar, “Lion” conta a história real de Saroo em duas fases de sua vida. Na primeira, o vemos ainda criança (interpretado por Sunny Pawar) num vilarejo pobre da Índia. Ele e seu irmão, Guddu (Abhishek Bharate), roubam carvão para poder trocar por comida e leite. Certo dia, os irmãos se separam e Saroo acaba entrando num trem vazio que o leva para Calcutá, onde a língua é diferente e o menino tem que viver na rua. Entre varias idas e vindas, ele acaba num orfanato, e é adotado por um casal de australianos. Anos depois, já adulto (e interpretado por Dev Patel), Saroo decide começar uma caça online para tentar descobrir onde ficava o vilarejo de sua infância.

Com essa divisão de foco sob a figura de Saroo na infância e maturidade, o longa constrói duas realidades fílmicas. A primeira, com Saroo na Índia, é conduzida com grandes ares de tensão: a sequência onde ele se perde possui longos minutos sem fala alguma, somente imagens e trilha sonora. O diretor nos aproxima daquele garotinho sujo perdido sem saber pra onde ir, e todos os percalços que ele enfrenta – e não são poucos. Esse gancho já nos conecta com o protagonista, fazendo com que imediatamente torçamos, e soframos, por ele – o carisma do fofíssimo Sunny Pawar é ferramenta imprescindível para esse efeito. Não dá para não amar aquele menininho.

Imagem: Divulgação/Internet
Antes da segunda parte, com Saroo adulto, há um estágio de transição quando ele é levado até a Austrália para viver com seus pais adotivos (Nicole Kidman e David Wenham). Aqui a obra encontra grande palco de discussão quando contrasta as realidades gritantemente distintas que Saroo se insere. Enquanto a população negra da Índia é afogada em miséria, a lustrosa e branca Austrália é reflexo de riqueza. As casas do protagonista são em universos diferentes, e ele, ao chegar à casa adotiva, não sabe o que é a maioria daqueles eletrodomésticos, sendo apresentado pela mãe num tour.

Será meio impossível não pensar que Saroo, no fim das contas, teve “sorte”. Ele saiu de uma realidade extremamente pobre para uma vida farta. O garotinho que tinha que roubar carvão agora tem tudo, então o acontecimento valeu a pena, não? É bastante fácil ter tal questionamento quando estamos desse lado da tela, confortáveis e blindados contra um evento trágico que é se perder de toda a sua família aos cinco anos. Claro, Saroo teria conseguido praticamente nada se não estivesse na Austrália, e é aqui que reside outra grande crítica do filme.

Imagem: Divulgação/Internet
O abismo social entre negros e brancos é visível quando esbarramos na palavra “oportunidades”. Saroo adulto, 20 anos após ter se separado da família, pode ir à capital estudar, algo que Saroo na Índia provavelmente jamais conseguiria. Colocando em termos bastante ralos, nosso protagonista teve que “virar branco” para conseguir subir na vida. O quão desolador é isso?

Felizmente o aparato familiar que acolheu Saroo é bastante amável. Sua mãe, interpretada com grande louvor por Kidman, é uma mulher de amor sem limites, que acolhe aquele garotinho perdido porque ama a situação de ser gentil com um ser estranho. Não há, em momento algum, um traço nela de que o acontecimento que ocasionou tudo aquilo foi uma “bênção” na vida de Saroo, como poderíamos suspeitar; pelo contrário: ao saber que Saroo procura sua família na Índia ela dá o total apoio ao invés da natural e esperável reação de se sentir "abandonada" ou "traída".

Imagem: Divulgação/Internet
Na parte adulta, Saroo (um sincero Dev Patel) leva uma vida normal, mas há o fantasma do passado assombrando sua vida, o que o afasta de sua namorada, Lucy (Rooney Mara). A atriz é quase subutilizada, servindo basicamente para o drama de identidade do protagonista, mas é mais um reforço para a carga dramática que essa parte final vai usar e abusar.

Fazendo planos enormes, gráficos e vagando pelo Google Earth atrás do vilarejo, o filme acerta em não se deixar levar pelo lado tecnológico – haveria um choque entre a fria abordagem pela internet com o calor emocional da história. Luke Davies, roteirista do filme – que é baseado no livro “A Long Way Home”, escrito pelo real Saroo –, contou que a maior dificuldade da adaptação foi não transformar o filme numa “busca online”. Ao afastar-se das telas de computador, “Lion” mantém a força humana, que é, de longe, o forte de toda a história. A internet é mera ferramenta de auxílio, e aqui é posta assim.

Imagem: Divulgação/Internet
Dos três longas indicados a "Melhor Filme" nessa edição do Oscar sobre "histórias reais na tela" ("Até o Último Homem" e "Estrelas Além do Tempo" sendo os outros dois), “Lion” consegue ser o melhor ao conseguir com mais eficácia burlar as limitações do molde. Nós sabemos que Saroo encontrará sua família no fim do longa – mesmo não sabendo exatamente todos os detalhes de como isso acontecerá, a estrutura geral é bastante evidente, assim como nos outros dois filmes “baseados em fatos reais”. O que faz “Lion” se sobressair é a forma como ele consegue não derrapar nos clichês de forma tão grave – como “Até o Último Homem” fez – e manter o poder da tocante história intacto, quando não extremamente potencializado pelas manipulações cinematográficas.

É bem entendível aqueles que amam enlouquecidamente o longa, que arrancará lágrimas com facilidade – o final é gás lacrimogêneo audiovisual, não se reprima; e aqueles que o acharão descartável, por não apresentar nada de novo e ser manipulador sem medo de ser feliz. “Lion: Uma Jornada Para Casa” discute subtextos que dão mais valor ao filme, como os contrastes sociais nossos de cada dia, o ato da adoção, privilégio branco e o poder avassalador desse sentimento maluco chamado "saudade", a prova de que o ser humano é um bicho impressionante, todavia, a falta de inventividade é motivo para colocar num patamar abaixo esse “De Volta Para Minha Terra” internacional. 

P.S.: a explicação do título original é a cartada final de como o cinema, ao saber controlar de forma competente os sentimentos da plateia, é a arte mais avassaladora que existe.