Azealia Banks, a mídia destrutiva e o linchamento virtual

Isso deve ser muito Black Mirror.

Você não precisa gostar da Azealia Banks, ouvir suas músicas ou concordar com qualquer uma de suas ações para entender que, sim, a rapper é alvo de ataques racistas, machistas e misóginos, sendo o tempo todo perseguida por pessoas que, por trás de um falso moralismo, torcem pra que ela cometa o erro que enterre de vez o seu nome, para então poder soltar o velho “eu avisei”.

A superexposição já fez mal para outros artistas antes, com o acréscimo de que, ao contrário de todos que você talvez tenha pensado, Banks só entrou nesse ciclo vicioso porque, logo no início de sua carreira, bateu de frente com nomes relevantes da indústria, em prol daquilo que acredita e segue defendendo.

Antes mesmo de lançar seu primeiro álbum, a rapper chamou a atenção de gente como Beyoncé, Lady Gaga, Rihanna, Kanye West, Diplo, entre outros, todos esses nomes que dividiram estúdio com ela e queriam um pouco do seu trabalho em seus próprios materiais, para agora ser chamada pelos fãs desses mesmos artistas de “sem talento”, “irrelevante” ou “desesperada por atenção”.

É estranho ler que ela só sabe arranjar confusões, justamente um ano após ela ter se dedicado a gravação de um filme, lançado a mixtape “Slay-Z” e o videoclipe do carro-chefe desse material, “The Big Big Beat”, além de quase ter assinado um novo contrato musical, com o qual tocaria as produções do seu segundo CD, sucessor do incrível “Broke With Expensive Taste”, mas também é previsível, afinal, a mesma mídia que se dedica a cobrir em tempo real suas discussões pelas redes sociais, é a mesma que não move uma vírgula para falar sobre seus trabalhos, porque não é o que rende acessos.



Assim como tem seus favoritos, a imprensa tem nomes que gosta de te ver odiar e, neste ponto, é importante compreender a maneira como a construção de um discurso influencia na sua perspectiva pessoal sobre tudo quanto é artista, e as razões que os levam a escolher esses nomes podem ser diversas.

Se tratando de Azealia Banks, você não precisa abrir um texto para saber que lerá em algum momento a palavra “polêmica”, bem como não deve ficar surpreso quando encontra as notícias sobre suas discussões acompanhadas por imagens que a representem com raiva, agressiva, dentro de um estereótipo que historicamente desonra a imagem de mulheres negras. E, desta forma, a mídia tacitamente te convence de que ela realmente é essa figura louca que deliberadamente ataca todos que vê pela frente, ressaltando momentos que contribuam para esse descrédito da sua fala, enquanto descaradamente omite tudo o que possa fomentar um ponto de vista contrário à esperada repulsa.

Nas redes sociais, o discurso de ódio é facilmente reverberado, principalmente quando lidamos com um público desabituado a ler grandes textos, porque é mais fácil e cômodo engolir o que te entregarem em cento e quarenta caracteres e, daí em diante, passar essa informação para frente. É desta forma que muitas pessoas odeiam Azealia Banks, mas sequer a conhecem ou sabem que tipo de som ela faz.

É claro que Azealia tem o peso de suas ações no meio disso, afinal, se ela não disser nada, talvez não tenham o que espalhar. Mas é preciso um profundo exercício de empatia para reconhecer a pressão que rodeia a artista, que teve suas redes sociais tomadas por milhares de pessoas dispostas a abandonarem qualquer sinal de bom senso para criticá-la e, no momento, é tratada como alguém numa posição inafiançável, por quem garante que ela pediu para chegarem neste ponto e merece as ofensas – sendo, em sua maioria, extremamente agressivas, com frases como “Hitler mataria seu traseiro negro se estivesse vivo” e piores.

Ser mulher e negra é uma tarefa difícil para a indústria, ainda mais quando essa se dispõe a ir contra os padrões nos enfiados diariamente goela abaixo, o que inclui o discurso de que “para reclamar sobre algo, é preciso saber se posicionar”, e reconhecer isso, bem como o fato disso ser o que tanto incomoda a grande maioria em Azealia, não significa passar a mão na cabeça dela por tudo o que diz, nem consentir com xenofobia ou qualquer outro preconceito que ela já tenha reproduzido, mas, sim, aceitar que o problema é bem maior e, enfim, deixar de tratar como um mero meme à espera do seu “close certo”.

Azealia Banks é uma artista jovem, que viu sua vida virar de cabeça para baixo numa questão de tempo e, com a mesma rapidez, pode conhecer o melhor e pior lado da fama. Com o uso assíduo das redes sociais, a rapper lida com o ódio em tempo real, numa medida que simplesmente inexistia na ascensão de outros artistas do mesmo meio, mas entre tantos debates e necessidade de assumir uma posição, expressar alguma opinião, muitos se esquecem que, no final das contas, ainda estamos falando sobre uma pessoa e, goste dela ou não, não faz mais do que sua obrigação em respeitá-la. Queria encerrar dizendo que isso é muito Black Mirror, mas eu nunca assisti a série.