Album Review: o outro lado de Lady Gaga também é pop no disco “Joanne”

Lady Gaga, “Joanne” (2016)

Esse é um disco para poucos e que, na melhor das hipóteses, significa o “foda-se” de Lady Gaga para o que as paradas esperavam ou não vê-la cantar.


Antes de se assumir uma artista pop, com os arranjos eletrônicos do seu “1989”, não era difícil encontrar as influências mais comerciais de Taylor Swift em seus discos anteriores; assim como, quando lançou “Music”, Madonna não teve uma folga do título de rainha do pop, tirando desse, inclusive, mais alguns hits para chamar de seu, e é nesta linha que, sim, classificamos o novo álbum de Lady Gaga, “Joanne”, como mais um dos seus trabalhos pop.

Não dá para negar que a própria cantora de “Perfect Illusion” se esforçou para afastar sua imagem anterior, de hits como “Poker Face” e “Bad Romance”, mas vemos isso mais como uma necessidade de reinvenção, como aprendeu com alguns dos seus maiores ídolos, do que rejeição ao gênero que a levou para as rádios – e isso, por si só, também representa um importante amadurecimento, que reflete em suas canções gradualmente, desde o álbum “Born This Way”.

Menos é mais

Na época em que era a coisa mais louca da cultura pop para a imprensa, tinha quem dissesse que, daqui um tempo, bastaria Lady Gaga usar uma blusinha branca e uma calça jeans para chocar a todos e, sim, a própria entendeu o recado. “Joanne”, que leva uma homenagem à sua tia em seu nome, se constrói na ideia em que menos é mais e, outra vez, traz a cantora disposta a chocar, deixando para trás os milhões de acessórios que contribuíram para a iconicidade de sua imagem, pra dar lugar ao choque que faz o público se impressionar com comentários como “não é que ela canta mesmo?”.

Neste ponto, também se faz importante entender tudo o que antecedeu a Lady Gaga de “Joanne”, passando o marca-texto em trechos como o fracasso comercial de seu último – e talvez mais genérico – disco, “ARTPOP”, a reinvenção artística, a fim de relembrar os críticos que, apesar dos baixos números, ainda era uma grande cantora, e a parceria com o músico de jazz Tony Bennett, que contribuiu para o tópico anterior.

A perfeita ilusão

Embora negue estar interessada no título de diva pop, Lady Gaga gosta da forma como chacoalha a indústria sempre que sugere um retorno e, quando o fez, dividiu opiniões, mais uma vez. A parceria com Mark Ronson e Bloodpop sugeria algo extremamente radiofônico, à exemplo dos hits “Uptown Funk” e “Sorry”, assinados pelos produtores, e quando chegou ao público, se mostrou algo completamente diferente do que até Gaga já havia apresentado, com um rock de estrada, pra gritarmos a plenos pulmões, mas que escondia em sua estrutura uma fórmula matematicamente pensada para nos conquistar aos poucos. Uma genialidade pop para poucos, que não caiu nas graças do público em geral, mas faz sentido dentro do disco como um todo.



Sem mais delongas, conheça “Joanne”:

“Diamond Heart”

Todo o disco é muito bem resumido logo em sua primeira canção. “Diamond Heart” é o ápice do que Gaga já havia nos apresentado em “Born This Way”, por músicas como “Marry The Night”, com o que ela pretende explorar neste novo material. A música, uma das mais dançantes do trabalho, é marcada pelo baixo, guitarra nervosa e uma acentuada bateria, além dos quase teatrais vocais da cantora, que entoam uma letra sobre conquista, na qual ela afirma não ser perfeita, mas ter um “coração de diamante”.

“A-YO”

Na contrapartida da conturbada de divulgação do “ARTPOP”, que incluiu um vídeo em que Gaga respondia às ofensas dos “haters”, se dizendo uma artista “flop” e “acabada”, sua resposta para esse mesmo público é bem mais confiante nesta faixa. “A-YO” é, antes de qualquer coisa, um irrecusável convite para dar um dedo do meio aos que não estão com você e apenas curtir o momento. “Nós fumamos todos eles”, canta em seu refrão, sob um arranjo que passeia entre o country e o pop-roqueiro de “MANiCURE”, do álbum anterior. Uma das nossas favoritas e que melhor aproveita Mark Ronson no disco.



