Crítica: "A Chegada" usa naves e alienígenas para nos dar uma lição sobre os meandros da vida

"A Chegada" é uma obra-prima que comporta espetáculo visual, aula de linguística e emocionante performance de Amy Adams

Indicado ao Oscar de:

- Melhor Filme
- Melhor Direção
- Melhor Roteiro Adaptado
- Melhor Fotografia
- Melhor Montagem
- Melhor Direção de Arte
- Melhor Edição de Som
- Melhor Mixagem de Som

Atenção: para melhor explanação do filme, o texto contém spoilers.

Antes de começarmos a entrar na análise de “A Chegada”, uma pergunta: se visse sua vida toda, do começo ao fim, você mudaria alguma coisa? Pode refletir por um momento.

“Estamos tão presos pelo tempo”, começa Dra. Louise Banks (Amy Adams, maravilhosa e injustiçada pelo Oscar), numa das primeiras falas de “A Chegada”, enquanto vemos um trecho de sua vida, desde o nascimento até a morte de sua filha. “A memória é uma coisa estranha, não funciona como eu imaginava”.

A introdução é rápida, mas dolorida e pontual para a instauração do tom que circundará a protagonista. No presente, vemos a casa da linguista, que é reprodução física da solidão de Louise: ampla, transparente, porém oca, fria e melancólica. Enquanto ensina sobre Português numa universidade, os alunos chamam a atenção para que ela ligue a tevê no noticiário: doze naves de origem desconhecida surgem ao mesmo tempo em lugares diferentes do globo. Todos os alunos são mandados para casa.

Imagem: Divulgação/Internet

Dois dias depois da chegada das naves, o coronel do exército norte-americano Weber (Forest Whitaker) vai ao escritório de Louise com uma gravação de soldados falando com os alienígenas. Weber quer que a linguista traduza o que os ETs estão falando, o que é uma tarefa impossível através de um gravador de voz – porque as criaturas, bem, não têm voz, só ruídos. Ela é levada até a nave e, junto com o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner), lideram a equipe de tradução para saber o que os visitantes querem na Terra.

Como reafirma em todos os cartazes, o grande mistério para os personagens é o que os aliens fazem aqui, qual o seu propósito. Ciência? Exploração? Guerra? Ou só turismo? Mas por que então mandar doze deles? Qual a razão dos locais de pouso? Eles se comunicam entre si? Afinal, o que são eles? O filme bombardeia o espectador de questionamentos, a maioria sem respostas, nos forçando a seguir os personagens imersos nas mesmas dúvidas – e ainda com o medo iminente de ter uma nave de 500 m flutuando em seu quintal.

Imagem: Divulgação/Internet

E um dos grandes acertos da obra são as próprias naves. Anos-luz de distância das naves que as ficções-científicas mais famosas adoram criar, como “Star Wars” e o recente “Passageiros”, o veículo dos ETs é minimalista: uma grande concha negra. O design de produção criado aqui é belíssimo e resguarda um grande mistério visual, longe de pirotecnia em naves cheias de detalhes, lasers e parafernálias. A fotografia, espetacular e uma das melhores de 2016, sem dúvida, até aproveita sua forma e cor para enquadrá-la da mesma maneira que Stanley Kubrick filmou o monólito em “2001: Uma Odisseia no Espaço”, o maior filme ficção-científica da história e óbvia referência a todos que o seguiram.

O filme privilegia os primeiros contatos dos protagonistas com a nave. Desde o helicóptero que os levou até lá, Louise e Ian ficam hipnotizados. Ao caminhar até o acampamento militar, a linguista bem tenta não olhar para o monumento, mas é impossível. A nave é um ímã gigantesco. Quando finalmente vão até ela, enquadramentos em close mostram os cientistas tocando a superfície da nave. É a primeira vez que seres humanos tocam algo construído em outro planeta, e o poder simbólico do enquadramento é, com o perdão do trocadilho, fora desse mundo.

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Finalmente dentro do veículo espacial, Louise e Ian conhecem os ETs, ou “heptapodes”, como os militares chamam graças aos sete “pés” que eles possuem. Confinados através de um vidro que separam os cientistas dos aliens, Louise tenta se comunicar – ou fazer com que eles “falem” –, conseguindo sucesso ao escrever a palavra “humano” numa lousa. Um dos ETs “escreve” em resposta um símbolo circular na superfície do vidro, o que comprova que eles possuem uma linguagem.

E é aqui o centro de todo o filme: a linguagem. Weber pressiona Louise constantemente para que ela arranque a resposta que todo o planeta quer saber – qual o propósito dos aliens ali –, no entanto, como bem explica a linguista, até que os visitantes entendam a pergunta, muito trabalho tem que ser feito. Estamos tão imersos dentro das nossas línguas que não percebemos o quão complexo é o ato de se comunicar. Você, que está lendo essa linha nesse momento, está realizando um trabalho mental enorme, pois está assimilando cada palavra e pontuação, designando sentindo para cada um e formulando entendimento. Parece muito simples, assim como Weber colocava as cartas na mesa, mas não é.

