Editorial: “What happened, Mr. West?”

Kanye West nunca foi um santo. O rapper, autointitulado Yeezus no seu disco lançado em 2013, protagonizou uma série de polêmicas que, de certo, merecem ser questionadas, como o episódio com Taylor Swift no MTV Video Music Awards 2009 e o lançamento de “Famous”, do seu mais recente álbum, “The Life of Pablo”, mas quanto mais sua imagem caminhou para essa personalidade midiática, mais seu comportamento foi afetado por todo o assédio.



Tudo aconteceu muito rápido na vida e carreira de Kanye. Seu disco de estreia, “The College Dropout” (2004), lhe rendeu seu primeiro Grammy (por ‘Melhor Álbum de Rap’) e, na mesma edição, ele conquistou os gramofones por ‘Melhor Música de Rap’ (“Jesus Walks”) e ‘Melhor Música de R&B’ (como compositor, por “You Don’t Know My Name”). O reconhecimento veio acompanhado de ainda mais espaço pra que fizesse a sua arte e, consequentemente, o seu nome. Assim, de College Dropout até aqui, Kanye acumulou invejáveis 21 prêmios Grammy. Mas algo neste caminho deu errado.

Sempre lembrado por sua música, o nome de Kanye West foi aos poucos se tornando sinônimo de polêmica e, apesar de muitas atitudes e declarações questionáveis, a imprensa e todo seu racismo e sensacionalismo teve uma grande culpa nisso. O rapper, para terem uma ideia, discutia no começo da carreira sobre a importância de desconstruirmos a homofobia no hip-hop, porque tinha um tio gay e nunca havia pensado no quanto era preconceituoso com a comunidade LGBTQ+, e pensar nisso hoje, nos faz questionar o que houve com The Old Kanye, como ele mesmo se refere em “I Love Kanye”, também do último disco.



O MTV Video Music Awards de 2009 talvez seja um importante divisor na carreira do rapper. Naquela época, Kanye West não discutia apenas a qualidade do videoclipe de Beyoncé (“um dos melhores clipes de todos os tempos. De todos os tempos.”), mas também o privilégio branco na indústria e, não só nessa edição da premiação, ele seguiu questionando publicamente sobre isso e o quanto esses tipos de eventos são desrespeitosos com os artistas. “Amanhã, essa arena estará completamente diferente”, disse no seu discurso de agradecimento no VMA de 2015. “Terá algum show, algo assim. O palco irá partir. Depois dessa noite, o palco irá partir, mas o efeito disso [o evento] nas pessoas permanecerá”. E permaneceu.

Do MTV Video Music Awards 2009 até as premiações atuais, é difícil pensar numa retrospectiva em que a emissora não tenha relembrado o triste episódio de Taylor Swift ao lado do lobo mau do hip-hop e, reforçando a memória, fizeram questão de colocar a cantora ao lado do rapper em 2015, dando na edição seguinte 15 minutos pra que ele fizesse exatamente o que desse na telha – ele escolheu um breve discurso, seguido da estreia de seu novo videoclipe, “Fade”.



A edição desse ano, entretanto, ganhou um novo capítulo há alguns dias, quando Kanye West afirmou, durante um show, que a emissora o confidenciou que Beyoncé ganharia o prêmio de ‘Vídeo do Ano’ por “Formation”, numa decisão que teria sido feita por ela, em troca de uma performance no palco da premiação. No show, que aconteceu no dia 17 de novembro, o rapper afirma: “Beyoncé, isso me machucou”. E explica que o problema sequer foi o prêmio, mas, sim, saber que ela aceitou isso, ciente de que acarretaria numa vitória sobre ele e Drake, que concorriam por “Famous” e “Hotline Bling”, respectivamente.

A imprensa, obviamente, amou a novidade. O que se viu por aí foram vários “Kanye West acusa Beyoncé de fraudar o VMA”. Mas só esqueceram de analisar o que ele contou como um todo, porque, sim, faz mais sentido do que gostaríamos.

Apesar do longo e confuso desabafo desse show, que aconteceu em San Jose, na Califórnia, o rapper estava focado em criticar grandes corporações. Ele gritou “Google mente pra vocês, Facebook mente pra vocês, as rádios mentem pra vocês”, em certo momento. E, sobre a premiação da MTV, afirmou que a emissora te deu essa notícia momentos antes dos seus “quinze minutos livres”, o que, se não fosse a satisfação em lançar seu novo videoclipe com tamanha exposição, poderia tê-los rendido outra grande polêmica para os próximos anos. Se Kanye falou a verdade, a MTV queria que ele confrontasse Beyoncé ao vivo, mas o que tiveram foi um sincero e bem humorado rapper, que afirmou no palco da premiação: “Nesta noite, ‘Famous’ deve perder para Beyoncé, mas eu não posso me chatear. Eu estou sempre desejando que ela vença, então tudo bem”.



No mesmo show, Kanye ainda pediu pra que Jay Z o ligasse, eles precisavam conversar como homens crescidos, e estranhamente deixou o apelo: “não mande seus homens atrás da minha cabeça, me ligue, você ainda não me ligou”.

A apresentação foi alvo de muitas críticas pelo público presente, visto que o rapper apresentou apenas duas canções, deixando o palco antes do esperado, e na sequência Kanye West cancelou o restante da turnê, que ainda contaria com cerca de 20 shows.

