Throwback Review | "O Chamado" é o maior remake que você respeita e morre de medo

A refilmagem é excelente e arriscamos dizer ser melhor que o longa-metragem de 1998.

Koji Suzuki lançou em 1991 o livro que mais tarde contribuiria para um marco não só para o terror japonês, como também para cinema mundial. "Ringu" foi adaptado para outra mídia pela primeira vez em 1998, através de um filme que se banha de um terror psicológico fudido e traz uma das cenas mais icônicas do cinema. Mais tarde, em 2002, a obra é readaptada aos moldes de Hollywood, popularizando Samara, a maior entidade do mal que nós respeitamos.

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A nova produção é comandada por Gore Verbinski, de "A Cura" (2017), que com auxílio do roteiro de Ehren Kruger, consegue transformar o terror psicológico em uma pegada mais investigativa, e assim como o original, só traz o terrozão que tanto amamos no último ato. A anglo-australiana Naomi Watts é quem lidera o elenco ao lado do esquecidíssmo David Dorfman. 

Rachel Keller (Watts) é uma jornalista que após a misteriosa morte de sua sobrinha, bem próxima de seu filho Aidan (Dorfman), resolve ir a fundo descobrir como e porquê ela morreu a pedido de sua irmã. Keller então descobre que a garota, assim como outras pessoas que morreram no exato momento que ela, assistiu uma macabra fita uma semana antes. Com a fita em mãos, Rachel resolve assisti-la para confirmar a história contada pelos amigos da garota.


O telefone toca logo após o fim do vídeo. Ao atendê-lo, Rachel confirma a história dos amigos. Sete dias. Agora, além de tentar descobrir a causa da morte da sobrinha, ela deve também correr contra o tempo para encontrar uma maneira de se salvar. 

Rachel, num primeiro momento, acredita que a mulher que aparece no vídeo é a responsável por todas as mortes. Porém, mais tarde, descobre que a criança refletida em um espelho é a causadora de todo o caos. A garotinha se chama Samara e foi adotada pelos Morgan após o casal falhar nas tentativas de gravidez. Samara sempre foi uma garota problemática, paranormal, para dizer a verdade. Com todos os problemas causados, ela é morta por sua mãe e jogada em um poço. Tadinha, gente. :(


O vídeo visto por Rachel é primordial não só para a resolução do caso com sua sobrinha, como também nos ajuda a entender quem foi Samara. Uma escada, por exemplo, surge aleatoriamente em um frame, e só mais tarde entendemos sua relação com a garota. Ela dormia em quarto no alto de um celeiro, por isso a escada.

Outro elemento relevante do vídeo é uma árvore pegando fogo. O diretor brinca com o espectador o tempo todo através dela. Um pouco antes e depois de Rachel assistir à fita, temos uma árvore que é utilizada para simbolizar uma passagem ou até mesmo para situar um tempo. A árvore em questão está presente durante todo o filme, entretanto é apenas no último ato que conseguimos assimilar esta árvore com aquela que pega fogo no vídeo. A árvore condena o local onde Samara foi enterrada. É genial!

O vídeo surge pela vontade de Samara ser ouvida, não para matar quem assiste — é uma consequência. É um modo de esclarecer que ela é apenas uma vítima, ou quase isso — os flashbacks contribuem para tal sensação. Ela sempre foi uma criança problemática, porém os pais demonstravam um apoio superficial e inclusive a mal-tratavam, o que desencadeou em ela ser quem é.

A trilha-sonora, liderada pelo mozão Hans Zimmer, é um dos grandes pontos relevantes da produção. Ela acompanha todo o filme, e são raros os momentos em que ela desaparece. Por ser minimalista, com poucos momentos grandiosos, ela não causa incomodo algum, inclusive contribui para o suspense e tensão.



Comparações com o original de 98 são inevitáveis. As diferenças de um roteiro ao outro são relativamente poucas e quase imperceptíveis. É incrível como Ehren Kruger consegue mudar e readaptar elementos de um modo que não cause um certo incomodo para quem conheça o filme japonês. Tais mudanças entram única e exclusivamente para ajudar na nova ambientação da história. Elas são bem-vindas.

O que se perde nesta readaptação é o terror psicológico louvado de 98. Kruger opta por um ritmo mais acelerado e com um tom mais investigativo. Em contrapartida desta perda, ganhamos uma aflição nunca sentida. O longa pontua a contagem dos dias em tela, fazendo com que o espectador perca o folego a cada dia perdido. 

Outro elemento que destoa na versão americana é o abuso de efeitos visuais, seja com um CGI ou o auxílio de maquiagemTambém não podemos deixar de ressaltar a diferença visual de Samara, conhecida como Sadako pelos japoneses. No original, sua pele é comum e a demoniazinha nunca mostra o rosto por completo; enquanto na nova versão, eles tornam crível a ideia de que a moça levou sete dias para morrer no poço, com a pele toda enrugada e a produção faz questão de mostrar seu rosto todo deformado.

"O Chamado" consegue fazer o que poucos remakes conseguem: manter a essência do original e até mesmo aperfeiçoar alguns elementos. A refilmagem é excelente e arriscamos dizer ser melhor que o longa-metragem de 1998. Talvez pela readaptação não beirar apenas na troca de elenco e sim mudar o necessário tenha resultado neste saldo final tão positivo. "O Chamado" é o maior remake que você respeita e morre de medo.