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Louise vai, pouco a pouco, quebrando o código que envolve a complicadíssima língua dos visitantes, carinhosamente chamados de Abbott e Costello. Ao contrário da nossa escrita, linear, a deles é cíclica, sem começo e fim delimitado. Além disso, cada “figura”, que representa uma palavra, possui infinitas variações, o que dificulta ainda mais o entendimento. A linguista está ali quase como “a escolhida”, pois é a única, dentro dos 12 países com as naves, a conseguir reais resultados – mas aqui está uma pontuação interessante do filme: em determinado momento é revelado que uma grande contribuição na tradução veio do Paquistão, ao contrário dos filmes óbvios onde são os EUA que resolvem tudo.

A própria barreira linguística entre os ETs e os humanos demonstra cuidado nessa universalização cultural. Ficções-científicas geralmente possuem extraterrestres que já chegam à Terra falando inglês – por serem entidades “superiores” ou seja lá a desculpa. Ao introduzir a barreira mais elementar que existe, a obra gera um desafio além do usual, potencializando-o quando a peça-chave de si própria é a comunicação entre os seres.

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Com as complexidades linguísticas, passeando até por teorias que ligam a forma do pensamento humano com a língua, a tensão entre os homens e os aliens vai crescendo quando 1 a população permanece acuada sobre a própria segurança e 2 as traduções revelam que os visitantes estão ali numa missão que envolve oferecer uma arma. Em passagens telejornalísticas, o longa mostra como a população se apropria da incerteza para expurgar seus próprios demônios, desde a religião apontando o fim dos tempos até fascistas pró-guerra. O cenário, mesmo assustador, é crível – se hoje vemos líderes religiosos alucinados pregando o inferno na terra por causa de minorias (?), quem dirá de alienígenas. São esses os fatos fictícios do filme que refletem nossas próprias realidades.

No fim das contas, contra todas as expectativas, os ETs vieram em paz. Na verdade, propondo uma troca: eles ensinaram sua língua, a tal arma, para que daqui a três mil anos eles possam voltar e, graças a algum acontecimento, pedir ajuda da raça humana. Louise, a única a entender completamente a língua dos heptapodes, é convidada a ficar cara a cara com um dos aliens, que conta toda a missão e revela: ser fluente na língua é aprender a noção de tempo deles, que, assim como a “escrita”, é cíclica. As visões de Louise com sua filha não são do passado, e sim do futuro.

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O filme brinca com várias teorias sobre o tempo, vai e volta para costurar o presente diante da tela de forma bastante inteligente, mas, muito além de todo o bê-a-bá físico, cai sobre Louise um “presente” que ela não quis: ela sabe que vai ter uma filha, que ela morrerá e todas as outras tragédias pessoais que ela enfrentará até o último dia da sua vida.  “A Chegada” tem como foco central como seria nossas vidas caso tenhamos consciência do nosso futuro.

Agora pense: saber o futuro é uma “dádiva” que os seres humanos há milênios desejam, utilizando-se até dos astros para dar um rumo em nossas vidas. Mas e se isso se concretizasse e você soubesse todas as pessoas ao seu redor que morrerão, todos os problemas, as dores, os traumas e sua morte? É algo que vai além da maturidade emocional de alguém. Louise é uma “amor fati”, conceito que Friedrich Nietzsche utiliza-se ao designar a aceitação integral, realizada por um espírito superior, da vida e do destino humano mesmo em seus aspectos mais cruéis e dolorosos. Louise fala “Apesar de conhecer a jornada toda e o seu final, eu aceito. E acolho todos os momentos dela”. É a apoteose climática e o verdadeiro coração de “A Chegada”.

O diretor Denis Villeneuve se joga no formato americano de cinemão, o que perde traços mais evidentes da sua personalidade, todavia não soa óbvio ou clichê ao retirar o propósito maior de seu filme das (sete) mãos dos alienígenas para as mãos humanas. "A Chegada" é uma aula de linguística e, acima de tudo, uma reflexiva lição sobre os meandros da vida, com doses generosas de suspense e emoção. Pode parecer supercomplexo num primeiro momento, porém a trama é até simplista, indo de encontro a "Gravidade" e passando longe da megalomania pretensiosa de "Interestelar" (ainda bem). Com “A Chegada”, Villeneuve, que já entregou tantos filmes incríveis ("Incêndios", "Os Suspeitos", "O Homem Duplicado"), entra para os grandes clássicos ao realizar uma obra-prima que demanda a reflexão da plateia. Mas e aí? Se visse sua vida toda, do começo ao fim, você mudaria alguma coisa?