"Doutor Estranho" é a produção mais séria e contida da Marvel nos cinemas


Em julho deste ano, em seu painel na San Diego Comic-Com, o Marvel Studios divulgou um novo logo que deve anteceder seus filmes pelos próximos anos. Nos quase 30 segundos de duração, vemos rápidos flashs de todos os últimos filmes apresentados pela Marvel desde "Homem de Ferro". O logo que estreia nos cinemas junto com "Doutor Estranho", serve para reforçar que, depois de 13 filmes a Marvel possui passe livre para introduzir os personagens mais desconhecidos ao público geral. Eles sabem usar a formula para não errar.

Assistir ao novo logo em tela grande pela primeira vez, já é motivo para qualquer fã sentir agraciado por mais conteúdo inédito.

"Doutor Estranho" é o décimo quarto filme do Universo Cinematográfico Marvel. E, junto de "Guardiões da Galáxia" e "Homem-Formiga", é um dos filmes mais ousados desse universo. Pela primeira vez, a Marvel pisa em solo declaradamente mágico (já que teoricamente, Thor e os Asgardianos são alienígenas e não exatamente Deuses). Dessa forma, existe a necessidade de apresentar à audiência toda uma nova gama de conceitos inéditos, e encaixa-los de forma coesa e assertiva no contexto dos outros filmes. Quando se junta isso ao fator de que o filme deve também agradar ao público geral, e não se perder em sua própria história, podemos concluir que tirar Doutor Estranho do papel foi um grande desafio para a Disney e seus executivos.

A primeira etapa para superar essa barreira foi a escolha acertada do elenco. Primeiramente, escolhendo Benedict Cumberbatch, o equivalente ao Robert Downey Jr da Tv, para fazer o papel principal. Benedict não só tem um imenso carisma, como também é um excelente ator. Ele brilha interpretando o detetive Sherlock Holmes e leva um pouco dessa interpretação para o papel de Stephen Strange. As comparações com Tony Stark são inevitáveis. Ambos os personagens são arrogantes, mas também excepcionais naquilo que fazem e ambos passam por traumas que os levam a despertar o heroísmo dentro de si. A caracterização está impecável e para quem já viu alguma ilustração dos quadrinhos sabe que a semelhança entre o Doutor Estranho do papel e do cinema é imensa. O elenco de apoio também está sensacional, Rachel McAdams em suas poucas cenas está excelente, e Tilda Swinton está literalmente destruidora no papel da Anciã, enfiando goela abaixo os discursos machistas que ela vinha ouvindo desde o anúncio de sua participação.

A diferença entre "Doutor Estranho" e os outros filmes da Marvel não fica apenas na temática mágica. "Doutor Estranho" é também um filme mais contido, menos caótico e apocalíptico como seus antecessores que insistiam em dizimar cidades, planetas e aeroportos. Seguindo a tradicional fórmula de filme de origem em três atos, temos a introdução do personagem, seu treinamento seguido de negação e por fim aceitação dos poderes e responsabilidades na luta contra o vilão. Mantendo então uma narrativa linear, o roteiro se transforma em algo muito menos bagunçado do que estamos acostumados a ver nos filmes de super-herói do estúdio. Essa contenção de escala certamente foi uma decisão certeira, e que melhorou muito na narrativa da história. Outro grande acerto foi evitar o erro comum cometido na maioria dos filmes de origem: a enrolação. Ao invés de protelar, e esconder ao máximo todo seu potencial para o clímax do filme, logo nos minutos iniciais já somos jogados literalmente de cabeça na viagem cinematográfica que é "Doutor Estranho". Apesar de ser um novo conceito e exigir a introdução de elementos espirituais envolvidos com Multiversos, o filme não teme ou fica beirando o sigilo, pelo contrário, já prontamente nos explica tudo o que precisamos entender, numa das melhores cenas do filme.

O visual do longa é outro ponto alto. Quando se faz necessária uma explicação maior a respeito do conceito de Multiverso, a estratégia utilizada é nos jogar juntos com Stephen Strange numa experiência visual completamente imersiva, psicodélica e absolutamente incrível cheia de cores e efeitos visuais delirantes. Aliás, apenas essa sequência já seria o suficiente para nos obrigar a ver o filme na maior e melhor tela possível, mas a qualidade técnica do filme não para aí. Desde as já conhecidas cenas a lá “A Origem” que vimos nos trailers até as cenas de invocação de magia e as de luta, vemos que tudo foi muito bem desenhado e produzido para ser um grande deleite aos nossos olhos. O filme só perde para "Guardiões da Galáxia" no quesito beleza e entretenimento visual.

As já tradicionais cenas pós-crédito estão lá. Enquanto uma tem o objetivo de dar continuidade na história que culminará em "Vingadores 3" e ligar "Doutor Estranho" diretamente ao próximo filme da Marvel, Thor Ragnarok, a outra serve para definir o próximo vilão que atormentará Stephen Strange no futuro. 

A sensação final é de que a Marvel finalmente chegou a sua madureza, usando e abusando dos recursos tecnológicos direcionados ao cinema. Porém com a madureza, a Marvel passa a experimentar mais do receio de se enfiar em produções com clímax megalomaníacos. Isso pode chatear um pouco a expectativa da audiência, que sempre espera por escalas cada vez maiores, tanto das destruições quanto das ações dos seus heróis. Outro grande calcanhar de Aquiles dos filmes Marvel é o tom de seus filmes, e aqui "Doutor Estranho" ganha muitos pontos. O filme não é propriamente sombrio mas muito mais sério que seus companheiros. O humor está lá em cenas pontuais mas nada espalhafatoso e desnecessário com o simples intuito de arrancar gargalhadas, Os roteiristas estão lapidando cada vez mais suas histórias. Uma coisa que a Marvel claramente ainda não aprendeu é o desenvolvimento dos seus vilões, mais uma vez temos um personagem raso com motivações toscas que até mesmo é ironicamente ofuscado pelos personagens mais coadjuvantes da história, mais uma vez Loki mantém o posto de melhor vilão. Quando se põe na balança, ao final concluímos que esse é certamente um dos melhores filmes desse universo compartilhado, um filme que funciona bem tanto na introdução de novas ideias como na continuação de uma longa história. E por fim, podemos arriscar dizer que com esse filme, a Marvel acaba de encontrar o futuro substituto do protagonismo de Robert Downey Jr e seu Tony Stark nos próximos filmes da franquia "Vingadores".

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