“Joanne”

Depois de entregar o pop que seus fãs tanto imploraram, Gaga dá espaço para a calmaria na faixa-título do álbum, numa letra que abre espaço para uma dupla interpretação. Toda no violão, “Joanne” soa como uma conversa com a sua tia, que faleceu aos 19 por lúpus, e, ao mesmo tempo, também funciona como um diálogo consigo mesma, numa redescoberta daquilo que perdeu em busca da fama –e seu monstro. “Honestamente, eu sei para onde você está indo e, querida, você está apenas seguindo em frente. E continuarei te amando mesmo quando já não puder mais te ver. Mal posso esperar para te ver subir.”

“John Wayne”

Quando desliga a ligação com sua tia, Gaga se vê de volta às aventuras amorosas de sua nova fase e, desta vez, quer ir além da paixão perigosa pelo cowboy mais famoso de Hollywood, John Wayne. A música é explosiva, grandiosa em todos os sentidos, e bota pra foder com a entrada de Josh Homme, do Queens of the Stone Age, no comando de seu baixo. “Eu não posso, sei lá, descer do seu cavalo, pra que você vá um pouco mais rápido?”

“Dancin’ In Circles”

Apesar de co-produzir todo o disco, ao lado de Mark Ronson, é em “Dancin’ In Circles” que Bloodpop, produtor de músicas como “Sorry”, do Justin Bieber, e “Devil Pray”, da Madonna, parece ter tido liberdade para brincar com Lady Gaga e as tendências das rádios atuais. A música nos entrega mais uma dose de dancehall, carregada por uma letra sobre se “divertir sozinha” – você também pode ouvi-la como uma analogia à masturbação – e ainda conta com a participação do Beck em sua composição.

“Perfect Illusion”

Existe uma expressão em inglês chamada “grower”, utilizada para descrever uma música que não te conquista nas primeiras audições, mas, aos poucos, “cresce”, até que te faça gritar “essa é minha música!11”, sem nem ao menos lembrar que em algum momento chegou a achá-la “apenas ok”. “Perfect Illusion” é uma grower. E simplesmente não podemos falar dela sem fazer menção ao Kevin Parker, da banda Tame Impala, que parece presente em cada segundo do seu arranjo. “Não era amor, era cilada.”

“Million Reasons”

Lady Gaga já havia misturado country com rock em “Yoü and I”, do disco “Born This Way”, e conseguiu uma das melhores músicas de toda a sua carreira, então por que não tentar outra vez? “Million Reasons” conta com a colaboração da Hillary Lindsey, compositora de músicas como “Jesus Take The Wheel”, da Carrie Underwood, e protagoniza um dos momentos mais emotivos de todo o álbum. “Eu tenho um milhão de razões para partir, mas, querido, eu só preciso de uma para ficar.”



“Sinner’s Prayer”

Ela não quer partir o coração de nenhum outro homem, mas sabe que é uma pecadora. A sonoridade country-roqueira continua em alta, agora com a participação de Father John Misty, enquanto ela entoa um pedido de desculpas sem qualquer arrependimento. Talvez uma das menos interessantes do álbum, pela falta de um ápice ou algo que realmente nos prenda do início ao fim. “Eu posso te levar comigo, mas não os seus fantasmas.”

“Come to Mama”

Você pensou que eu não ia fazer jazz hoje, né? Nessa faixa, além do gênero explorado por Gaga com Tony Bennett, é difícil não encontrar um pouco dos Beatles e Elton John, que são outras das grandes influências da cantora, tanto na sua sonoridade, quanto letra, que prega uma mensagem positiva de amor pelo próximo. Entretanto, por melhor que seja a intenção, é uma música que não se encaixa no álbum. “Cara, faz pouco tempo desde que vivíamos todos numa selva, então por que temos que colocar o outro para baixo quando há mais amor do que o suficiente por todo o mundo?”


“Hey Girl (feat. Florence Welch)”

E tem mais Elton John por aqui. A única colaboração vocal do álbum traz a participação de Florence Welch e, logo em seus primeiros segundos, invocam o clássico “Bennie and The Jets”, do músico londrino, mantendo o tom positivo da faixa anterior, agora com um discurso feminista de união entre mulheres. 