Todos esses acontecimentos já sugeriam: algo estava errado com Kanye. A confirmação veio mais tarde, quando o rapper deu entrada numa clínica em Los Angeles, para tratar o que afirmaram serem problemas com a privação do sono, exaustão e excesso de trabalho.

Mas o que está acontecendo com Kanye West?

Se relembrarmos o ano como um todo, o rapper já passa por essa fase conturbada há algum tempo. Em seu perfil no Twitter, foram muitos os desabafos, dos problemas financeiros, contando até mesmo com um inusitado pedido de empréstimo ao dono do Facebook, Mark Zuckerberg, às discussões com outros artistas, e se tratando da indústria, também não faltaram pensamentos, com críticas às premiações, emissoras e rádios, além do claro descontentamento em ver trabalhos como o seu e outros artistas negros serem desvalorizados nos meios de massa.


O final desse ano, entretanto, conseguiu ser ainda pior. No começo de outubro, Kim Kardashian foi feita de refém e assaltada em Paris, optando por dar uma pausa nas redes sociais, e no dia 10 de novembro, o rapper passou por mais um ano desde o falecimento da sua mãe, acontecimento esse que desencadeou seus problemas com a depressão e quase levou o músico ao suicídio entre 2010 e 2011.

Neste mesmo período do ano passado, Kanye se refugiava em sua música, visto que estava em estúdio, produzindo o que viria a ser “The Life of Pablo”, mas em turnê, rodeado por toda a exposição que acompanha a família Kardashian e seu reality show que não termina quando a TV desliga, a pressão foi maior do que poderia aguentar.

Assim como um de seus maiores ídolos, a lendária Nina Simone, Kanye West usa muito de sua música como uma válvula de escape para o que tem sentido e, no disco “The Life Of Pablo” especificamente, dedicou alguns versos ao momento que vinha passando.

Na música com The Weeknd, “FML” – uma sigla para “fuck my life” –, ele fala sobre as pessoas sempre esperarem que ele cometa algum erro grave o suficiente para foder com a sua vida. “Eles queriam que eu fosse em frente e fodesse com a minha vida, mas não posso deixar que me atinjam. E mesmo se eu sempre estiver acabando com a minha vida, sou o único que posso falar disso”, canta seu refrão. Na mesma música, o rapper também faz menção a um remédio que trata distúrbios mentais, como depressão e bipolaridade, afirmando: “Você nunca verá um cara tão louco quanto esse sem seu Lexapro”.



Em tom mais sarcástico, Kanye faz uma longa reflexão sobre sua carreira em “Feedback”:

Parece que quanto mais fico famoso, mais fico selvagem. Tenho perdido a cabeça há muito tempo, tenho perdido a cabeça há muito tempo. Venho dizendo como me sinto nos momentos errados. (...) Não posso deixar que essas pessoas brinquem comigo. Me diga um gênio que não seja louco.



E, fora do seu disco, também há uma contribuição de Kanye em “Reaper”, lançada por Sia no disco “This is Acting” (2016). A música, descartada pelo rapper e por Rihanna, foi composta aos poucos, por meio de notas e conversas entre Kanye, Sia e Rihanna, e faz um pedido pra que a morte não o busque enquanto estiver se sentindo bem:

Não venha atrás de mim hoje, estou me sentindo bem e quero aproveitar isso. Não venha atrás de mim hoje, estou me sentindo bem e me lembro de quando você veio para me levar embora. Eu estive tão perto dos portões do paraíso. Mas, querido, hoje não. Você tentou me derrubar e me seguiu como uma nuvem negra, mas, querido, não, hoje não.



Em “What Have They Done To My Song, Ma”, originalmente lançada pela americana Melanie Safka, Nina Simone lamenta para sua mãe os efeitos da indústria em sua música, alma e mente. “Eles mexeram em minha mente como se fosse um pedaço de frango e agora acham que eu estou louca, mãe, olha o que fizeram comigo”. E apesar dessa não ser uma das muitas músicas da cantora reutilizadas por Kanye West, é possível associá-la bastante ao músico.

De Britney Spears à Amy Winehouse, foram muitas as vezes que os fãs da cultura pop tiveram a decadência de artistas famosos como seu entretenimento, e a imprensa aprendeu da pior forma possível o quanto isso pode ser lucrativo, então não deixará o nome do rapper em paz tão cedo. Mas no meio de toda essa realidade, na qual propagar o ódio tem parecido cada vez mais interessante, é importante ressaltar a necessidade da empatia e bom senso num momento como esse, em que não é preciso gostar ou admirar o artista para minimamente respeitar não apenas ele, mas todos que sofrem com algum desses distúrbios.

A reação contraditória das redes sociais, que comemoraram, afirmando que ele “está tendo o que merece”, é apenas mais um dos motivos pelos quais tantas vidas são perdidas, visto que muitas pessoas se tornam resistentes à pedir ajuda, temendo a mesma falta de consideração.

Nas palavras do próprio rapper: “we still love Kanye”. E estamos na torcida pra que ele se recupere dessa o quanto antes.

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Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 10% da população mundial possui algum distúrbio de saúde mental, e, apesar de ainda haver muito o que percorrer, esse é um assunto que tem sido cada vez mais debatido e desconstruído. Se você acredita lidar com algum transtorno mental, não hesite em procurar ajuda médica.

Pelas redes sociais, também recomendamos o maravilhoso trabalho do CVV (Centro de Valorização da Vida), que fornece apoio emocional e prevenção do suicídio por meio de atendimentos gratuitos por seu site oficial, telefone, Skype e, presencialmente, em seus postos físicos.
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