Quando se falou numa parceria entre Gaga e Florence, muitos – incluam a gente aqui – esperaram por algo grandioso, tanto pelos trabalhos anteriores da cantora de “Perfect Illusion”, quanto pelos ares épicos da breve discografia de Florence, com a banda Florence + The Machine, mas as duas optaram pela grandiosidade na simplicidade, uma ideia aplicada ao longo de todo o disco, com uma letra e mensagem que compensam a ausência de grandes momentos em seu arranjo, além de uma química que esperamos ouvir mais vezes no futuro. “Ei, garota, nós podemos tornar isso mais fácil se ajudarmos uma à outra.”

“Angel Down”

Aos 17 anos, Trayvon Martin foi assassinado por um guarda nos EUA, se tornando apenas mais um caso de crime por racismo no país e, algum tempo depois, um dos rostos que viria a dar força ao movimento Black Lives Matter. O jovem foi lembrado em discos como “Lemonade”, da Beyoncé, e “Blonde”, do Frank Ocean, e agora serviu de inspiração para “Angel Down”, como contou a própria Lady Gaga numa entrevista para a rádio Beats 1.

Musicalmente falando, essa abre espaço para uma trégua do lado country de “Joanne”, se assemelhando bastante às baladinhas de Lady Gaga em trabalhos anteriores, como a grandiosa “Dope”. “Tiros foram disparados na rua, perto da igreja em que costumávamos nos encontrar. Um anjo cai, um anjo cai, mas as pessoas apenas continuam de pé ao redor.” 


“Grigio Girls”

A versão deluxe do álbum é aberta pela harmoniosa “Grigio Girls”, uma homenagem a velha amiga da cantora, Sonja Dunham, que atualmente luta contra o câncer. Na música, Gaga canta, em tom nostálgico, sobre o tempo em que precisou aprender a lidar com a doença e os questionamentos quanto a razão que levou sua amiga a sofrer com isso. “Isso faz sentido?”, ela questiona, após pedir: “faça isso fazer sentido”. Uma triste celebração.

“Just Another Day”

David Bowie ficaria orgulhoso dessa faixa. Essa é a única letra composta apenas por Lady Gaga no disco, entretanto, deve muito de seu arranjo aos outros colaboradores, com menções diretas a Mark Ronson, que fez suas guitarras, baixos e teclado, ao baterista Homer Steinweiss e ao trompetista Brian Newman. “E depois de tudo, é só mais um dia.”

Na sua versão deluxe, o disco encerra com uma edição “work tape” de “Angel Down”, que sugere o registro de uma gravação única, sem correções posteriores.

***


Passados os excessos, a fase mais madura de Lady Gaga é levada pela compreensão de que, pra se fazer entender e ser levada a sério, ela não precisa vir carregada com toda a sua bagagem, assim como nem seríamos capazes de digeri-la de uma só vez. “Joanne” é simples, mas, ao mesmo tempo, de simples não tem nada. Assim como é pop e, em muitas faixas, parece ir justamente na contramão disso, com letras e arranjos que dificilmente ganharão as rádios, mas tocarão incessantemente em nosso Spotify – e, eventualmente, na nossa memória também.

De Madonna à Dolly Parton, passando por Bowie, Elton John e Beatles, o disco mantém uma importante relação entre Gaga, seu público e ídolos, como se usasse a sua música para educar-nos quanto ao que fez a trilha sonora de sua vida, com a colaboração mais do que bem vinda de nomes da atualidade, que fazem todo esse conjunto funcionar bem tanto para o público mais velho, que chega ao seu trabalho após ouvi-la cantar jazz com Tony Bennett e um clássico de “A Noviça Rebelde” no Oscar, quanto o mais novo, sedento por seu próximo passo pop e aparições nas mais altas posições da Billboard Hot 100.

Esse é um disco para poucos e que, na melhor das hipóteses, significa o “foda-se” de Lady Gaga para o que as paradas esperavam ou não vê-la cantar, embora mantenha sua necessidade de ser reconhecida como uma das artistas pop mais interessantes da atualidade. Se bater a saudade de seus trabalhos anteriores, a dica é procurá-los na plataforma de streaming de sua preferência e ouvi-los, afinal, eles continuam existindo e ainda soam bem atuais.

Tecnologia do Blogger.